Hector Babenco fala de "Coração Iluminado"

Passaram-se apenas dois anos, mas Hector Babenco já tem distanciamento crítico para definir Coração Iluminado como "resultado tragicômico de uma ressurreição". Ele quase morreu de câncer. Teve de fazer um transplante de medula óssea. O filme ajudou a prendê-lo à vida. Era um filme que Babenco queria realizar. Mais do que isso, um filme que ele precisava realizar. Coração Iluminado é uma obra autobiográfica. Baseia-se numa experiência da juventude do diretor. Às 18h30 desta quarta-feira, o filme será exibido no Sesc Pompéia. Logo em seguida, Babenco conversa com o público.É o início do projeto Encontro com Cinema, uma iniciativa do Sesc Pompéia, cujo objetivo é aproximar o público dos diretores. O encontro será mensal. Dia 20 de setembro, será com Zelito Viana, que conversa com o público após a exibição de Villa-Lobos. Ele também aproveita para lançar o CD com a trilha e o livro com o roteiro de Villa-Lobos, que escreveu com Joaquim Assis. Babenco considera salutar esse tipo de exercício, ainda mais no caso de Coração Iluminado. É um filme que ele ama. Acompanha-o onde quer que vá, aceita conversar com qualquer platéia sobre Coração Iluminado. E explica: "O filme teve pouca exposição."Não reclama da distribuidora Columbia. Diz que ela é decente, mas só sabe trabalhar em termos de grandes lançamentos. Não soube, efetivamente, o que fazer com um filme pessoal, autoral, que exigia uma relação particular do público com a obra filmada. Essa relação pessoalizada é que Babenco espera retomar amanhã, mais uma vez. Ele gosta de ouvir o outro, ainda mais quando esse outro age de forma tão aplicada, dispondo-se a sair de casa para ver um filme e dialogar com o autor. Considera o processo duplamente enriquecedor.Cita casos recentes de assassinatos "por amor" para discutir o estranhamento causado pelo desfecho de Coração Iluminado. Acha que o fim do seu filme desconcertou muita gente, não foi adequadamente compreendido. O escritor Ricardo Piglia e ele, enquanto elaboravam o roteiro, discutiram muito se o público estaria disposto a aceitar um crime que não tem motivação externa. É produto de um desatino, de uma emoção intensa, de uma privação dos sentidos. Babenco lembra como ficou satisfeito quando o filme foi selecionado para a competição oficial de Cannes 98. Pensou que aquela seria a platéia ideal para o seu projeto tão ousado. Foi atropelado por dois filmes que fizeram sensação - Os Idiotas, de Lars Von Trier, e A Vida É Bela, de Roberto Benigni. A superexposição desses filmes, o debate que provocaram, tudo isso terminou por ofuscar Coração Iluminado.O diretor sabe que o sucesso de público de um filme nem sempre é conseqüência direta de sua qualidade. O fato de um filme arrebentar nas bilheterias não significa, necessariamente, que seja bom. Alguns dos maiores sucessos de Babenco foram filmes reconhecidamente bons. Com Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de 1978, ele obteve a quarta maior bilheteria para um filme brasileiro, ultrapassando a marca de 5,4 milhões de espectadores. Com Pixote, a Lei do Mais Fraco, de 1981, considerado o terceiro melhor filme da década pela revista American Film, provocou sensação. Lançou aos olhos do mundo o rosto da infância abandonada e violenta.Babenco participou, há pouco, de uma experiência que o marcou muito. Houve uma exibição de Pixote, seguida de debate, na Sala Cinemateca. Foi num fim de tarde de domingo, num evento promovido pela Sociedade de Psiquiatria. Babenco foi lá, reviu o filme e admite que teve um choque. Emocionou-se profundamente. Rever, quase 20 anos depois, o filme que fez levou-o numa espécie de viagem ao homem e artista que ele era - e continua sendo. Promete retomar uma série de procedimentos de Pixote no filme que pretende rodar no ano que vem - Estação Carandiru, baseado no livro de sucesso (mas que não se confunde com um best seller comum) de Drauzio Varella.Está sendo difícil montar a produção de Carandiru. É um filme caro, nos padrões do inflacionado cinema brasileiro atual. "Não é um filme para fazer em casa", diz Babenco. Envolve a reconstituição do tristemente famoso pavilhão 9, um trabalho que ele anuncia como "sofisticado e minucioso". Todo mundo que lê o roteiro - de Vitor Navas e dele - gosta muito, antecipa um grande filme. Babenco está escaldado. Acha esse tipo de entusiasmo generoso, mas inútil. Um filme é produto de amor, de dedicação, de trabalho.Foi assim com Coração Iluminado. Quis fazer um filme que subvertesse velhos códigos do cinema memorialista e autobiográfico. Quis ser autoral e psicanalítico. Mal comparando diz que fez um jantar muito cuidado para 16 pessoas - foram só oito. A reduzida circulação do público o entristece. Filma pensando no grande público, mas não faz concessões para atraí-lo. Não é do seu feitio. Ultimamente tem dirigido para teatro e trabalhado como ator. Define a direção de Mais perto (Closer) como um "frila", um free lance, no código jornalístico. Como ator, participou de Venetian Project, de Robert Dornhelm, e de Antes Que Anoiteça, de Julian Schnabel baseado no relato autobiográfico do cubano Reynaldo Arenas, que concorre em Veneza. Acompanhou o processo desses filmes, leu os roteiros e terminou fazendo pequenos papéis. Mas não se considera ator. "Foram ações entre amigos."Hector Babenco - Conversa com o público após a exibição do filme Coração Iluminado. Nesta quarta-feira, às 18h30. Grátis. Auditório do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, Pompéia, 3871-7700.

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