Guerra é o cenário de "A Vida É Um Milagre"

A Vida É Um Milagre, filme de Emir Kusturica que concorreu no Festival de Cannes no ano passado (Kusturica será o presidente do júri este ano) e estréia hoje no Brasil, tem o barroquismo indissociável de seu autor. Não é para todos os gostos, mas quem aprecia o diretor vai achar que ele nunca foi melhor.Duas vezes vencedor da Palma de Ouro - em 1985, por Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e dez anos mais tarde por Underground, Mentiras de Guerra -, o diretor volta à guerra da Bósnia, que tratou um tanto obliquamente no segundo. Em A Vida É Um Milagre, o quadro é o da guerra e o protagonista agora, é um homem, um pai, dividido entre o filho que se perdeu na guerra (e ele quer reencontrar) e a mulher por quem se apaixonou. É uma ligação intensa. Não poderia ser diferente para Kusturica. Atraído pelo inconsciente coletivo de seu povo, Kusturica garante que a guerra da Bósnia não começou, como muita gente pensa, quando o Exército se retirou da Eslovênia, mas sete meses antes, quando a equipe de Belgrado enfrentou a da Croácia num campo de futebol. O que era para ser uma festa ou, simplesmente, uma disputa esportiva, desencadeou uma guerra sangrenta. Filmes, casamentos, funerais, jogos de futebol, tudo se mistura para Kusturica. A arte como a destruição. "Creio que não existe outra maneira melhor para nos definir, a nós que somos dos Bálcãs. Essa parte do mundo é como o Brasil, como a América Latina que a gente encontra nos escritos de Gabriel García Márquez e Jorge Luís Borges, apesar das diferenças entre eles. São escritores que tentam iluminar as áreas de sombra definidoras do nosso caráter. No meu país vivemos assim, com espontaneidade e paixão. Por isso o meu cinema é assim. Todos os meus filmes são o resultado de um processo vital muito forte. Não poderia fazê-los de outra maneira e, para dizer a verdade, é o que mais reprovo no cinema atual - a falta de uma estrutura romanesca nos filmes."

Agencia Estado,

18 de março de 2005 | 12h13

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