Hallström leva a Berlim obra vencedora do Pulitzer

Desde que se associou ao miniestúdio Miramax há quatro anos e sua carreira em Hollywood voltou a frutificar, o cineasta sueco Lasse Hallström, de 55 anos, não teve descanso. Rodou complicados projetos baseados em livros famosos que muitos classificavam como não adaptáveis. A acolhida da Academia de Hollywood para ambos os projetos provou o contrário.Em 1999, Regras da Vida, baseado em livro de John Irving, conquistou sete indicações para o Oscar, vencendo duas estatuetas (ator coadjuvante para Michael Caine e roteiro). No ano seguinte, com Chocolate, tirado do livro de Joanne Harris, Hallström acumulou mais cinco indicações, incluindo uma para a atriz francesa Juliette Binoche.Agora o cineasta está de volta com seu terceiro filme baseado num livro famoso e "inadaptável": The Shipping News, que rendeu um prêmio Pulitzer, a maior distinção para as letras americanas, a escritora E. Annie Proulx, em 93. Em cartaz nos EUA desde dezembro, The Shipping News será exibido na segunda-feira dentro da competição oficial do Festival de Berlim, tentando o Urso de Ouro. Dois dias após a entrega do Globo de Ouro, no qual seu filme concorria na categoria de melhor ator (Kevin Spacey), Hallström estava em Nova York, onde conversou com a reportagem do Estado."Confesso que venho tendo um ritmo muito difícil e frenético nesses últimos anos: mesmo na pós-produção de um filme, já vinha escalando o outro", explica o cineasta, sentado descalço num sofá da suíte de um hotel na Rua 57. "Agora devo tirar folga para encontrar o caminho de volta para o prazer de filmar, em vez de somente trabalhar contra o relógio", diz Hallström, que está imprimindo ritmo reduzido para outro projeto a caminho: um filme sobre boxe, a ser estrelado pelo ator neozelandês Russell Crowe.Em The Shipping News, Kevin Spacey interpreta Quoyle, um homem irremediavelmente patético e tímido, que cresceu com um trauma: o quase afogamento durante uma das aulas de natação ministradas pelo pai bronco. Quoyle acumula subempregos e é sexualmente abstinente. Quando conhece Petal Bear (Cate Blanchett, em outro papel selvagem), mulher vulgar e doidivana, a paixão é imediata.Como os diversos relacionamentos de Petal nunca beiraram o afetuoso, se afeiçoa piedosamente por Quoyle, com quem se casa e tem uma filha. A alegria da participação de Cate no filme dura pouco. Ela morre num acidente automobilístico (enquanto trai o marido), na mesma semana em que os pais de Quoyle cometem suicídio.Uma tia velha, Agnis (Judi Dench) aparece para reclamar as cinzas do irmão (e presta uma última homenagem como jamais vista no cinema e que não vale a pena ser revelada). Agnis convence o viúvo e a filha de 9 anos a se mudarem para Newfoundland, de onde vieram os ancestrais da família. Em novo território, Quoyle pela primeira vez na vida encontra a auto-estima.Consegue um emprego como repórter no jornal local (cobrindo acidentes automobilísticos) e tem um romance com uma professora (a sempre excelente Julianne Moore), que tem um filho com problemas mentais. Quoyle também investiga seus antepessados e descobre que eles não passavam de um bando de piratas, estupradores e assassinos."O que me fez ficar apaixonado por essa história foi o fato de esse personagem não saber que tem potencial", explica Hallström. "Dúvidas impedem que esse poder apareça." A crítica especializada recebeu o sueco com opiniões divergentes. O Washington Post classificou o filme de "hipnótico" e parabeniza o sueco por captar a "intempestiva beleza" dos personagens do livro. Já o Los Angeles Times vai fundo em sua detração: "Esse é o mais novo capítulo da aparentemente interminável série de inconvincentes produções de afirmação de vida de Hallström; e, como seus dois filmes predecessores, zela em reduzir complexo