Don Emmert/AFP
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Harvey Weinstein, o 'monstro de Hollywood' que já não apavora mais

Primeiras denúncias de abuso sexual do produtor de cinema completam um ano. Revelações do 'The New York Times' e 'The New Yorker' fizeram explodir movimentos como 'Me Too' e 'Time's Up'

Redação, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2018 | 17h03

"A história parece tão boa que eu quero comprar os direitos do filme": foi assim que Harvey Weinstein reagiu, com arrogância, ao artigo do The New York Times que há um ano desmantelou seu império de abuso sexual. O produtor de cinema não tinha ideia da magnitude que teria esta história publicada em 5 de outubro. Cinco dias depois, a revista The New Yorker botou mais lenha na fogueira com denúncias contundentes de estupro que remontavam há décadas.

Assim foram se multiplicando as acusações contra ele, que foi chamado de "monstro". Mulheres, incluindo grandes estrelas de Hollywood, saíram da sombra para compartilhar suas dolorosas experiências com este homem, que chegou a ser considerado um deus na indústria, com poder de construir ou destruir carreiras no mundo do entretenimento. E se assegurava de que suas vítimas soubessem disso para obrigá-las a se calar.

Ashley Judd, Gwyneth Paltrow, Kate Beckinsale, Uma Thurman e Salma Hayek o acusaram de diferentes agressões, desde assédio sexual até estupro, assim como Asia Argento, Lucia Evans, Rose McGowan e Paz de la Huerta.

Mira Sorvino e Ashley Judd afirmam que ele acabou com suas carreiras porque elas não cederam às suas insinuações.

Até agora, Weinstein só foi denunciado ante a Justiça por ter agredido sexualmente três mulheres e se declarou inocente das acusações. Se for julgado e considerado culpado, pode ser condenado à prisão perpétua.

Mas Hollywood já o condenou.

Foi expulso da Academia de Cinema dos Estados Unidos e da Weinstein Company (TWC), o estúdio que fundou com seu irmão Bob e que ganhou 75 prêmios Oscar, terminou em falência e foi vendido a um fundo de investimentos.

Seu casamento com a estilista Georgina Chapman, com quem teve dois de seus cinco filhos, também acabou.

E das cinzas do império construído por aquele menino do Queens nasceram movimentos como o '#MeToo' e o 'Time's Up', além de uma mudança cultural de atitude ante este tipo de comportamento, não só em Hollywood mas também na política: o processo para confirmar o juiz Brett Kavanaugh na Suprema Corte dos Estados Unidos é o melhor exemplo disso.

As revelações contra ele também desencadearam uma onda que atingiu famosos como os atores Kevin Spacey e Morgan Freeman, e mais recentemente o ex-presidente do canal de televisão CBS Leslie Moonves.

Harvey Weinstein já não é o 'xerife desta asquerosa cidade sem lei' chamada Hollywood, como costumava ser chamado. Agora aparece algemado no tribunal de Nova York, onde as câmeras o acompanham com o mesmo frenesi com que faziam em seus desfiles nos tapetes vermelhos do mundo espetáculo.

Ainda é um homem corpulento de 100 quilos e um pouco intimidante. É defendido por Benjamin Brafman, famoso por representar celebridades, políticos e até membros da máfia.

Mas já não tem o poder que lhe permitia marcar encontros com atrizes em quartos de hotel, onde as recebia vestindo apenas um roupão e as convidava para dar ou receber massagens e para que o vissem se masturbando.

Em novembro do ano passado, depois que o escândalo foi revelado, internou-se em um centro de reabilitação para tratar seu vício em sexo e pediu uma segunda chance, que — ao que tudo indica — nunca receberá. A máquina que construiu para facilitar o acesso a suas presas, e de espiões e cúmplices para comprar silêncios, finalmente desmoronou.

Resta-lhe o Oscar que ganhou como produtor de Shakespeare Apaixonado e as lembranças de décadas de adulação, poder e influência. Foi também reconhecido por suas contribuições em campanhas contra a AIDS, diabetes juvenil e esclerose múltipla. Também fez doações ao Partido Democrata, incluindo para as campanhas de Barack Obama e Hillary Clinton.

Bob e Harvey Weinstein produziram concertos antes de fundar, em 1979, seu primeiro estúdio Miramax, que venderam à Disney em 1993.

O nome é a combinação de sua mãe Miriam - que trabalhou como recepcionista quando o estúdio foi criado, a princípio para distribuir filmes independentes - e seu pai Max, um cortador de diamantes e amante da sétima arte, que passou essa paixão para os dois filhos.

Os filmes favoritos de Harvey são Luzes da cidade, com Charles Chaplin, e Jejum de amor.

Depois de Miramax, veio a TWC, que fundaram em 2005 e que a Lantern Capital comprou por 289 milhões de dólares. Chicago, O paciente inglês, O artista e O discurso do rei são alguns dos filmes que passaram de suas mãos à glória do Oscar.

O trabalho do The New York Times que o desmascarou rendeu o prêmio Pulitzer às jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, que compartilharam com Ronan Farrow da The New Yorker.

E o filme sobre os abusos de Weinstein, aquele que era 'tão bom' que ele queria os direitos, vai ser feito, mas o produtor não será ele, e sim Brad Pitt.

Com informações da AFP

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