Hector Babenco ocupa o Carandiru

O pavilhão dois da Casa de Detenção está vazio. Os últimos presos foram transferidos na segunda-feira para outros presídios. Eles engrossam a massa de 2,8 mil sentenciados que já deixaram o Carandiru. Mais de 4 mil aguardam remoção para uma das 11 penitenciárias (9 de regime fechado e 2 de semi-aberto) construídas no interior do Estado.Ontem, o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukuawa, entregou a chave e o cadeado do portão de entrada do pavilhão ao diretor Hector Babenco. Nas próximas semanas, o presídio será cenário de Carandiru, novo filme de Babenco baseado no livro Estação Carandiru (Cia.das Letras, 1999), escrito pelo médico Drauzio Varella.A cerimônia de entrega foi rápida. Babenco recebeu simbolicamente a chave e o cadeado dentro de uma caixa azul forrada de veludo das mãos de Furukuawa. "Conforme o prometido, a partir de hoje o pavilhão dois é seu", disse o secretário. "Preferia estar recebendo o Oscar", brincou o diretor. Depois disso respondeu laconicamente a uma única pergunta feita pelos jornalistas e foi embora.Furukuawa espera que o filme revele a "verdade do sistema carcerário" e retrate o último capítulo de um modelo que ele garante ter seus dias contados: a superpopulação dos presídios com a conseqüente incapacidade do Estado em mantê-los sob controle. Babenco e a produção de Carandiru, orçado em R$ 12 milhões, filmarão durante três semanas, provavelmente em março, cenas externas. Um muro será erguido para separar o dois dos demais pavilhões a fim de dar segurança à equipe de filmagem.As cenas internas serão rodadas nos estúdios da Vera Cruz num estúdio de 5,4 mil metros quadrados. A produção contará com oito mil figurantes e 37 atores. Luiz Carlos Vasconcellos fará o papel do médico. Também estão confirmados os nomes de Maria Luísa Mendonça e Caio Blat. A população carcerária do Carandiru, quando Varella começou a fazer um trabalho voluntário de prevenção à aids, em 1989, era de 7,2 mil pessoas espalhadas por nove pavilhões de cinco andares cada. Cerca de 800 presos viviam no dois, que funciona como a entrada da cadeia, onde se faz a identificação, a triagem e a distribuição.Os presos colocados ali cuidavam da administração: chefia, carceragem, serviço de som e refeitório dos funcionários. No térreo funcionavam a alfaiataria, a barbearia, a fotografia, a rouparia e a laborterapia, que controlava a remissão de pena (para cada três dias trabalhados, o detento ganha um de redução de pena). Todos trabalhavam no dois. O pátio interno também abrigava um templo da igreja evangélica Assembléia de Deus, a que conta com mais adeptos dentro da Casa de Detenção. Nesse local acontecia o ritual de chegada. Depois de registrado, o detento ficava no pátio apenas de cueca na frente de todos. Em seguida, recebia uma calça cáqui, apelidada de "calça jega", e cortava o cabelo. Os presos deixaram o pavilhão dois, mas as marcas de sua passagem estão por toda parte. No primeiro andar, as paredes externas dos corredores são grafitadas com cenas de violência, heróis de histórias em quadrinhos e mensagens religiosas.As celas ainda conservam velhos colchões, travesseiros, beliches, pontas de cigarros, fotos nas paredes, latas e panelas no chão e nas improvisadas cozinhas que dividem o espaço com latrinas e pequenas pias. Até 20 presos viviam amontoados em cárceres planejados para abrigar seis pessoas. Em abril, os nove pavilhões serão dinamitados. Antes, o Governo de São Paulo promete abrir, por alguns dias, os velhos portões do Carandiru para visitação pública.

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