Johannes Eisele / AFP
O produtor Harvey Weinstein  Johannes Eisele / AFP

Harvey Weinstein fracassa em tentativa de descartar acusações de agressão sexual

Produtor de Hollywood é acusado de cinco crimes sexuais, incluindo estupro, e pode ser condenado à prisão perpétua

Redação, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2019 | 08h13

Um juiz de Nova York negou pedido de Harvey Weinstein para rejeitar duas acusações de agressão sexual, antes do julgamento do ex-produtor de Hollywood em janeiro.

A decisão divulgada nesta quarta-feira, 27, pelo juiz James Burke, da Suprema Corte em Manhattan, é uma vitória para os promotores que acusam Weinstein de cinco crimes sexuais, incluindo estupro.

Os advogados de Weinstein se recusaram a comentar em um e-mail enviado ao seu escritório. Um porta-voz do procurador do distrito de Manhattan Cyrus Vance se recusou a comentar.

Weinstein, de 67 anos, se declarou inocente das acusações de conduta sexual imprópria contra duas acusadoras em 2006 e 2013.

Um julgamento está marcado para 6 de janeiro de 2020. Weinstein pode ser condenado à prisão perpétua.

Weinstein também negou alegações de cerca de 70 mulheres de má conduta sexual que datam de décadas, dizendo que foram contatos consensuais.

Ao se recusar a descartar as acusações predatórias de agressão sexual, Burke rejeitou a alegação de Weinstein de que um suposto estupro no inverno de 1993-94 ocorreu há muito tempo para servir como crime “agravante” e “subjacente”, conforme exigido pela lei estadual.

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Quem é Harvey Weinstein?

Casos de abuso sexual por parte do poderoso produtor de cinema vieram à tona depois de denúncias comprometedoras de atrizes, modelos e profissionais da indústria

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2017 | 14h36

O nome de Harvey Weinstein invadiu os noticiários da área de cultura e entretenimento nos últimos dias depois de sérias acusações relacionadas a violência sexual. O produtor de 65 anos foi acusado por atrizes, modelos e profissionais da indústria do cinema de cometer atos sexuais forçados (estupro), ameaças físicas e verbais contra mulheres e assédio sexual.

+ Lúcia Guimarães: Precisamos falar sobre o Harvey

Linha do tempo das acusações

5/10/2017

O The New York Times publica uma reportagem com acusações de que Weinstein pagou várias pessoas para manter denúncias de assédio sexual fora do alcance do público durante vários anos.

No mesmo dia, ele anuncia o seu desligamento da The Weinstein Company, e diz que vai processar o The New York Times.

7/10/2017

A advogada Lisa Bloom abandona a defesa de Weinstein. 

8/10/2017

A fundadora do site The Wrap publica um artigo acusando o New York Times de não publicar uma matéria parecida em 2004, depois de ligações de Matt Damon e Russell Crowe para o jornal.

Weinstein é demitido da The Weinstein Company.

9/10/2017

Famosos continuam a compartilhar histórias e reações às notícias.

10/10/2017

Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie falam abertamente ao The New York Times sobre suas próprias histórias envolvendo as práticas abusivas de Weinstein. 

A revista The New Yorker publica uma matéria resultante de uma investigação de 10 meses em que outras 13 mulheres compartilham histórias de abuso por parte de Weinstein. Três delas, entre elas a atriz Asia Argento, disseram que Weinstein as estuprou forçando sexo oral ou vaginal.

Em uma gravação divulgada pela revista, Weinstein admite ter apalpado uma modelo.

Em nota, Weinstein afirma que "inequivocamente nega" as alegações de sexo não-consensual.

A esposa de Weinstein por 10 anos, Georgina Chapman, anuncia a separação do produtor.

Mas quem é Harvey Weinstein?

Nascido em março de 1952 em Nova York, ele se formou em Buffalo nos anos 1970 e começou sua carreira no show biz ao produzir shows de rock na região na época. Em 1979, ele fundou, ao lado do irmão Bob Weinstein, a Miramax, que até 1993 se destacou como produtora e distribuidora de filmes independentes.

