Denise Andrade / Estadão
Denise Andrade / Estadão

'Hector Babenco foi uma alternativa ao cinema novo', diz Arnaldo Jabor

Cineasta argentino-brasileiro morreu na noite desta quarta-feira, 13

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2016 | 12h39

(Depoimento concedido a Ubiratan Brasil)

Hector Babenco foi uma alternativa ao cinema novo. Havia cineastas da época que achavam Pixote um filme fascista porque, no final, apresentava uma visão emocional, afetiva, do menino, quando, segundo alguns diretores, tinha de ser mais brechtiano. Não se podia falar da miséria a não ser de forma distanciada, crítica. Ora, isso é uma bobagem.

Se tivesse ficado no Rio, Babenco não teria sido quem foi. Ele veio para São Paulo e não caiu nas malhas do corporativismo ideológico do cinema novo, que era forte. Ele mostrou um cinema de realismo crítico, alternativo, mas sem a influência do bom e velho Brecht, que marcava os artistas do Rio.

Babenco sempre teve uma consciência da universalidade do cinema. Por não ser brasileiro de nascença, ele não era nacionalista, o que o salvou, ao contrário de outros cineastas, prejudicados por um nacionalismo maluco. Quando foi agradecer o sucesso de Pixote, Babenco disse, na época, se sentir satisfeito por ter entrado na comunidade internacional do cinema. Isso me fez entender que ele tinha uma visão muito mais ampla que os nacionalistazinhos de plantão. Babenco é o único cineasta brasileiro a atingir um prestígio internacional ligado ao grande cinema. Glauber Rocha, Bruno Barreto, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, todos são respeitados no exterior, mas apenas Babenco entrou no mundo real do cinema internacional.

Das pessoas que conheci, foi a que mais lutou pela vida. Era um resiliente. Nós nos conhecíamos havia quase 50 anos. Ele era uma das dez pessoas que assistiram à primeira sessão do meu filme Toda Nudez Será Castigada, em 1973. Eu não sabia o porquê de ele estar lá, mas ficamos amigos naquele dia.

Babenco deixa, ao menos, uma obra-prima: Pixote. Ele gostava de contar histórias sobre violência e morte. Era muito vigoroso como cineasta. Deixou ainda outros grandes filmes, como O Beijo da Mulher Aranha, Carandiru e Brincando nos Campos do Senhor que, se tivesse meia hora menos, seria perfeito. Pedi encarecidamente para cortar, mas ele se recusou. Mesmo assim, é um filme extraordinário.

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