Hector Babenco abre o set de "Carandiru"

Demorou a cair a ficha, como HectorBabenco diz. Só outro dia, no set de Carandiru, ele se deuconta de uma coisa que parece até óbvia. Em Pixote, a Lei doMais Fraco, sua obra-prima de 1982, focalizou os dramas demenores marginalizados e violentos, em instituições como aFundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). EmCarandiru, mostrando os dramas dos presos no maior complexopenitenciário do País, conta as histórias dos garotos dePixote 20 anos depois. Eles cresceram, fizeram PhD emviolência ou a sociedade aprimorou neles a violência. Adescoberta não alegra o diretor, mas faz a ponte entre seu maiorfilme e outro que ele espera que seja igualmente grande.Carandiru está sendo feito com paixão.Babenco deveria ter terminado hoje a rodagem nosestúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo. Houve um atrasoe ele conclui só amanhã a filmagem das cenas de interioresde Carandiru. Sexta-feira, é folga da produção. Nosábado, Babenco reinicia os trabalhos para três dias deexternas. Na segunda, conclui a filmagem, faz uma pausa pararecobrar o fôlego e inicia a montagem. Está cansado, mas cheiode expectativa. Não tem tido tempo para nada. Chega de manhã aoset, antes da 8. Sai de noite, exausto. Mal consegue ler asmanchetes de jornais, nas idas e vindas de carro. Apaixonadopelo livro de Drauzio Varella, quis fazer um grande filmepopular. Espera conseguir. Ainda há muito trabalho pela frente,até que Carandiru esteja pronto para estrear.Foram mais de dois anos só para escrever o roteiro,quase três para levantar a verba da produção. O roteiro, deFernando Bonassi e Victor Navas, foi reescrito sucessivas vezesaté ficar como o diretor queria. Não é um roteiro detalhado, nosentido de prever posição de câmera, essas coisas. Babenco nãotrabalha com storyboard. Confia no seu instinto. Gosta de chegarno set, sentir o espaço e só então pensa na melhor posição dacâmera e dos atores. Talvez por isso, foi no próprio set que aficha caiu e ele fez a ligação entre os dois filmes que tratamde criminalidade e da violência do choque entre os homens e asinstituições.No sábado, rodou uma cena decisiva. Após o massacre, ossobreviventes avançam num corredor polonês, levando cacetadas dapolícia de choque. Foi o último dia de filmagem de RodrigoSantoro e Gero Camilo, que já estiveram juntos no elenco deBicho de Sete Cabeças (e Rodrigo prestigia amanhã (25), às21 horas, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, à Rua Teodoro Baima 94, em SP,a noite de autógrafos do livro do amigo: A Macaúbada Terra).Santoro não pôde ser fotografado, a pedido da produção.Está impressionante. Faz um travesti. Os seios postiçosdestacam-se no sutiã de gaze preta. Será um choque para as fãsdo galã que já mostrou ser um verdadeiro ator em Bicho eAbril Despedaçado. Santoro revela agora grande coragem aoinvestir contra a própria imagem. Babenco diz que essa é agraça: desmontar o estereótipo. O ator concorda, mas tambémadmite cansaço. "Fazer este filme me deu a sensação de ter dedomar um leão por dia."Foram 14 semanas de filmagem - esta é a 15.ª. Babencocomeçou filmando no Carandiru. Depois, por razões de praticidadee segurança, transferiu-se para os estúdios da Vera Cruz, onde odiretor de arte Clóvis Bueno, num trabalho de raro brilho eeficiência, reconstruiu uma ala do presídio com tal perfeiçãoque penetrar naquelas celas fictícias é como descer ao infernodo que deve ser o verdadeiro Carandiru. Há histórias de vidanaquelas paredes de madeira compensada e isopor, que o diretorpode alterar à vontade, para facilitar a movimentação da câmera(o que, evidentemente, é impossível no presídio real).O repórter viveu a experiência de passear sozinho nessecenário gigantesco. Estava numa cela quando ouviu, ao longe, obarulho da cena que estava sendo filmada. Gritaria, cães, tiros,tudo fica aguçado pela claustrofobia produzida pelo ambiente.Babenco possui elementos, aqui, para voltar ao seu melhornível. Ele sonha com o sucesso. Quer fazer um número realmenteexpressivo de espectadores - milhões. Quer que gostem do seufilme. "Estou precisando de um afago", diz.No carro, de volta para São Paulo, conta como e por queCarandiru entrou em sua vida. Estava muito doente. DrauzioVarella era seu médico. Recém-chegado de um congresso sobre aidsno exterior, Drauzio quis fazer uma pesquisa para estudar adoença no País. Queria um ambiente confinado, de grandeincidência de homossexualismo e do qual a contaminação pudesseirradiar-se. Escolheu o Carandiru. Ficou de tal maneiraimpressionado com o presídio que começou a trabalhar com ospresos. Ouvia suas histórias, comentava-as com Babenco. Ocineasta o incentivou a colocar essas histórias no papel.Quando Estação Carandiru ficou pronto, teve oprivilégio da primeira leitura. Sentiu que dava filme. Pediu aDrauzio um tempo, "uns seis meses", para pensar se conseguiriafazer a adaptação. Drauzio disse que o livro era dele, para oque quisesse fazer. Nem discutiu preço pelos direitos, essascoisas comerciais. Foi uma relação de fraternidade, de palavraentre os dois.

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