Em 1993, a Disney adquiriu a companhia, mantendo os irmãos à frente, e no ano seguinte a empresa lançou Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, o que marcaria o início da expansão para se tornar uma das mais importantes produtoras e distribuidoras de Hollywood.

Em 2005, os irmãos decidiram deixar a empresa e fundar sua própria produtora: The Weinstein Company, que lançou alguns hits de bilheterias e muitos filmes premiados aos longo dos últimos 12 anos (veja as listas abaixo).

eus métodos de trabalho são conhecidos como duros, agressivos e muitas vezes rudes. Histórias de agressões verbais e físicas contra homens e mulheres em desacordo com suas crenças são conhecidas no show biz.

Harvey Weinstein venceu o Oscar de melhor filme em 1999 por Shakespeare Apaixonado, e foi indicado ao mesmo prêmio em 2003 por Gangues de Nova York. Desde 2005, ele é indicado com regularidade ao Emmy pelo reality Project Runaway, e também venceu ao longo da carreira sete Tony Awards, por suas produções de peças de teatro e musicais.

Em 2004, ele recebeu uma Ordem do Império Britânico honorária por sua contribuição ao cinema, e em 2012 uma honraria semelhante do governo da França lhe foi atribuída.

Ele também é conhecido por seu engajamento em questões sociais como combate à pobreza, prevenção a AIDS e pesquisas relacionadas a outras doenças, bem como na luta pela regulamentação das armas e do sistema de saúde nos EUA.

Weinstein contribuiu com campanhas de candidatos do Partido Democrata americano, incluindo Barack Obama, Hillary Clinton e diversos senadores.

Filmes produzidos pela Miramax na época dos irmãos Weinstein (1979-2005 - entre muitos outros)

Pulp Fiction (1994)

Tiros na Broadway (1994)

Kids (1995)

Um Drink no Inferno (1996)

Gênio Indomável (1997)

Shakespeare Apaixonado (1998)

Gangues de Nova York (2002)

Fahrenheit 11 de Setembro (2004)

Filmes produzidos pela The Weinstein Company (entre outros)

Vicky Cristina Barcelona (2008)

O Leitor (2008)

Bastardos Inglórios (2009)

O Discurso do Rei (2010)

O Lado Bom da Vida (2012)

Django Livre (2012)

Lion: Uma Jornada Para Casa (2016)

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Harvey Weinstein é demitido após casos de assédio sexual

Ao menos oito mulheres acusaram o produtor cinematográfico, em um período de 30 anos

AP

08 de outubro de 2017 | 21h14

O produtor cinematográfico Harvey Weinstein foi demitido, neste domingo, 8, de seu estúdio de cinema, a Weinstein Co., em resposta a relatos de que ele abusou sexualmente de mulheres há décadas. “À luz de novas informações sobre má conduta de Harvey Weinstein que surgiram nos últimos dias, os diretores da The Weinstein Co. – Robert Weinstein, Lance Maerov, Richard Koenigsberg e Tarak Ben Ammar – determinaram e informaram que o contrato de emprego de Weinstein com The Weinstein Co. está encerrado imediatamente”, disse o conselho da empresa em comunicado divulgado ontem.

O jornal The New York Times informou na semana passada que Weinstein foi acusado de assédio sexual por pelo menos oito mulheres.

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Atriz Romola Garai diz que se sentiu 'violentada' por produtor americano acusado de assédio

Harvey Weinstein foi demitido do próprio estúdio depois de ser acusado de ter assediado sexualmente várias mulheres

O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2017 | 11h39

A atriz britânica Romola Garai relatou nesta terça-feira, 10, como se sentiu "violentada" após uma reunião com Harvey Weinstein, em mais um depoimento contra o produtor americano acusado de assédio sexual.

