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‘História de um Casamento’ mostra os problemas que levam um casal ao fim do relacionamento

Filme de Noah Baumbach foca num casamento por meio de um retrovisor, à medida que os dois parceiros, interpretados por Adam Driver e Scarlett Johansson, seguem em direções opostas

Entrevista com

Noah Baumbach

Reggie Ugwu, The New York Times

16 de dezembro de 2019 | 06h00

Noah Baumbach, 50 anos, dirigiu História de Um Casamento e sabe que, aparentemente, é um filme “muito Noah Baumbach”, com personagens muito no estilo dele – artísticos, burgueses, simpáticos e repelentes –, em cenários naturalistas a ponto de despertar suspeitas, como se saídos das páginas de um caderno de notas inclemente.

Em Tempo de Decisão (1995), realizado logo depois de ele se formar na Vassar, seu tema foi sobre jovens nos seus 20 anos recém-formados em uma faculdade de elite, lutando para se adaptar a um mundo além dos seus egos sem limites. Em A Lula e a Baleia (2005), ele focou uma família erudita do Brooklyn na década de 1989, mergulhada numa disputa de divórcio amarga. O patriarca, interpretado por Jeff Daniels, usou um casaco que pertenceu ao pai de Baumbach.

Com História de um Casamento, provável candidato ao Oscar de melhor filme e roteiro original, e disponível na Netflix, Baumbach retorna ao divórcio. O filme foca num casamento por meio de um retrovisor, à medida que os dois parceiros, um diretor de teatro de Nova York e uma atriz com um passado e um potencial futuro em Hollywood, seguem em direções opostas. Sua veracidade inspirou comparações com seu próprio casamento com a atriz nascida em Los Angeles Jennifer Jason Leigh da qual ele se divorciou em 2013.

Baumbach entende este impulso até certo ponto. Todos os seus filmes são iluminados em parte por brasas fumegantes da sua experiência pessoal. Mas as pessoas não veem de fato que nenhum simples caderno de notas, nenhuma narrativa de fatos da vida, jamais seria algo divertido, triste, ou relevante da maneira particular que História de um Casamento é cada uma dessas coisas?

Você acreditaria, se ele lhe dissesse, que embora os personagens centrais do filme, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) compartilhem detalhes biográficos relativos a ele e Leigh, suas reais histórias não têm muito em comum? “Não conseguiria escrever uma história autobiográfica se tentasse”, disse Baumbach. “Este filme não é autobiográfico, é pessoal e há uma real distinção nisto.”

O que vê como diferença entre autobiográfico e pessoal?

Acho que quando as pessoas dizem autobiográfico elas estão supondo que é algo pessoal, o que nenhum dos meus filmes é de modo algum. Posso usar detalhes autobiográficos às vezes, mas qualquer extrapolação além disto não tem nenhum significado para o trabalho ou para mim.

Por que você acha que é mais vulnerável a esse tipo de extrapolação do que outros cineastas?

Acho que, em parte, porque meus filmes acontecem em alguma versão do mundo real, portanto há uma espécie de identificação. Se você assiste a um filme de David Lynch não vai achar que aquilo acabou de acontecer com você. E quando assiste a História de Um Casamento talvez pense, “oh, eu passei por essa experiência”.

O que faz você parar e pensar: "isto deveria estar num filme"?

Cresci no Brooklyn. Num determinado momento, saindo do metrô para a rua, achei que havia algo que gostaria de colocar num filme. Adoro a ideia de sair da terra – algo sobre a maneira como a emoção e a imagem se juntam para mim. Outras vezes pode ser alguma coisa que sinto que é matéria prima para uma cena. No caso de Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (2017), havia passado longo tempo em hospitais (seu pai, o escritor Jonathan Baumbach morreu em março) e pensei sobre um médico saindo de férias no momento em que mais necessita dele, ou enfermeiras mudando de turno e você não gosta da nova que assumiu. É algo que pode ser muito frustrante, mas é algo como um fio elétrico que você usa para ativar alguma coisa.

Como fez para entrar nas mentes de Charles e Nicole?

Muita pesquisa. Conversando com amigos, e com amigos de amigos, depois com advogados e mediadores. Falei com mulheres e homens para ter as diferentes perspectivas, o que ajudou a externar as coisas. Os atores contribuíram muito – Adam e Scarlett. Conversei com Scarlett e Laura (Dern), que interpreta a poderosa advogada de Nicole, e elas falaram sobre suas experiências de relacionamentos, divórcio, carreira, ou apenas o fato de serem seres humanos. Eu vivo com Greta (Gerwig) e estamos muito envolvidos nos projetos recíprocos, por isso eu sempre mostro a ela coisas para ler ou discutir com ela e ter ideias.

Quando está criando personagens inspirados em pessoas que estão na sua vida, pensa quando elas assistirão ao filme?

Bem, os personagens não são substitutos de uma pessoa real. Mas se uso um detalhe específico de alguém, certamente peço permissão a essa pessoa. Mas de fato, as únicas vezes que alguém chegou para mim e disse, "hey você baseou aquilo em mim” foram vezes em que não fiz isto.

Qual a sensação quando as pessoas supõem que o filme tem a ver com você e sua ex-mulher?

Bem, as pessoas reagem assim em cada filme que faço. Às vezes acho que é um cumprimento o fato de ficarem envolvidas ou interessadas, a ponto de eu achar que é verdade, porque isso provoca um sentimento de desejar saber de onde partiu determinada coisa. Não me incomoda, mas também não é algo que não posso responder. É um trabalho de ficção, mas extremamente pessoal ao mesmo tempo.

Como acha que trabalhar com Greta afetou sua maneira de ver as coisas?

Ela tem uma influência singular na minha vida, como uma pessoa criativa e como pessoa. Mesmo quando trabalhou como atriz em O Solteirão reconheci uma familiaridade na maneira que ela interpretava seu papel. Adam também. Quando Greta e eu começamos a escrever juntos de verdade, tive um sentimento similar. Acho que sempre reconheci alguma coisa nela – como eu gostaria de ser, como pessoa e como cineasta.

Como assim?

Cresci de um modo em que prevalecia a ideia de que não devemos celebrar. “Não comemore porque isso tudo pode desmoronar.” Naturalmente isso somente leva à morte. Greta sabe como comemorar. Ela é tão entusiasta e se envolve tanto com o presente que me ajuda a apreciar aquilo que acontece de uma maneira que eu nunca consegui desfrutar. De certo modo nunca fui de apreciar tudo, mas acho que hoje desfruto mais por causa dela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Veja o trailer de História de Um Casamento:

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