‘Hamlet’ brasileiro é destaque no Festival Latino-Americano

Filme será exibido na quinta-feira, 24, na mostra dedicada à América Latina

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 02h00

Para o espectador que vir na quinta-feira, 24, o Hamlet de Cristiano Burlan e Henrique Zanoni no primeiro dia de programação do 9.º Festival Latino-Americano de São Paulo para o público, a adaptação da peça famosa de Shakespeare com certeza vai provocar estranhamento. O cinema já mostrou muitas vezes o dilaceramento interior do príncipe da Dinamarca. Hamlet frequentou a tela desde antes da versão de Laurence Olivier, em 1948. Você pode enumerar os atores que fizeram o papel – Nicol Williamson, Kenneth Branagh, Mel Gibson, Ethan Hawke, etc. Nenhum é melhor que o russo Inokenti Smoktunovski, que protagonizou a versão de Grigori Kozintsev, no começo dos anos 1960. Até o cinema brasileiro se aventurou a dar a Hamlet um acompanhamento de viola em A Herança, de Ozualdo Candeias (1971). O Hamlet de Burlan e Zanoni é o mais surpreendente.

O tempo passa e nada do monólogo. ‘Ser ou não ser.’ E quando ele vem, é sem caveira. O próprio solilóquio é condensado e vai logo para ‘...E o resto é silêncio’. Mas o que quer esse Cristiano Burlan? Gaúcho de Porto Alegre e fiel ao seu projeto de arte, seja cinema ou teatro – a peça A Vida de Homens Infames, em cartaz no Teatro Pequeno Ato –, ele e seu ator (seu alter ego, seu escudeiro) desconstroem o texto clássico. Burlan justifica-se – “Essa história já tem 450 anos e é muito conhecida. No nosso imaginário, do Henrique e meu, já existem outros Hamlets. E existem Hamlets ingleses, com uma longa tradição de oralidade. Bicho, eu já ouvi o Hamlet recitado pela Vanessa Redgrave, e era de arrepiar. Nós não vamos conseguir dizer o texto melhor que eles.”

Daí o partido desse Hamlet mais fiel aos incidentes que compõem a trama – por menos linear que seja – do que ao verbo shakespeariano. Mas você não perde por esperar. O ‘ser ou não ser’ demora, mas chega. E o filme abre-se com o fantasma, interpretado por Jean-Claude Bernardet. Ele fica longo tempo na tela, e aí corta para Henrique Zanoni, o Hamlet, na direção do carro, com uma trilha metaleira. A imagem de novo fica bastante tempo na tela. Pegando carona no Hamlet de Candeias, serão Burlan e Zanoni as novas faces do cinema marginal? Burlan sabe que não vai pelas regras do mercado. Opera na periferia, da cidade como da indústria cultural.

“Não estamos fazendo cinema com patrocínio. Não estamos torrando dinheiro de ninguém para sustentar nossas ousadias. Só o nosso.” Pouco ou nenhum dinheiro. Isso fatalmente estimula a criatividade. O repórter elogia a bela fotografia em preto e branco. “E olha que é difícil fazer um bom P&B com digital”, Burlan afirma. Uma cena é particularmente lograda. Hamlet avança na noite por uma floresta para chegar ao local onde espera encontrar o fantasma do pai. Ambos, o ator e o diretor, riem. Por quê? “Filmamos no quintal da casa de um amigo. Nossa floresta ia daqui até ali (uns cinco metros) e era bem estreita.” Na tela parece enorme. O artifício do cinema.

Hamlet integra um tríptico com Sinfonia de Um Só e Amador. O primeiro quase não tem diálogos, no segundo, Henrique Zanoni fala muito (mas o texto é improvisado). Em Hamlet, existem cenas improvisadas, na rua, mas há um texto que é preciso seguir, por menos que seja a poesia de Shakespeare. Todos em preto e branco. Amador investiga os bastidores do cinema, Hamlet, os do teatro. Na cena em que Hamlet propõe a representação do assassinato do pai, o teatro é de marionetes, e você vê os manipuladores. “É o homem vítima do próprio destino”, reflete o diretor. Burlan admira-se – “Como um texto tão antigo consegue ser ainda tão atual? Pode-se ver como a permanência da grande arte, mas também por um ângulo mais sombrio e pessimista. Não evoluímos esse tempo todo.”

Não se trata de um filme acabado, mas de uma provocação. De novo, Burlan fala de assassinato em família, ele que perdeu um irmão e a mãe tragicamente. O documentário sobre o irmão lhe rendeu prêmios e reconhecimento (Mataram Meu Irmão). O da mãe, também assassinada, é tema de um projeto já selecionado em primeira instância num concurso público. Burlan imagina como será fazer um filme com dinheiro. “Vou poder fazer com mais cuidado, mas se não tiver dinheiro faço do mesmo jeito.” Zanoni, o ator, cita uma frase de Pierre Rivière em A Vida de Homens Infames – “Se 40 pessoas se emocionaram com a morte de meu pai, que direi eu, que sou seu filho?” É o nascimento da vingança de Hamlet.

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