Conhecida pelo filme Desejo e Reparação, a atriz contou ao jornal The Guardian que passou há muitos anos por uma audição "humilhante", que considerou um "abuso de poder".

"Eu tive que comparecer ao quarto de hotel dele no Savoy e ele abriu a porta de roupão. Eu tinha apenas 18 anos. Eu me senti violentada, ficou gravado na memória", conta.

Quando estava no quarto, ela sentou em uma cadeira e teve uma rápida conversa com o produtor sobre o filme, mas sentiu-se "depreciada pelo abuso de poder".

** Meryl Streep condena Harvey Weinstein, acusado de assédio sexual: “injustificável”

Para ela, o incidente reflete a maneira de Weinstein de se aproximar das mulheres da indústria do cinema, ao colocar jovens atrizes em "situações humilhantes" para provar que "tem o poder para fazer isto".

Weinstein foi demitido no domingo de seu próprio estúdio, Weinstein Company, depois de ser acusado de ter assediado sexualmente várias mulheres durante décadas.

Várias mulheres, entre elas as atrizes Ashley Judd e Rose Mcgowan, acusam-no de tê-las obrigado a vê-lo pelado, de tentar fazer que o massageassem, ou mesmo de propor ajudá-las em suas carreiras em troca de favores sexuais.

 

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Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie acusam produtor de assédio

As duas atrizes revelaram as investidas de Harvey Weinstein

EFE

10 de outubro de 2017 | 16h30

As atrizes americanas Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie se somaram nesta terça-feira, 10, às acusações de assédio e abuso sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, que teriam ocorrido ao longo de duas décadas.

Paltrow relatou ao jornal The New York Times que antes de gravar o filme Emma (1996), quando tinha 22 anos e começava a carreira, Weinstein a chamou no hotel e sugeriu que fosse ao seu quarto para fazer massagem, mas ela recusou.

"Eu era uma menina, ia participar (do filme), estava petrificada", disse Paltrow, cujo casal à época, o também ator Brad Pitt, discutiu com o produtor por causa da situação.

De acordo com a atriz, Weinstein a ameaçou para que não contasse o ocorrido. "Pensava que ele ia me demitir", confessou a atriz.

Angelina Jolie, em e-mail, contou que no final da década de 90, durante o lançamento de Corações Apaixonados, também rejeitou investidas do produtor em um hotel, o denominador comum de várias das denúncias reveladas nos últimos.

** Donna Karan culpa mulheres ao defender Weinstein e pede desculpas

"Tive uma experiência ruim com Harvey Weinstein na minha juventude e como resultado escolhi nunca mais trabalhar com ele e advertir outras pessoas quando o faziam", declarou Jolie, que considerou o comportamento "inaceitável".

Nesta terça-feira, a revista The New Yorker publicou uma reportagem que se soma às denúncias de assédio e abuso sexual contra Weinstein feitas pelo jornal The New York Times na quinta-feira passada, citando "dúzias" de antigos e atuais funcionários.

De acordo com "The New Yorker", três mulheres alegam que foram abusadas por Weinstein, entre elas a atriz italiana Asia Argento, quatro falam de terem recebido toques indesejados e outras quatro de exibicionismo. EFE

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Harvey Weinstein faz acordos no valor de US$ 44 milhões com vítimas e credores

Atitude é forma de conter as ações civis movidas contra o ex-produtor de Hollywood, acusado de assédio sexual

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 02h33

O ex-produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, fechou acordos totalizando US$ 44 milhões com supostas vítimas e credores, revelou nesta quinta-feira, 23, o Wall Street Journal.

Os acordos, ainda não assinados, buscam deter todas as ações civis iniciadas contra Weinstein, incluindo os processos movidos no Canadá e na Grã-Bretanha. Em setembro, o ex-produtor será julgado criminalmente por duas acusações de agressão sexual.

Catalizador do movimento #MeToo, que vem criando ondas de protesto e acusações de assédio sexual por Hollywood desde 2017, Weinstein foi acusado por duas mulheres e corre o risco de ser condenado à prisão perpétua. Os acordos informados nesta quinta envolveriam também as ações promovidas pelo então procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman, como forma de garantir a indenização das vítimas.

