"Harry Potter" toma 474 cinemas do País

Jovens aspirantes a feiticeiros emtodo o mundo vão saber amanhã como se faz para embarcar naplataforma 9 e 3/4 da estação King´s Cross, de Londres, comdestino à mais famosa casa de iniciação em ocultismo e diversãofrenética do mundo: a Escola Hogwarts. Vão conhecer o universo criado pela autora britânicaJ.K. Rowling sem precisar transpor as 263 páginas do primeirovolume, Harry Potter e a Pedra Filosofal - que dá nome emote e história ao filme do diretor Chris Columbus. O filmeestréia nesta sexta-feira em 474 salas do País - são 191 cópias dubladas e 283 legendadas.Muita gente crê que, por "dispensar" a leitura dolivro, Harry Potter crie um antagonismo entre literatura ecinema, entre a profundidade da leitura e as facilidades dacultura visual moderna. Quantos Sherlock Holmes do cinemasuperaram os de Conan Doyle? Mera tolice: a exemplo de livrosde Mark Twain e Alexandre Dumas, de F. Scott Fitzgerald e JohnIrving, de Evelyn Waugh e Conan Doyle, Harry Potter é umahistória de iniciação e provação juvenil, de mistério ecodificação. Sua transposição para o cinema tem maispossibilidade de despertar a vontade de ler do que de anulá-la.Harry Potter (no filme, interpretado pelo ator mirimDaniel Radcliffe) parece claramente decalcado de uma costela deTom Sawyer, personagem de Mark Twain (1835-1910). Como TomSawyer, é um órfão criado por parentes, fustigado por um primobobo e invejoso e que deve superar inúmeros desafios munidoapenas de um certo instinto natural para a sobrevivência.Chris Columbus pinta os parentes de Harry com tintascarregadas, um trio altamente detestável sob todos os aspectos:tio Válter (um Scrooge gorducho), tia Petúnia e o primo Duda.Obrigados a criar o pequeno órfão, cujos pais foram mortos porum poderoso feiticeiro (lorde Voldemort), eles o mantém noarmário sob a escada.Quando Harry faz 11 anos, uma coruja traz uma carta - sinal de que é hora de começar seu aprendizado de bruxo naEscola Hogwarts. Mas os tios tentam impedir, por egoísmo. Sãoalgumas das melhores cenas do filme, a invasão das corujas, opânico do tio Válter, a chuva de cartas e a fuga para um farol.O maniqueísmo do romance juvenil perpassa toda a saga dePotter, em que os bruxos bons e os bruxos maus são separados poralguma espécie de determinação cósmica. Crianças que já nascempara serem maus elementos é algo pesado, mas é essa a sumateológica do velho romance juvenil. Hollywood é que amenizouesse dualismo recentemente, por conta das ondas politicamentecorretas.É um filme pleno de histórias, fantasias e fantasmas dainfância e também um adversário à altura das sagas eletrônicasrecentes. O jogo de quiddich, uma espécie de fusão entre ofutebol americano, o beisebol e as corridas de bigas da antigaRoma, é de fato um achado de Rowling. Chris Columbus o fez emritmo de videoclipe, como é hábito do cinema atual, e oresultado é de muita adrenalina.Daniel Radcliffe está OK como Harry - mas tem uma carade sonso que podia dar uma mudadinha nos momentos eureka dofilme. São os coadjuvantes que roubam a cena. John Hurt, como ocomerciante de varinhas de bruxo; Robbie Coltrane, como osentimental gigante Hagrid; e Maggie Smith como a professoraMcGonagall, dão um show de nobreza.Pode-se argumentar apenas que J.K. Rowling não éexatamente original. Sua ficção tem um pouco de O Mágico deOz, outro tanto de Alice no País das Maravilhas, um poucotambém de O Apanhador no Campo de Centeio. Sua habilidadeestá em urdir com competência esses standards da literatura,repondo-os no centro do interesse.O filme - assim como os livros de Rowling - é um contode fadas com todos os ingredientes daqueles antigos: lições debravura e heroísmo, honra, tolerância, amizade. Incomoda aosadultos como talvez incomode reler As Aventuras de HuckleberryFinn, mas é no final das contas apenas um legítimo exemplar deuma tradição literária, transposta com extremo cuidado para ocinema.A sensação que temos ao final de Harry Potter e aPedra Filosofal é parecida com aquela que surge quandoexaminamos pela primeira vez um dogma religioso básico: se Deusé tão poderoso, se criou o mundo em seis dias, se dirige ouniverso com equilíbrio e é tão magnânimo, porque ele suporta apresença do Mal? Melhor: porque ele a permite?No caso de Hogwarts, surge a mesma questão: será que oDeus local, o professor Dumbledore (magnífico Richard Harris, denovo em segundo plano), não criou toda aquela situação somentepara testar seu jovem aprendiz? Afinal, no filme, todos torcempor Harry antecipadamente. Ele está fadado a realizar grandesfeitos, e isso é um pequeno incômodo, no final - assim como aaparição desastrada de Voldemort, o vilão do qual não se podesequer dizer o nome.

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