Higiente racial, "a coisa mais idiota que existe"

Peter Cohen esteve em São Paulo no ano passado como jurado da Mostra Internacional de Cinema. Homo Sapiens 1900 foi exibido no evento e está agora em cartaz, distribuído pelo selo Filmes da Mostra, que também já distribuiu, em cinema e vídeo, o documentário anterior de Cohen, A Arquitetura da Destruição. De maneira geral, os críticos consideram o segundo melhor, pelo enfoque que o autor dá ao tema da influência do nazismo nas artes. A opinião não é compartilhada pelo próprio Cohen. Ele prefere o filme sobre a eugenia, que discute a maneira como ela foi usada por regimes totalitários como o nazismo e o stalinismo.Foram diversos contatos telefônicos entre São Paulo e Estocolmo, onde reside o diretor. Cohen preferiu responder às perguntas por escrito, via e-mail. Diz que, em geral, não contesta as opiniões dos críticos. Mas lhe incomoda a idéia de que A Arquitetura da Destruição seja considerado melhor do que Homo Sapiens 1900. Acha que o primeiro é mais acessível e até desfrutável - usa a palavra "entertaining". Todo mundo sabe pelo menos um pouco sobre o nazismo. Assim, é mais fácil para qualquer pessoa perceber o que há de novo, e atraente, no enfoque que ele dá ao assunto em A Arquitetura da Destruição. Já a eugenia é um tema do qual poucos têm conhecimento. Cohen chega a dizer que "normal people", assim, entre aspas, não sabe nada sobre o assunto e, por isso, pelo trabalho de esclarecer e iluminar um tema tão vasto e tão pouco discutido, ele considera Homo Sapiens 1900 melhor como cinema."É mais maduro como linguagem e como forma ensaística de tratar um tema político no formato filme", escreve. Na abordagem do nazismo nas artes em A Arquitetura da Destruição, já se havia aprofundado em questões fundamentais da doutrina de Hitler. "A higiene racial, a idéia de aprimorar a raça humana, criando o super-homem ariano, sempre foi essencial nessa doutrina", lembra Cohen. Quando começou a pesquisar para Homo Sapiens 1900, encontrou arquivos inteiros na ex-União Soviética, incluindo algumas das imagens mais fortes do filme - a dos símbolos do comunismo e do nazismo postos frente a frente, pela localização dos pavilhões da Alemanha e da URSS na feira de Paris, por exemplo. Há dez anos, ele diz, o desenvolvimento no campo da genética já era grande. O Projeto Genoma, que levou à criação da ovelha Dolly, já estava na agenda, mas ele acha que colocar a clonagem no filme teria datado seu trabalho."Decidi desde o início que não trataria o tema numa perspectiva imediatista, focalizando os últimos avanços da ciência nesse campo." Acredita que, no formato que escolheu, Homo Sapiens 1900 será tão interessante dentro de 10 ou 20 anos como é hoje. Desde o seu surgimento, acredita que a eugenia só mudou num ponto - "Do ponto de vista biológico, a eugenia ligada à questão racial desapareceu do mapa ou perdeu a importância que tinha no nazismo." Logo, se corrige. "Mudou em outro ponto importante - a eugenia não é mais um assunto da sociedade - é um assunto privado; a influência da ideologia e da política limita-se hoje a efeitos indiretos, por meio da informação (que, eventualmente, pode ser transformada em propaganda) e isso, claro, como instrumento para uma potencial legislação."O que ele considera crucial é quão pouco evoluiu o debate sobre as ciências biológicas em questões como a hereditariedade ou a influência do meio. "Os métodos e instrumentos desenvolveram-se muito e rapidamente, mas em termos de interpretação não evoluímos tanto nesses 80 anos", diz Cohen. "Ainda sabemos pouco, quase nada, sobre a biologia do processo de pensar, um conhecimento fundamental, mas em relação ao qual permanecemos estúpidos, se é que posso dizer assim."Seu ponto é que Homo Sapiens 1900 aciona o gatilho para uma dicussão que, partindo da experiência passada, abre-se para o futuro. "Se alguém pensar que eu não sou contra a eugenia, mas contra o seu mau uso, não terá assimilado minhas idéias; acho que é a coisa mais idiota que existe." Mesmo que o debate sobre o assunto prossiga pelos próximos 100 ou 200 anos, mesmo com todo o desenvolvimento que o homem ainda vai adquirir, ele acha que será sempre uma idéia "idiota" tentar aprimorar, artificialmente, a raça humana. Na mesma linha de raciocínio, Cohen não vê Homo Sapiens 1900 como um filme sobre (e contra) totalitarismos. A idéia do filme pode ter surgido de fenômenos ligados ao totalitarismo, seja nazista ou stalinista, mas ele acha que a pertinência do tema independe de ocorrer numa sociedade democrática ou totalitária.Acrescenta que o debate sobre as formas de "salvar" e "aprimorar" o homem ocorre em todo o mundo. "É um debate sem fronteiras", diz. "Cada país desenvolveu a própria forma de tratar o tema, até mesmo o Brasil." Embora ressalte que não estudou especificamente a eugenia no País, ele acredita que o tema "possui uma história muito interessante no Brasil, pelas tentativas de adaptar e ajustar o fenômeno às condições especiais e (do ponto de vista eugenístico) quase incompreensíveis da nação brasileira."Cohen diz que o seu interesse é pelos caminhos que cruzam o tempo, a história e o comportamento humano - "A filosofia, se você quiser." Nosso século é desconcertante e apaixonante em muitos aspectos. "Caracterizou-se pelo horror político e ideológico e esse é um problema que concerne a todo mundo, queira-se ou não." Diz que não escolheu esta época para nascer, mas está tentando entendê-la e modificá-la. Por isso faz filmes como A Arquitetura da Destruição e Homo Sapiens 1900. Homo Sapiens 1900 - Documentário - Direção de Peter Cohen. Suécia/98. Duração: 85 minutos. Espaço Unibanco 2, às 14h10. 14 anos.

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