O valor acertado será pago por companhias de seguro, incluindo empresas que atendem a The Weinstein Company, fundada pelo produtor caído em desgraça.

Desde outubro de 2017, Weinstein - até então um dos homens mais poderosos de Hollywood - foi alvo de uma enxurrada de acusações de assédio sexual, que incluiu atrizes como Ashley Judd, Angelina Jolie e Salma Hayek. / AFP

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Brian De Palma fala de seu novo filme de terror inspirado no escândalo de Harvey Weinstein

'Criei um roteiro que é meio baseado em alguns dos casos reais noticiados pelo New York Times', afirmou o diretor, durante o Festival de Veneza

Entrevista com

Brian De Palma

Mike Davidson, Reuters

03 de setembro de 2019 | 12h17

O veterano cineasta Brian De Palma, que dirigiu Carrie – A Estranha e Scarface, ainda não tem intenção de se aposentar, mesmo aos 78 anos de idade, e está trabalhando em um filme de terror inspirado no escândalo que envolveu o produtor de cinema Harvey Weinstein.

Cerca de 70 mulheres acusaram Weinstein de má conduta sexual praticada ao longo de décadas. Ele nega as acusações, tem dito que todo e qualquer encontro sexual foi consensual e se declarou inocente das acusações criminais apresentadas contra ele.

Em uma entrevista concedida à Reuters durante o Festival de Veneza, onde De Palma repassou sua carreira em uma aula magna, o diretor falou sobre a má conduta sexual em Hollywood, como lidar com críticas ruins e se adaptar a mudanças.

Abaixo estão alguns trechos editados da conversa.

Há boatos de que você está pensando em voltar ao gênero do terror, talvez com uma história inspirada no escândalo de Harvey Weinstein. Por que esse tema?

Porque, em meus anos trabalhando dentro e fora de Hollywood, fiquei muito ciente do tipo de abuso às mulheres que acontecia. E sendo um diretor que dirige mulheres o tempo todo, você fica muito sensível quanto à maneira como elas são tratadas no filme que você está fazendo. Então eu estava ciente de algumas das coisas que estavam acontecendo durante a era Harvey Weinstein e é uma história interessante para contar, e além disso gosto desse tipo de drama de suspense e criei um roteiro que é meio baseado em alguns dos casos reais noticiados pelo New York Times. Mas é basicamente um filme de suspense usando isso como pano de fundo histórico.

O movimento #MeToo precisava acontecer para provocar mudanças?

Ele incomodou diretores como eu mesmo e outros dos meus contemporâneos porque, como diretor, você lida com atores o tempo todo. E você precisa buscar a confiança deles. E se você... os leva para jantar ou abusa deles, isso vai contra o que você está tentando fazer para ganhar a confiança deles de modo que eles fiquem igualmente livres quando atuam nos filmes. É basicamente uma loucura, e as pessoas que o fazem, eu sempre senti que estão usando mal seu poder.

Você tem um relacionamento conturbado com parte da crítica de cinema. Acha que parte dela foi injustificada?

Você sempre é comparado com a moda do momento, então não pode levar isso muito a sério. Muitos dos meus filmes não foram bem quando saíram e não tiveram críticas particularmente boas, e as pessoas ainda estão falando (sobre eles) hoje. Na hora pode ser bem doloroso, mas se você sobrevive a isso ficará surpreso com o que continua importante no cinema ao longo dos anos.

Quais desafios você enfrentou à medida que a indústria mudou?

Você tenta fazer o melhor que pode... Fica mais difícil fazer filmes se você tem limitações fisicamente, então se eu conseguir fazer mais alguns filmes, ótimo, mas conforme você está chegando aos 80, isso se torna um desafio e tanto.”