material literário para algo previsível e de elementos facéis para ganhar a platéia."Disputa - The Shipping News é um projeto de Hollywood que tramitou por vários estúdios. Nasceu para ser um filme de John Travolta, que também queria a esposa, a atriz Kelly Preston, envolvida. Depois, passou pelas mãos de Billy Bob Thornton, que pretendia fazer jornada dupla, atuando e dirigindo. "Três diretores depois (dois que abandonaram e um despedido) e a Miramax comprou o roteiro para eu dirigir", explica Hallström. "Nessa época, Kevin surgiu como escolha óbvia."A contratação de Spacey, porém, não encontrou o mesmo entusiasmo dos amantes do livro. "A seleção de Kevin foi um problema, pois algumas pessoas objetaram o fato de ele não ter a mesma fisicalidade descrita no livro", explica o cineasta. "Mais uma vez vivi próximo da fogueira que é uma adaptação literária e todo esse paradoxo entre cinema e literatura", afirma.Com um tomo de 700 páginas na mão, classificado pelo próprio diretor como uma história "provocativamente não dramática", Hallström e o roteirista Robert Nelson Jacobs (de Chocolate) tentaram dar dimensão cinematográfica à obra de Annie. "Apesar da espinha dorsal da trama carecer de uma estrutura dramática, ela tem esse maravilhoso dom de misturar o lírico, o cômico, o trivial e o etéreo em sua prosa", comenta o diretor. "Fazer todas essas nuances darem certo na tela, tornou-se minha principal obsessão. Na semana de estréia, Annie me mandou e-mail dizendo que tinha aprovado."Ao dar vida aos ancestrais de Quoyle, Hallström esbarrou em sua genealogia: parentes longínquos do lado materno do cineasta eram piratas e um deles foi decapitado por suas ações excusas. Do mar, o sueco diz que nutre gosto pela pescaria, um prazer da adolescência que ele quer compartilhar com os filhos no próximo verão escandinavo. Johan, o mais velho (de 26 anos), estuda teatro em Estocolmo. August, de 15, quer ser cineasta (e tem talento, segundo o pai). Hallström tem ainda uma filha, Tora, a caçula de 6 anos, fruto de sua união com a atriz sueca Lena Olin (de A Insustentável Leveza do Ser). A família, à exceção do primogênito, acompanhou os eventos do dia 11 de setembro em Bedford, cidade ao norte do Estado de Nova York e a 90 minutos de Manhattan. "Hoje em dia é ótimo poder ser um estrangeiro em um país seguro e ter sua terra natal para voltar caso seja necessário", explica.O quarto filme de Hallström para a Miramax (o último de seu contrato com o estúdio) será decidido entre dois roteiros. O mais provável no momento é a história do boxeador nova-iorquino Jim Braddock, campeão mundial nos anos 30 que perdeu todo o seu dinheiro durante a Depressão. "Sei que Hollywood produziu dois filmes recentes sobre boxe que não fizeram muito sucesso, mas sou interessado pelo esporte desde quando meu compatriota Ingemar Johansson se tornou campeão mundial em 59", explica. "Ademais, o roteiro seria calcado na família de Braddock e o fato de ele ter sido paupérrimo." O outro projeto do cineasta vem do livro A Conspiracy of Paper, estréia do escritor David Liss. "Trata-se de uma história de assassinato, passada na Inglaterra de 1719, durante o nascimento do mercado de ações."Roteiros - Enquanto não se decide, Hallström acompanhará a exibição de The Shipping News em Berlim e espera voltar a Nova York depois do dia D do cinema americano, ou seja, do anúncio das indicações para o Oscar, que ocorre no dia 12. "Nos últimos dois anos vivi no centro dessa fábrica de especulações que é a temporada do Oscar", explica. "De repente, entre dezembro e março, ninguém faz mais nada da vida, a não ser falar de prêmios", continua. "Prefiro tirar o máximo de proveito da etapa mais excitante do processo cinematográfico: o desenvolvimento de roteiros."

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