Halle Berry, uma Bond girl à altura de 007

Lindas, sensuais e fáceis de conquistar, as Bond girls se acostumaram a simplesmente embelezar a franquia de 007 no cinema. Pelo menos até Halle Berry, a primeira negra a conquistar o Oscar de melhor atriz, entrar para a galeria de mulheres inesquecíveis, como Ursula Andress, Kim Basinger, Jane Seymour etc. "Pela primeira vez, uma Bond girl é tão inteligente e fisicamente capacitada quanto Bond. Ela é uma parceira na missão secreta e não apenas na cama", disse Halle, de 34 anos, referindo-se a Jinx, sua personagem em 007 - Um Novo Dia para Morrer.Na nova aventura do agente secreto mais famoso das telas, em cartaz a partir do dia 10 de janeiro no Brasil, Jinx representa a Bond girl do século 21. "Ela chega a salvar a vida de 007." Juntos, Jinx e Bond (pela quarta vez interpretado por Pierce Brosnan) salvam a humanidade de um vilão fanático por tecnologia e disposto a provocar a Terceira Guerra Mundial. "Os demais elementos que consagraram a franquia são os mesmos: carros esportivos, invenções engenhosas e muita ação", afirmou a atriz, que precisou aprender a usar facas, a fazer escaladas e a disparar armas de fogo para o papel.Como a superprodução é pontuada por referências a antigos filmes da série, coube a Halle recriar a memorável cena de Ursula Andress saindo do mar em seu minúsculo biquíni em 007 Contra o Satânico Dr. No, título que inaugurou a franquia há 40 anos. "Fiquei nervosa na hora de rodar, com medo de não estar a altura de Ursula. Mas depois relaxei, encarando a cena como uma homenagem." Outro desafio ao ingressar na série de cinema mais duradoura da história foi "controlar a vontade de rir". "Precisei entrar no espírito, dizendo aquelas frases de efeito com convicção, por mais absurdas que fossem."Na entrevista concedida em Los Angeles à Agência Estado, Halle ainda comentou os efeitos do Oscar, conquistado pela dramática performance em A Última Ceia. "A estatueta abriu definitivamente as portas de Hollywood para mim. A indústria passou a me levar mais a sério." A maior satisfação, no entanto, é saber que a vitória inédita serviu de inspiração para muitas negras americanas. "Fiquei emocionada ao receber a carta de uma fã que dizia: ?Se você ganhou um Oscar, eu posso tentar pelo menos tirar um diploma?." Leia, a seguir, os principais trechos.Agência Estado - Atores conhecidos por performances dramáticas costumam menosprezar filmes de ação...Halle Berry - Isso porque eles não sabem como é difícil correr para pegar um avião. Literalmente (risos). Tanto heróis de ação quanto personagens emocionalmente mais intensos exigem muito do ator. Só que de formas diferentes. Além do esforço físico, foi difícil dar veracidade a 007, feito sob medida para mexer com as fantasias do espectador, principalmente do público masculino. Em um filme dramático, você precisa buscar aquele sentimento dentro de você. E mais espontâneo.Os efeitos especiais ainda limitam a performance?Sim. Principalmente por serem meticulosamente calculados. Isso fez com que nossa atuação também fosse toda marcada, sobrando pouco espaço para improvisação. Em cenas com forte carga emocional, o ator entra no personagem e deixa a cena acontecer naturalmente. Aqui nos tínhamos de seguir rigorosamente a marcação para que todos os elementos se encaixassem no final.Qual foi a cena mais difícil de rodar?Acabei perdendo o fôlego na seqüência em que eu e Pierce corremos para pegar o avião em movimento. Eu me saí bem na primeira e na segunda tomadas. Mas na terceira dei o maior vexame (risos). Minhas pernas não conseguiram acompanhar as de Pierce. Graças a Deus, fui salva na mesa de edição.Machucou-se durante as filmagens? Apenas na cena de luta com Rosamund Pike (uma das vilãs da história) no final do filme. Coreografamos direitinho o nosso embate com facas, mas, depois de várias tomadas, erramos e ela me cortou. Superficialmente, mas cortou. Obviamente foi o take que o diretor Lee Tamahori mais gostou, usando-o no filme.Você ainda engasgou com um pedaço de figo na cena de sexo com Pierce na cama...Outro vexame (risos). Mas a culpa não foi minha. Pierce fez uma piadinha quando eu tinha acabado de colocar a fruta na boca. Não deu outra. Engasguei mesmo. Só voltei a respirar depois que ele bateu nas minhas costas, fazendo o figo voar pelo quarto.Apesar do contratempo, a cena é leve, na comparação com a de "A Ultima Ceia?, que você protagonizou com Billy Bob Thornton. Faria de novo uma cena de sexo tão intensa quanto aquela?Se o roteiro exigisse e se a cena fosse crucial para a história, sim. Mas duvido que encontrarei outro roteiro como aquele.Quanto tempo depois de receber o Oscar você realmente se deu conta do que havia acontecido?A ficha caiu logo. Não precisei esperar até o dia seguinte, como a maioria dos premiados costuma contar. Caí em mim assim que encontrei a minha filha (India, sua enteada, de 10 anos) no hotel Four Seasons, após a cerimônia. Como só ganhei dois convites para a festa, levei o meu marido e India assistiu tudo pelo telão com um grupo de amigos nossos. Assim que cheguei, eles me contaram que ela havia se trancado no banheiro e chorado por 20 minutos. Foi um tapa na minha cara, pois eu pensava que ela era muito pequena para entender a magnitude daquele prêmio.Como um filme de 007 se encaixa na filmografia de uma atriz vencedora do Oscar?Uma coisa complementa a outra. Um filme de Bond pode não ter o mesmo peso de um prêmio da Academia, mas eu me sinto como se tivesse sido aceita em um clube extremamente seletivo. É emocionante saber que, aconteça o que acontecer, sempre serei lembrada pelo público como uma Bond girl. Um filme de James Bond não é uma produção qualquer, que cai no esquecimento. É um legado. E as mulheres que participam dele acabam eternizadas. Elas envelhecem como todas as outras, mas seus rostos são cristalizados nas telas para sempre.

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