 

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Julgamento de Harvey Weinstein é adiado para janeiro

Nesta segunda, 26, produtor, que chegou algemado ao tribunal, se declarou inocente de duas novas acusações por abusos cometidos contra a atriz Annabella Sciorra

Redação, EFE

26 de agosto de 2019 | 12h23

O megaprodutor de cinema Harvey Weinstein, que enfrenta na justiça americana duas acusações de agressão sexual, foi acusado nesta segunda-feira em mais dois casos.

De forma que um juiz de Nova York resolveu adiar o início do julgamento previsto para o início de setembro para 6 de janeiro de 2020.

Harvey Weinstein, de 67 anos, é acusado desde outubro de 2017 de abusos sexuais, que vão desde assédio a estupro, por mais de 80 mulheres, incluindo muitas celebridades.

Apesar da longa lista de denúncias, até então apenas dois casos haviam sido levados a julgamento em Nova York, um relacionado a um estupro em 2013 e outro por uma felação forçada em 2006.

Nesta segunda, 26, Weinstein, se declarou inocente de duas novas acusações por abusos cometidos contra a atriz Annabella Sciorra. Produtor, que chegou ao tribunal algemado e escoltado pelos defensores, entre eles duas advogadas, escutou as acusações ditas pelo juiz James Burke, encarregado do caso.

Sciorra, conhecida por interpretar a personagem Gloria Trillo na série de televisão Família Soprano, alega que Weinstein a estuprou em 1993.

Este novo comparecimento ao tribunal ocorre duas semanas antes do início do julgamento do produtor. Weinstein terá que se defender das acusações de estupro em um hotel de Manhattan em 2013 e de fazer sexo oral de maneira forçada em 2006, processos abertos por mulheres que permanecem no anonimato.

Burke rejeitou o depoimento de Sciorra em um primeiro momento, alegando que não podia fazê-lo já que o relato não tinha sido apresentado ao grande júri, por isso a promotoria buscou uma nova acusação para garantir que a atriz conte o ocorrido.

Na semana passada, a defesa do produtor solicitou que o julgamento não seja realizado na cidade de Nova York, mas em "qualquer outro condado" do estado, para garantir que o processo seja "justo". Os advogados consideram que a pressão midiática pode afetar a avaliação dos membros do tribunal.

Weinstein está em liberdade condicional após o pagamento de uma fiança de US$ 1 milhão após se declarar inocente em audiência preliminar, em julho de 2018.

 

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Um ano após as acusações de agressão sexual contra Harvey, Hollywood dá sinais de mudanças

O caso do produtor com os de Kevin Spacey, Roy Price da Amazon Studios e muitos outros expuseram a dolorosa realidade para muitas mulheres em uma indústria, em que a desigualdade de gênero é sistemática e generalizada

Jake Coyle, AP

08 de outubro de 2018 | 06h01

NOVA YORK - Depois que Rashida Jones saiu da Toy Story 4 da Pixar em 2017, ela notou que o estúdio, após 25 anos nos negócios, não havia feito nenhum longa dirigido por uma mulher, considerando isso “uma cultura em que as mulheres e as pessoas de cor não têm uma igual voz criativa”.

Então, quando o cofundador e CEO da Pixar, John Lasseter, pediu demissão, reconhecendo “erros” no seu comportamento com os empregados, ele foi mais do que outra vítima na longa lista de poderosos da indústria cinematográfica derrubados pelo movimento #MeToo. Ele era um símbolo de uma cultura de Hollywood que está morrendo – ou pelo menos sob ataque.

“Essas empresas gigantes precisam de uma transformação”, diz Jones. “Acho que as pessoas estão começando a reconhecer isso. Para mim é uma vitória.”

Desde que as acusações de agressão sexual vieram à tona contra Harvey Weinstein, Hollywood tem feito um exame de consciência. O caso Weinstein, com os de Kevin Spacey, de Les Moonves da CBS, Roy Price da Amazon Studios e muitos outros, expuseram a dolorosa realidade para muitas mulheres em uma indústria em que a desigualdade de gênero é sistemática e generalizada.

