Gwyneth Paltrow interpreta poeta Sylvia Plath

Pode ser que Sylvia, Paixão além das Palavras seja mesmo um mau filme. São tantos críticos a achá-lo frio e sem graça. Devem ter razão. Mas talvez valha prestar atenção, mesmo assim, à cinebiografia da poetisa Sylvia Plath, realizada pela diretora Christine Jeffs. Ela ou seu roteirista, John Brownlow, possivelmente os dois, viram o velho Sílvia, de Gordon Douglas, com Carroll Baker, nos anos 1960. Aquela Sílvia não tinha nada a ver com esta, mas também era uma mulher da palavra, uma escritora. Uma fictícia, a outra real, as duas Sílvias são vítimas de uma sociedade controlada pelos homens. O filme de Gordon Douglas é melhor. Possui um desenho de cena, uma importância conferida aos objetos, que escapa a Christine Jeffs. Mas ela viu a Sílvia de Douglas, com certeza. Seu filme conta a história da complicada relação entre dois dos maiores poetas do século 20 - Sylvia Plath e Ted Hughes. Conheceram-se quando, ainda jovens, estudavam na Universidade de Cambridge. O casamento foi marcado pela infidelidade e pela violência. Amargurada, Sylvia se matou aos 30 anos. A Sílvia de Gordon Douglas é um enigma que o detetive interpretado por George Maharis tenta decifrar. Garota, ela adorava os livros, mas era pobre e teve de se prostituir. Violentada por um cliente, tirou dele o dinheiro que lhe permitiu fazer uma carreira como escritora, mas de alguma forma ela morre interiormente. É assim que Maharis a encontra. E tenta retirá-la de entre os mortos. A Sylvia da neozelandesa Christine Jeffs é a de Douglas sem Maharis. Ao assumir o papel, Gwyneth Paltrow talvez tenha pensado em Nicole Kidman e os produtores numa repetição de As Horas, com a bela atriz como Virginia Woolf, outra suicida. Você pode até falar mal do filme, mas não de Gwyneth. Ela vive Sylvia Plath com sinceridade. E, talvez por ter sido ´liberada´ por Bruno Barreto em Voando Alto, a andrógina atriz de Shakespeare Apaixonado revela sua voltagem erótica em cenas intensas com o ator Daniel Craig, que faz Ted Hughes. Ela você conhece. Ele, pode ser que não - Craig fazia o filho vingativo do gângster Paul Newman em Estrada para Perdição, de Sam Mendes. Sylvia Plath revelou-se uma das fortes e originais vozes da poesia americana por volta de 1960. Sua morte a transformou num ícone feminista. Ela teria sido vítima do marido. A diretora não repete o erro de Brian Gilbert em Tom & Viv, sugerindo que Vivienne Haigh-Wood não apenas foi levada à loucura por T.S. Eliot, como era melhor poeta do que o marido famoso. Christine não aponta o dedo acusador para Ted Hughes. Ela reconhece que a infidelidade dele produziu a infelicidade no casamento que desestabilizou Sylvia, mas não o transforma em vilão. A compulsão desse homem é motivo de sofrimento para ele próprio. O filme é falho justamente como retrato de uma poetisa. O universo poético de Sylvia Plath, seu domínio das palavras, tudo isso permanece indecifrável para a diretora. Mas, como retrato triste e amargurado das cenas de um casamento que implode, seu trabalho impressiona e incomoda. Christine não carrega na emoção. Seu filme permanece frio e distante. E a Sylvia de Gwyneth, loira e linda, mas não exatamente platinada como a de Carroll Baker, passa uma insuperável imagem de sofrimento.

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