Reuters/Johnathan Olley
Reuters/Johnathan Olley

'Guerra ao Terror', crítica: conflito pode viciar como as drogas

Diretora Kathryn Bigelow já está sendo comparada a mestres como Stanley Kubrick e Francis Ford Copola

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

05 Fevereiro 2010 | 05h00

James Cameron e Kathryn Bigelow estão fazendo história no Oscar. Embora não sejam mais casados, é a primeira vez que marido e mulher (mesmo ex) concorrem aos prêmios principais de melhor filme e direção. A coincidência é tanto maior porque Avatar, de Cameron, e Guerra ao Terror, de Kathryn, ganharam o mesmo número de indicações – nove. Mas as semelhanças terminam por aí. Avatar, o filme mais caro de todos os tempos, estreou no fim do ano sob intensa campanha de mídia. Era um filme 100% aguardado pelo público e as plateias corresponderam. Avatar consolidou-se como o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos, superando Titanic, do próprio Cameron.

 

O caso de Guerra ao Terror é mais complicado. The Hurt Locker, título original, teve lançamento pequeno nos EUA. Exibido no Festival de Veneza de 2008, ganhou a admiração da crítica e terminou integrando listas de melhores do ano passado nos EUA. No Brasil, a distribuidora achou que Guerra ao Terror não teria interesse para grandes plateias e desistiu de lançá-lo nos cinemas. O filme já estava destinado ao mercado de DVD quando o acúmulo de prêmios e a respeitabilidade conquistada na crítica provocaram a mudança de estratégia. Guerra ao Terror veio parar nos cinemas, onde estreia nesta sexta, 5.

 

Kathryn tem sido comparada a Kubrick e Coppola por seu filme de guerra. Diretora ‘viril’, no sentido de que sendo mulher, e bela, ela não abre mão de uma direção de cena forte, e muito física, como em geral só se encontra no cinema de ação. Vem sendo assim desde The Blue Steel e, depois, Caçadores de Emoção. Guerra ao Terror abre-se de forma exemplar. O trio de protagonistas se prepara para desarmar uma bomba. Elas são acionadas a distância. James, o protagonista (Jeremy Renner, indicado para melhor ator), é quem vai arriscar a vida, mas seus parceiros vivem toda a tensão do momento.

 

Escrito pelo jornalista Mark Boal, Guerra ao Terror (também indicado para o Oscar de script original) nasceu de uma série de reportagens que fez. Como na Guerra do Afeganistão, a do Iraque tem produzido vítimas por causa das minas, que o Taleban fazia com restos de armamentos. Ocorria no Afeganistão e ocorre no Iraque. O filme acompanha esse esquadrão antibombas. Há um conceito permanente em Guerra ao Terror. Refere-se à droga. James é movido a adrenalina. Ela é sua droga e ele tem prazer em arriscar a vida. É o que o move, no limite, embora, às vezes, esse louco suicida revele uma humanística preocupação pelo outro, pelo que é diferente.

 

Em algumas cenas, a armação é de ficção científica. O especialista que desarma bombas avança para a câmera vestindo um escafandro. É surreal, naquela poeira, naquele calor. Quanto vale a vida humana, interroga-se Kathryn? Mas há outra pergunta subjacente: por que os homens se arriscam? Desarmar bombas, minas, também pode ser uma metáfora do próprio cinema. O filme mistura técnicas e pontos de vista, incorpora as novas tecnologias ao processo. A câmera na mão, a imagem tremida dão a sensação de coisa real, de se estar assistindo a um documentário. Quando Kathryn assume o ponto de vista de James, é como se ela também estivesse vendo o mundo pelos olhos dele. O ponto de vista de James vira o nosso.

 

Tem sido esse o objetivo dos melhores filmes feitos sobre a Guerra do Iraque. Ao fazer com que o espectador compartilhe um ponto de vista, os diretores, e a diretora Kathryn Bigelow, critica o poder (a administração de George W. Bush, agora a de Barack Obama, que fala em desacelerar a guerra, mas aumenta o envio de soldados). Na verdade, a pergunta, sempre repetida, é por que as guerras? Por que essa guerra? Quando sugere que a guerra pode ser uma droga que vicia as pessoas, a diretora não está sendo cínica. A violência da direção de cena, a intensidade das interpretações, a entrega dos atores, alguns em pequenas participações, como Ralph Fiennes, outros dominando a cena, como Jeremy Renner, a guerra não é um jogo nem uma brincadeira em Guerra ao Terror. É uma experiência visceral, como na obra dos maiores diretores.

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