Gwyneth estrela comédia turbulenta de Bruno Barreto

Bruno Barreto tinha 17 anos quando estreou na direção, com Tati, a Garota, em 1972. Aos 48, ele continua convencido de que o cinema é a sua religião. "Não saberia viver sem ele", confessa. Para um diretor que encara seu ofício como um sacerdócio, talvez seja decepcionante verificar que Barreto perde tempo demais com comédias a um passo da inconseqüência. O diretor não morde a isca da provocação. Lembra o ator inglês que estava morrendo e aí foram lhe dizer que morrer era difícil e ele respondeu: "Difícil é fazer comédia." Barreto adora as comédias. Considera-as o mais difícil dos gêneros. Sabe que a crítica brasileira recebeu sua comédia anterior, Bossa Nova, a pedradas. O filme chegou a ser definido como "macumba para turistas". "Não acho, mas é uma maneira de ver. Pelo mesmo conceito talvez se possa dizer que o Samba do Avião, do Tom (Antônio Carlos Jobim), também é macumba para turistas", diz.A macumba funcionou nos EUA, onde uma executiva da Miramax viu Bossa Nova, adorou e imediatamente encheu o cineasta de propostas para dirigir comédias românticas. "Poderia ter ganhado um monte de dinheiro", conta Barreto numa entrevista realizada no Rio na semana passada, na pérgola do Copacabana Palace, onde reside quando visita o País. Ele se recupera de uma caminhada na praia. A mulher, atriz Amy Irving, está lá em cima arrumando as malas. À tarde, ambos vão viajar para Paraty. É uma sexta-feira e, neste final de semana, a cidade histórica onde Barreto filmou Gabriela, abriga um encontro internacional de escritores. Uma das comédias que ele foi cooptado para dirigir, Como Perder Um Homem em Dez Lições, foi um grande sucesso junto às platéias teens americanas, mas Barreto preferiu fazer Voando Alto, que foi um fracasso.O filme está estreando hoje em 11 cidades (Rio, São Paulo, Guarulhos, Campinas, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Salvador, Aracaju, Recife e Fortaleza), com 41 cópias. Você poderá até não gostar, mas é bom que veja Voando Alto. Gwyneth Paltrow faz o papel de uma aeromoça. "Todo mundo acha a Gwyneth uma gracinha, mas ninguém morre de tesão por ela. Gwyneth foi a primeira a reconhecer: só mesmo um diretor brasileiro para deixá-la bonita e gostosa." É, realmente, o filme em que a vencedora do Oscar - derrotou a extraordinária Fernanda Montenegro de Central do Brasil, concorrendo por Shakespeare Apaixonado - está mais sexy. Foi até o que a interessou na personagem, tão diferente dela. Isto não foi suficiente para que Voando Alto recuperasse, nas bilheterias dos EUA, o investimento de US$ 35 milhões. Barreto sabe onde está o erro: "O que me atraiu foi o lado Um Sonho sem Limites da história e o filme virou outra coisa."Refere-se à comédia de humor negro de Gus Van Sant com Nicole Kidman como garota do interior disposta até a matar para virar estrela de TV em cadeia nacional. A história de Gwyneth como interiorana que sonha voar - como metáfora do sonho americano de sucesso - também tinha uma dose muito grande de humor negro. "Mas tinha um defeito grave, que não percebemos, nem eu nem o pessoal da Miramax: era uma comédia de humor negro com final feliz, o que é, conceitualmente, uma contradição e até um equívoco." O estúdio deu carta branca a Barreto para fazer o filme que queria, mas quando foram feitas as primeiras pré-estréias e o público não gostou, a Miramax recuou e aí o Sonho sem Limites de Bruno Barreto virou o clone sem gracinha (exceto por Gwyneth) de Legalmente Loira.