Herói e amante de botas

Antonio Banderas e Salma Hayek falam da nova animação de Chris Miller

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2011 | 14h33

Salma Hayek e Antonio Banderas estão na estrada há dias. Cidade do México, Buenos Aires, Rio. E, partindo do Brasil, Paris, Barcelona, Roma. Muitas entrevistas para promover O Gato de Botas, animação de Chris Miller na qual fazem as vozes dos protagonistas. O filme estreia dia 9 no Brasil. Banderas é o próprio Gato de Botas. Salma é a gatinha protofeminista que aumenta os perigos do gato espadachim e também o salva. “Não é o que fazemos? Ser mais fortes do que os homens, mas dando a impressão de que somos frágeis e dependemos deles?” Salma pergunta, mas a entonação é de quem afirma.

 

Ela adorou ser chamada para o papel. “Creio que estou dando bom exemplo para todas as mulheres com minha personagem.” Tanto Banderas quanto ela descartam que estejam só dublando as personagens. “O processo é bem mais criativo que isso”, ele esclarece.

 

Banderas adora o personagem. “Ele possui características do Zorro e referências de pistoleiros de Sergio Leone. É um personagem completo. Amante, herói. ” E explica que, no processo criativo de uma animação, o personagem, na verdade, antecipa o desenho.

 

“Salma e eu passamos por incontáveis sessões de gravação e de modelagem. Chris (Miller) nos incentivava a criar, improvisando os diálogos. E sobre os nossos gestos, a nossa fisicalidade, os desenhistas da DreamWorks iam modelando a dupla.” A própria Salma acrescenta. “Sou de Vera Cruz (no México). Lá somos todos dançarinos. Talvez não seja tão grande quanto a gatita no filme, mas as cenas de dança foram muito gostosas de fazer.” Que tal continuar encarnando a imagem da latina sexy? “Na minha idade? É lisonjeiro.” Tantas vezes ela se refere à questão da idade que o repórter termina por interrompê-la. “Você fala como se fosse velha.” “Mas sou! Nessa indústria! Quantos anos você acha que tenho? 45! Há muitas jovens buscando reconhecimento. Que me chamem porque ainda me acham gostosa, é coisa de envaidecer qualquer mulher.”

 

Antonio Banderas acha que nunca vai se livrar da imagem de amante latino. “Fiz mais personagens gays do que qualquer outro ator, mas colaram em mim essa etiqueta do latino sexy. Vou ficar velhinho e ainda serei o amante latino”, ele diz. Define o novo filme com Pedro Almodóvar, A Pele Que Habito, como talvez seu maior desafio como ator. “Pedro infernizou minha vida no set. Tinha vontade de esganá-lo. Só entendi o que queria quando vi o filme pronto. Eu próprio fiquei perturbado.”

 

Entrevista: Salma Hayek

“A gatita é independente, pode ser inspiração para as meninas”

 

Por que tem filmado tão pouco?

Mas eu nunca filmei tanto na minha vida. Há dois, três anos, realmente havia feito uma parada porque nascera meu bebê e eu queria tempo para ser mãe. Fiz a comédia com Adam Sandler e o Gato porque a produção concordou em gravar minhas cenas em Paris. Mas agora acabo de fazer quatro filmes. Você vai ter uma overdose minha no ano que vem. Um dos filmes é de Alex de La Iglesia, o diretor espanhol de cinema fantástico.

 

O que havia de tão atraente para querer fazer a gatita?

Ela pode ser inspiração para as meninas. É independente, sabe e faz o que quer, não depende dos homens e até salva a vida do herói. Em geral, é o que fazemos, mas há essa mentalidade retrógrada de que as mulheres têm de viver à sombra dos homens.

 

Você parece estar falando de Frida Khalo, Viver a mexicana foi importante?

Muito. E vou contar uma coisa que nunca disse antes. Houve um momento em que Walter Salles ia dirigir o filme. Trabalhamos juntos muito tempo e ele me abriu os olhos para coisas que não percebia. Depois, o cronograma de produção foi complicado pela falta de verba, Walter foi fazer outras coisas, mas continuamos em contato e ele seguiu me ajudando. Para mim, Frida, o filme, também é brasileiro. E eu estou muito feliz de estar aqui hoje.

 

Entrevista: Antonio Banderas

“Os brasileiros poderão não me ouvir, mas estarão me vendo”

 

Você diz que o personagem do Gato de Botas foi modelado a partir de você. Marisa Paredes contou que (Pedro) Almodóvar chegava a mostrar como queria que você fizesse o papel em A Pele Que Habito. É o oposto, não?

Há 22 anos não trabalhava com Pedro, desde Áta-me. O personagem, no roteiro, era maior que a vida, um louco. A tendência da gente é representar um personagem desses para fora. O que Pedro fez foi me segurar. Ele me disse: “Jogue fora tudo o que fizemos antes. Não é do jeito que você propõe. Queria esganá-lo, mas depois entendi”.

 

Onde você buscou a inspiração para o personagem?

Não em mim. É curioso, mas sinto que há muito mais de mim no filme que dirigi e até no Gato de Botas, que foi modelado a partir de mim. O médico de A Pele Que Habito é outro a quem empresto meus gestos, meu físico, meu olhar – o olhar mais duro que já tive de expressar.

 

O filme será exibido no Brasil preferencialmente em cópias dubladas para o português. Ninguém vai ouvir sua voz. É decepcionante?

As pessoas poderão não ouvir minha voz, e não apenas aqui. No Japão, em vários países da Europa, mas não no México nem na Argentina, porque eu faço a dublagem em espanhol. Mas sei que elas estarão me vendo, senão ouvindo. O Gato de Botas é uma parte de mim.

 

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA DISTRIBUIDORA DO FILME

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