Guerra quer cinema mais pensante com "Estorvo"

Para quem quiser ver Estorvo e encarar com menor estranheza a angústia constante que o filme transmite em seus 97 minutos, uma sugestão é antes ler o livro homônimo de Chico Buarque de Hollanda. No livro estão subtraídas as imagens e as perspectivas pessoais do diretor Ruy Guerra, que tornam a agonia da história de Chico menos conflitante, tenebrosa, indigerível. Estorvo é assim difícil, mais no livro que no filme, mas da mesma maneira pertubador.O diretor moçambicano, que integrou e formou o Cinema Novo no Brasil, acabou fazendo da audácia de sua adaptação seu maior mérito. Ao transformar Estorvo em imagens, Ruy Guerra dá continuidade a um processo de reflexão no cinema que parecia estagnado há muito. Essa consciência, aliás, pode ter sido aquilo que mais esteve apagado no recente crescimento do cinema nacional, mais preocupado com uma faceta comercial e mais sensível ao público geral - enfim, mais americano. Guerra, involuntariamente, também facilitou a compreensão de uma obra que chegou até a ser criticada por uma suposta reflexão difusa, incomunicável. E ainda provou que cinema pensante pode e deve ser feito no Brasil, onde a realidade cinematográfica tem se mostrado amuada intelectualmente, produtora de histórias fáceis e otimistas, incoerente à realidade triste e caótica na qual o país vive.E é dentro desse caos que o protagonista anônimo de Estorvo se desloca. Interpretado com sangue e suor pelo cubano Jorge Perugorría, o paranóico protagonista escapa desorientado de alguma coisa que não sabe definir o que é, guiado por elucubrações sobre a morte e sobre a presença dela no seu passado. E nessa indefinição obstinada, estende sua paranóia a coisas que nos cercam naturalmente no dia-a-dia, como o dinheiro, a família, a amizade.É na fina lâmina da destruição que esse homem passa a se equilibrar, vagando entre a casa da irmã, a loja da ex-mulher, o apartamento do amigo e o velho sítio da família - mal sabendo que, nessa fuga, cada vez mais se aproxima da morte da qual procura escapar.A fotografia de Marcelo Durst, que captou cenas singulares e ângulos bastante originais, merece destaque especial no filme, como mereceu no 28º Festival de Gramado, onde levou o prêmio de Melhor Fotografia. Do mesmo modo que a inquietante trilha de Egberto Gismonti, também premiada no festival, é digna de atenção. Porém, o que mais deve ser apreciado em Estorvo é a mão mestra de Ruy Guerra, que desenhou caprichosamente a desconfortante história de Chico Buarque na tela.

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