Harrison Ford fala sobre "Divisão de Homicídios"

Embora o aventureiro Indiana Jones tenha sido concebido com doses de humor, o timing para comédia de Harrison Ford foi praticamente desperdiçado ao longo dos seus 30 anos de carreira. Divisão de Homicídios comprova que, quando Hollywood deixa, Ford se esforça para arrancar risadas da platéia. Principalmente quando faz sátira de si mesmo e dos tipos heróicos que o consagraram nas telas, como ocorre nessa nova comédia que estréia hoje em São Paulo e no interior paulista ? com direção de Ron Shelton. "Finalmente tive a oportunidade de avançar um pouco mais em território humorístico. Nunca recebo propostas para atuar em comédias", disse o ator de 61 anos, encarregado de interpretar um policial estressado que investiga a morte de rappers em Los Angeles. Na pele desse personagem à beira de um colapso nervoso, Ford perde a tradicional sisudez e ainda protagoniza espirituosas cenas de cama com a atriz sueca Lena Olin. Detalhe: os astro faz pose sexy sem camisa, de óculos escuros e com um donut na boca (aquele sonho de padaria, marca registrada dos policiais nos EUA). Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Los Angeles.estadao.com - Por que teve o senso de humor desprezado por tanto tempo por Hollywood?Harrison Ford - Praticamente só consegui fazer comédias românticas. Isso aconteceu porque, mesmo sem desejar, eu me tornei um ?leading man?? (ator que encabeça o elenco). Ao atingir esse status, fiquei preso à imagem que Hollywood sempre fez de mim. Por muito tempo, por mais que eu brigasse, ninguém me oferecia um papel engraçado. Os diretores e produtores achavam que o espectador não ficaria convencido. Acabaria pensando: ?Veja Harrison Ford tentando representar!??.Mesmo sendo uma comédia, "Divisão de Homicídios" traz várias seqüências de ação. Por que insiste em protagonizá-las, dispensando muitas vezes os dublês?Eu simplesmente faço coisas como correr, saltar, cair e outras manobras físicas pouco arriscadas no set. Nunca colocou a sua vida em perigo em set de filmagem?Talvez entrar no carro com Josh Hartnett na direção tenha sido a coisa mais perigosa que fiz na vida (risos). Vê algum paralelo entre o início de sua carreira e a trajetória de Josh Hartnett?Não. Eu comecei a ganhar dinheiro nesse negócio quando já tinha 35 anos. Com Josh é diferente. Aos 25 anos, ele já fez cinco ou seis filmes e conhece o sucesso. Você é difícil de dirigir, como dizem?Acho que não. Eu arriscaria dizer que gosto de ser dirigido. A única coisa da qual não abro mão é trabalhar apenas com diretores que eu respeito. Só aceito ser dirigido por profissional que será útil para a minha carreira. Não tenho o hábito de me impor e tento fazer parte do processo. O ator precisa entender que ele simplesmente ajuda a contar uma história de acordo com o comportamento de seu personagem. É apenas uma ferramenta nas mãos do diretor. Qual a principal ferramenta de um ator? Sem dúvida, é a empatia. Você precisa entender como o personagem se sente. Precisa reconhecer o que o motiva e o que o pressiona para criar o comportamento apropriado. Preciso saber como eu me sentiria naquelas circunstâncias e articular isso.O acúmulo de experiência deixa o trabalho do ator mais fácil ou mais difícil, por já não se sentir tão desafiado quanto no início da carreira?Mais fácil. Eu me sinto mais habilitado como ator. Não me coloco em condições insatisfatórias tanto quanto na época em que comecei. Hoje é muito mais divertido. Se não fosse, não sairia da minha casa.O que o motiva a continuar?Atuar é o que eu sei fazer. Passei todos esses anos tentando aprender como fazer bem esse trabalho. Dá uma sensação boa colocar toda a experiência adquirida para funcionar e sentir que sou útil no processo. Também gosto muito da colaboração nos sets de filmagem. Procuro me envolver intensamente com o projeto, ajudando a resolver os problemas, a motivar as pessoas ou mesmo solucionando questões mais mecânicas no set. É isso que me mantém interessado.Das coisas que já disseram e publicaram a seu respeito, qual foi a mais equivocada?(Pensativo). Não sei exatamente o que dizem a meu respeito.Dizem que você é mal-humorado, odeia dar entrevista e é obcecado por privacidade...Bom, não posso negar tudo isso. Só não diria que odeio dar entrevista. Eu entendo que faz parte do processo de lançamento do filme. Faço da maneira mais profissional possível. Como se sentiu ao ganhar no ano passado uma estrela com o seu nome na prestigiada Calçada da Fama, no Hollywood Boulevard?Quando eu cheguei a Los Angeles, há 30 anos, já havia uma estrela com o meu nome em frente ao Musso and Franks (um tradicional restaurante na avenida). Por um segundo pensei que Hollywood já tinha se antecipado na homenagem (risos). Ao me registrar no Screen Actors Guild (sindicato dos atores nos EUA), percebi que eu tinha um homônimo, um ator de filmes mudos que era o dono daquela estrela. Até ele morrer, eu era chamado oficialmente de Harrison J. Ford no sindicato. Com o tempo, porém, as pessoas passaram a achar que a estrela era minha. Confesso que nem via necessidade de corrigir a confusão, ganhando a minha própria estrela.Você costuma assistir aos seus filmes? Não. Há muito tempo lembro de ter visto A Testemunha (1985). Quando entrei na sala percebi que os meus filhos estavam assistindo ao vídeo. Fiquei, já que não tinha mais nada para fazer.Como explica o fato de ser um chamariz de bilheteria, um ator pelo qual o público paga um ingresso, independentemente do gênero do filme?Talvez eu tenha tido sorte, a ponto de trabalhar com bons contadores de história. Sempre coloco a qualidade do filme em primeiro lugar. A produção deve ser capaz de despertar o interesse dos espectadores por si só. Quando a história é ruim, o público não quer me ver. Prefiro explicar assim. Do contrário, estaria me vendo como uma pessoa mais importante do que sou.Atribuindo o sucesso aos filmes, você não estaria menosprezando talvez as qualidades que fizerem de você um astro?Obviamente quando um ator veterano como eu aparece na tela, o público responde emocionalmente de uma maneira específica. Isso porque já estabeleceu uma relação comigo. O fato de a minha imagem ecoar na mente da platéia, no entanto, não pode ser supervalorizada. Sou um assistente no processo de contar uma história. Não me sinto menosprezado com essa afirmação. Prefiro isso a deixar a minha inteligência sucumbir ao meu ego.

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