O movimento #MeToo foi bem além do cinema, mas Hollywood continua sendo o marco zero em uma erupção cultural que começou há 12 meses com as revelações sobre Weinstein, publicadas pelo New York Times e The New Yorker. Em entrevistas com atrizes, cineastas, produtores e outros, a Associated Press buscou avaliar se existe uma diferença palpável em relação ao ano anterior.

“Definitivamente, houve uma mudança sísmica”, diz Carey Mulligan, a atriz britânica. “Se eu estiver andando pela rua e alguém disser ou fizer algo que esteja fora dos limites do adequado eu me sentirei muito mais fortalecida para dizer a eles f..., enquanto antes eu provavelmente não o faria.” 

Mulligan, que interpretou uma ativista dos direitos femininos no início do século 21 em As Sufragistas (2015), e tem-se manifestado sobre as disparidades salariais de Hollywood, diz que em cada trabalho que teve no último ano houve um código de conduta bem nítido no set. 

Pesquisadores da Iniciativa de Inclusão Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, ainda não encontraram diferença na representação feminina na tela, por trás das câmeras ou na sala dos conselhos. Novos dados após o fim do ano darão um retrato mais claro de 2018, mas os 20 anos anteriores mostraram uma mudança quase nula. Pelo menos de forma pontual, os estúdios e as empresas de produção estão agressivamente em busca de mais cineastas do sexo feminino. Salma Hayek disse que sua produtora tem tido dificuldades para contratar roteiristas e diretoras. Elas já estão todas ocupadas.

“Todo mundo está em busca de conteúdo feminino”, diz Jones, cujo documentário Quincy foi lançado recentemente pela Netflix. “Estão começando a entender que o conteúdo criado e sob os cuidados de mulheres e pessoas de cor é altamente sub-representado no setor. “E todo mundo está tentando consertar isso.”

Medir a mudança cultural em uma vasta indústria de US$ 50 bilhões é difícil. Tapetes vermelhos, festivais de cinema, prêmios têm um tom diferente no pós-Weinstein. Embora “o que você está usando” tenha retornado ao léxico do tapete vermelho um ano depois que as mulheres se vestiram de preto no Golden Globe, o protesto crepitou em muitos dos mais efusivos eventos do calendário cinematográfico, do Oscar ao Festival de Cannes. Mas há alguns limites ao que tais demonstrações podem conquistar.

“É ótimo quando você está no tapete vermelho e as pessoas falam sobre agressão sexual”, diz a atriz Viola Davis. “Meu medo é que as pessoas sintam que o foco da agressão sexual esteja apenas com as atrizes de Hollywood e executivos de estúdio como Weinstein.”

Ela teme que o movimento se torne limitado a “denunciar homens, levando-os aos tribunais da opinião pública e apenas destruindo suas carreiras. É muito maior que isso: uma em cada quatro mulheres – e há estatísticas que mencionam uma em três – que serão agredidas sexualmente até os 18 anos”.

Como muitas revoluções anteriores, o #MeToo tem tentado codificar as mudanças permanentes. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas expulsou não só Weinstein, como Bill Cosby e Roman Polanski.

Ao mesmo tempo, proliferaram os adendos contratuais sobre inclusão, para ter diversidade em elencos e equipes. No mês passado, a Warner Bros. tornou-se o primeiro dos grandes estúdios a comprometer-se com isso. Em uma tentativa de abolir o “teste do sofá” cultura que Weinstein supostamente explorou, o Screen Actors Guild criou diretrizes instruindo produtores e executivos de abster-se de realizar reuniões profissionais em quartos de hotel e residências. 

“As pessoas falam há décadas sobre o quão terrível é o ‘teste do sofá’. Mesmo com todos sabendo disso, ele continuava a ser realizado. Não havia nada de concreto, escrito e dizendo ser inaceitável”, diz Gabriele Carteris, presidente da SAG-Federação Americana de Artistas de Rádio e TV. “Colocar isso em uma diretriz foi uma força para os membros porque todos nós passamos pela situação.”