É assim que o diretor explica o fracasso de Voando Alto nos EUA, mas isto não significa que ele se envergonhe do filme que fez. Barreto é sincero: não gosta "nem um pouco" de dois de seus filmes: Assassinato sob Duas Bandeiras e Gabriela. Sabe que Voando Alto tem boas coisas. O elogio do repórter a Gwyneth Paltrow soa "como música" aos ouvidos do diretor. E ele também aprecia o elaborado visual kitsch que conseguiu estabelecer com o fotógrafo Afonso Beato, que lhe sugeriu a figurinista Mary Zophres, dos filmes dos irmãos Coen. Barreto admite que aprendeu bastante com os problemas deste filme no mercado americano. A estréia brasileira ocorre, agora, sem muita expectativa.Outsider - Na tentativa de tornar Gwyneth simpática para as adolescentes, o que Barreto conseguiu fazer, por pressão da Miramax, foi descaracterizar a personagem e banalizar as intenções que, inicialmente, eram críticas. Mas ele diz que tudo tem limite. "Quando o pessoal da Miramax resolveu que o filme deveria ser narrado por Candice Bergen em vez da própria Gwneth, achei que era demais e ameacei retirar meu nome dos créditos, se eles não testassem as duas versões. Se conseguissem me convencer de que o público preferia a narração de Candice, eu talvez até aceitasse, mesmo a contragosto. O público preferiu, por imensa maioria, a narração de Gwyneth e o meu nome ficou", ele resume.Barreto sabe que é um outsider em Hollywood. Seu olhar em Voando Alto é o de um estrangeiro. Nenhum diretor americano filmaria as cenas de Gwyneth em Paris daquele jeito. E ele se envaidece quando o repórter destaca as boas coisas que o seu filme, apesar de tudo, tem. A primeira decolada de Gwyneth é um plano belíssimo, uma maneira rara de filmar subidas de avião. "Planejamos aquilo minuciosamente, o Afonso (Beato) e eu", conta. O que torna o movimento especial é que eles usaram um helicóptero para seguir o avião na pista e, quando o aparelho empina para subir, o helicóptero faz o deslocamento contrário e empina para baixo. "Ficou bonito, não?" Já que o próprio diretor reconhece que o filme não é bom, fica mais fácil analisar o que o conhecimento de cinema de Barreto pode oferecer ao desenvolvimento da história. São pequenos toques, que espectadores mais irritados com o filme - como os que acharam Bossa Nova uma macumba para turistas - nem vão perceber.Comédia paulistana - O que o aborrece em Hollywood é uma tendência que já há algum tempo ele detecta em executivos de empresas como a Miramax. "Eles tentam encarar o cinema como uma ciência exata. Acham que cruzando fórmulas vão conseguir acertar, o que não é verdade. Essa ausência de exatidão é o que faz a graça. A gente tem de arriscar." Amante das mulheres - é o seu lado François Truffaut, um dos autores que mais aprecia e tanto que chegou a dedicar-lhe Bossa Nova -, Barreto conseguiu extrair boas interpretações também de Candice, como a velha aeromoça, e Christina Applegate, que faz a rival de Gwyneth.Conta uma história sobre Candice: "Depois que conversamos bastante sobre a personagem, ela me confessou que teve uma grande história de amor com o Brasil." Viúva do grande diretor francês Louis Malle, Candice confessou a Barreto que o homem que mais amou foi um brasileiro, o jornalista Tarso de Castro. "Foi uma conversa emocionante", ele lembra. "Almoços de negócios duram pouco, são muito objetivos nos EUA. Ficamos ali durante horas, rindo e conversando, às vezes um pouco nostálgicos do Rio, o Rio dela e o meu. E Candice, com sua humanidade, sua persona, acrescenta alguma coisa a uma personagem que, com outra atriz, talvez fosse banal." Humor e amor estarão de volta no próximo trabalho, que Barreto roda no começo do ano, em São Paulo. É uma parceria dele com Bráulio Mantovani, o roteirista de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que Barreto considera um dos melhores scripts que já viu. Tem vindo bastante à cidade, pois está em fase de selecionar elenco. Em setembro, volta aos EUA e só retorna no fim do ano. "Por enquanto não digo mais nada, mas dentro de duas ou três semanas eu chamo o Estado para dar os detalhes da minha comédia paulistana", promete.

Agencia Estado,

08 de agosto de 2003 | 13h09

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