Gwyneth Paltrow fala de cinema, poesia e morte

Gwyneth Paltrow tinha 22 anos quando ouviu falar de Sylvia Plath pela primeira vez. Estava no set de O Círculo do Vício (1994), de Alan Rudolph, em Montreal, onde recebeu uma cópia do livro The Bell Jar (Redoma de Vidro) da atriz Jennifer Jason Leigh. Esta foi a primeira a notar as semelhanças físicas entre Gwyneth e a poeta que se suicidou em 1963, envenenada com gás de cozinha, aos 30 anos. "Achei o livro insano. Tão forte que me conectou com a minha faceta mais louca", conta Gwyneth, que dez anos depois encarna o ícone feminino no longa-metragem Sylvia - Paixão Além das Palavras, atualmente em cartaz nos cinemas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que a atriz concedeu em Londres.Até que ponto seu retrato de Sylvia é fiel?Gwyneth Paltrow - Mesmo tendo à disposição a obra da escritora, na qual pude me basear, não poderia recriá-la perfeitamente nas telas. Então procurei não me preocupar com o que as pessoas pensariam da minha interpretação. Só me certifiquei de duas coisas: que tinha feito o máximo de pesquisa e que me sentia emocionalmente próxima da personagem. Mas obviamente é ficção. Nunca saberemos o que Sylvia disse ao poeta Ted Hughes (seu marido) entre quatro paredes.O fato de a filha de Sylvia, Frieda Hughes, ter proibido que a cinebiografia citasse as obras da escritora prejudicou o roteiro?Não necessariamente. Por não poder citar livremente suas poesias, o roteiro enfocou a vida pessoal de Sylvia, com destaque para a sua relação com Hughes. A maioria das cenas do filme é inspirada no diário e nas cartas que ela escreveu.Viu vantagem em sua semelhança física com a poeta?Sim. Nossos rostos não são tão parecidos. Graças ao penteado e aos figurinos, porém, consegui acentuar as semelhanças. Temos o mesmo tipo físico.Há algo na sua natureza parecida com a de Sylvia?Não tenho tendências suicidas (risos). Admiro o trabalho da poeta e a sua fome de ser feliz. Em comum temos apenas um aspecto: a forma como fomos afetadas pela morte de nossos pais.Como a morte de seu pai a afetou profissionalmente? (O produtor e cineasta Bruce Paltrow - que dirigiu a filha em Duets - Vem Cantar Comigo - morreu no final de 2002, vítima de infarto)Senti na pele que todos nós vamos morrer. Então para que perdermos tempo com coisas desinteressantes? Eu decidi parar de rodar um filme atrás do outro, apesar da pressão dos agentes. Olhando para trás, percebo que, logo depois que ganhei o Oscar (de melhor atriz por Shakespeare Apaixonado, em 1999), fiz escolhas ruins, que não valeram o meu esforço. Daqui para a frente, vou dar prioridade à família (Gwyneth está grávida do cantor inglês Chris Martin, vocalista da banda Cold Play, com quem se casou em sigilo em dezembro.)Não se incomoda por ser lembrada quase sempre para interpretar a heroína?Realmente nunca me chamam para viver a vilã. Estou aberta a qualquer personagem, desde que o roteiro e o diretor sejam bons. Confesso, porém, que não me sentiria atraída por personagem que não experimentasse uma redenção ao longo da história. A menos que seja uma participação, sem conseqüências maiores. Como não agüentaria assistir a um filme inteiro sobre uma pessoa desprezível, não teria coragem de impor isso aos outros (risos).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.