As diretrizes serão publicadas em breve, para estabelecer normas quanto a nudez no set, por exemplo. “Nosso trabalho é muito íntimo. É diferente de ser um advogado ou um médico ou um dentista”, diz Carteris. “Mas há regras para os trabalhadores neste país, e é realmente importante definir que regras são essas.”

Kirsten Schaffer, diretora executiva do grupo de defesa Women in Film, garante que o caminho para acabar com o assédio é a paridade. “Quanto mais mulheres em posições de liderança, menos provável o incidente de assédio. Temos muito trabalho à frente”, diz Schaffer. “Estamos vivendo em uma sociedade sexista e racista há centenas de milhares de anos. Não vamos desfazer isso em um ano.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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Economist: MeToo é mais poderoso movimento por igualdade desde voto feminino

Um ano depois de aglutinar uma série de denúncias contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, o movimento conntinua expondo predadores sexuais em todas as esferas da vida

O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2018 | 05h00

Há um ano, Harvey Weinstein foi exposto como um predador sexual. Até então, a forma como ele tratava mulheres era um segredo aberto entre alguns dos publicistas, advogados e jornalistas da indústria cinematográfica. Weinstein foi protegido por uma suposição implícita de que em algumas situações os homens poderosos podem estabelecer suas próprias regras. No ano passado, essa suposição foi desvendada com uma velocidade bem-vinda. Em todas as esferas da vida, homens poderosos foram expostos, e não apenas nos Estados Unidos. Agora, Brett Kavanaugh pode ter negado um assento no mais elevado tribunal dos EUA, após uma série de acusações de que ele cometeu agressões sexuais décadas atrás como estudante. O que começou no “sofá de seleção de atrizes” foi para o banco da Suprema Corte.

Isso é progresso. Mas ainda há dúvidas sobre o destino do movimento #MeToo nos Estados Unidos, país onde começou e onde teve o maior efeito. Para entender por que, basta olhar para o caso de Kavanaugh - que, como a imprensa publicou, deveria prestar depoimento ao Comitê Judiciário do Senado, juntamente com Christine Blasey Ford, sua principal acusadora. A boa notícia é que o apetite pela mudança é profundo; a má notícia é que a atitude predadora masculina contra mulheres corre o risco de se tornar mais um campo de batalha nas guerras culturais de consumo da América.

Graças a #MeToo, o testemunho das mulheres está finalmente sendo levado mais a sério. Durante muito tempo, quando uma mulher falou contra um homem, a suspeita voltou-se contra ela. Em 1991, quando Anita Hill acusou Clarence Thomas, agora juiz da Suprema Corte, de assédio sexual, seus defensores a difamaram como “um pouco louca e um pouco vagabunda”. O apoio da máquina a Kavanaugh é igualmente determinado. No entanto, absteve-se de questionar a sanidade ou a moral de Blasey Ford. Em 2018, os eleitores considerariam isso inaceitável.

O abuso por parte de homens está sendo levado mais a sério também. Weinstein supostamente cometeu dezenas de agressões sexuais, incluindo estupro. O contraste entre sua brutalidade e sua impunidade abalou o mundo pela complacência. Nesta semana, Bill Cosby, que já foi o ator mais bem pago dos Estados Unidos, foi preso por ser um predador sexualmente violento. Mas as mulheres em faculdades e locais de trabalho em toda a América são prejudicadas por abusos que não chegam ao estupro. Graças a #MeToo, estes abusos têm maior probabilidade de serem punidos. A maioria das defesas de Kavanaugh se concentrou em sua suposta inocência; Há 30 anos, eles teriam insistido que as trapalhadas de jovens bêbados de 17 anos são muito estardalhaço sobre nada.

Essas mudanças refletem uma ampla mudança social. Antes das eleições de 2016, 920 mulheres procuraram o conselho da EMILY’s List, que promove a candidatura de mulheres democratas pró-aborto. Desde que Donald Trump foi eleito presidente, ele foi contatado por 42 mil. Fora da política, as empresas estão empenhadas em que seus funcionários e clientes pensem que aderiram ao #MeToo.

Uma preocupação existente é que pode haver uma distância entre a retórica corporativa e a realidade. Outra é a incerteza sobre o que conta como prova. Isso acontece em grande parte porque a prova de uma ocorrência de abuso geralmente consiste em algo que aconteceu atrás de portas fechadas, às vezes há muito tempo.

Estabelecer um equilíbrio entre acusador e acusado é difícil. Blasey Ford tem o direito de ser ouvida, mas também Kavanaugh. A reputação de Kavanaugh está em jogo, mas também a da Suprema Corte. Ao ponderar essas alegações concorrentes, o ônus da prova deve ser razoável. Kavanaugh não está enfrentando um julgamento que poderia custar-lhe a liberdade, mas fazendo a entrevista para um emprego. O padrão de prova deve ser correspondentemente mais baixo. Nem o tribunal nem a justiça natural serão servidos pela precipitação.

Também é um problema a zona cinzenta habitada por homens que não foram condenados em tribunal, mas são julgados culpados por partes da sociedade. Neste momento, todos os casos são onerados por significados que estabelecem precedentes, talvez porque as atitudes estejam em mudança constante. Este mês, Ian Buruma foi forçado a se demitir do cargo de editor da New York Review of Books depois de publicar um ensaio de um suposto abusador que não admitiu o dano que causou. Buruma não merecia sair e, se os valores estivessem mais assentados, seus críticos poderiam ter se contentado com uma carta irada para o editor. #MeToo precisa de um caminho para a expiação ou absolvição.

E o #MeToo ficou associado ao partidarismo. De acordo com a pesquisa realizada no início deste ano pela Pew, 39% das mulheres republicanas acham que é um problema que os homens se safem com assédio e agressão sexual, em comparação com 66% das mulheres democratas; 21% dos homens republicanos acham que é um problema no qual as mulheres não têm credibilidade, em comparação com 56% dos homens democratas. Kavanaugh, no entanto, com sua nomeação, pode aprofundar tal divisão – quanto mais não seja porque o zelo republicano de apressar sua confirmação é mais uma prova de que o partido coloca o poder em primeiro lugar. Isso ficou claro quando recebeu o apoio de Trump, apesar de se orgulhar de se forçar a mulheres e das acusações de má conduta sexual vindas de pelo menos 19 acusadores. Sob Bill Clinton, que também foi acusado de agressão sexual, os democratas não eram tão diferentes. Eles agora oferecem menos proteção.

Se o #MeToo nos Estados Unidos se tornar um movimento apenas para os democratas, será um revés. Alguns homens desculpam seu comportamento alegando que é a histeria instigada pela esquerda para atiçar republicanos. Essas questões sobre prova, justiça e reabilitação se tornarão ainda mais difíceis de resolver.

O #MeToo no futuro

Demora uma década ou mais para que os padrões de comportamento social mudem. #MeToo tem apenas um ano de idade. Não se trata tanto de sexo quanto de poder - como o poder é distribuído e como as pessoas são responsabilizadas quando se abusa do poder. Inevitavelmente, portanto, o #MeToo se transformará em discussões sobre a ausência de mulheres em altos cargos nas empresas e diferenças no salário médio entre trabalhadores do sexo masculino e feminino. Uma proteção contra o abuso é que as mulheres jovens trabalhem em um ambiente que outras mulheres ajudem a criar e a sustentar.

Os conservadores costumam lamentar o papel desempenhado por Hollywood ao debilitar a moralidade. Com #MeToo, Tinseltown promoveu inadvertidamente um movimento pela igualdade. Essa poderia se tornar a força mais poderosa para um acordo mais justo entre homens e mulheres, desde o sufrágio feminino. / Tradução de Claudia Bozzo

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