Grupo Satyros investe na solidão da metrópole para primeiro trabalho no cinema

Grupo Satyros investe na solidão da metrópole para primeiro trabalho no cinema

Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é baseado na peça homônima, anteriormente montada pela trupe

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 09h00

Em seu primeiro trabalho para o cinema, o grupo teatral Satyros investe no tema mais paulistano que existe – a solidão dos habitantes da metrópole. O filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é baseado na peça homônima, anteriormente montada pela trupe. Leva para o cinema marcas de sua origem teatral. De acordo com o grupo, as histórias foram tiradas de uma série de entrevistas realizadas com pessoas nas imediações da Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Ouviram moradores, prostitutas, clientes, traficantes, empresários, transexuais, atores, músicos. Enfim, todo o tipo de gente que frequenta aquela região central da cidade. Um painel heterogêneo, que se vale da diversidade da população, estável e itinerante, do local.

Deles, foram eleitos onze “tipos” para compor um painel diversificado da cidade.

Através dessa série de personagens, Hipóteses mostra como as pessoas adotam estratégias de sobrevivência na assim chamada “selva de pedra”, em busca de alguma atenção, prazer, carinho ou de uma mísera migalha de reconhecimento. As personagens variam de uma prostituta que exerce o métier em estado adiantado de gravidez ao suicida em potencial, que procura na internet alguém capaz de fazê-lo desistir do gesto final.

Não menos patético é o rapaz, hostilizado pelo chefe e vítima de bullying na firma,  que procura alguém para partilhar suas tristes férias, planejadas por três anos. Ou a idosa sequelada, que comemora seu aniversário com a cuidadora e espera, em vão, pelo filho dramaturgo, ocupado demais para esse tipo de sociabilidade básica. Há cenas que rondam o patético e outras o trágico, quando, por exemplo, um traficante, entupido de cocaína, resolve “empacotar” em plástico a garota de programa que sai com ele. Maneira, talvez, de fazê-la sua, somente sua.

Essa dura poética do asfalto aparece em plenitude em algumas sequências, como a acima descrita. É quando o filme atinge seus pontos mais altos e melhores. Piora, ao apelar para o grotesco e o redundante em outras passagens.

O elenco é todo bom, mas nem sempre as cenas são bem esculpidas pela câmera. Se os personagens parecem críveis, as situações em que se envolvem, nem sempre o são. E, quando se diz “crível” não está se dizendo que tais fatos existam ou não na realidade. Quem conhece um pouco São Paulo sabe que aqui acontecem coisas de que até Deus duvida.

O problema é fazê-las “críveis” dentro da dramaturgia, de modo a envolver o espectador na sensação de verdade que passam. Nem sempre isso acontece, talvez pelo exagero de determinados personagens ou de cenas criadas com eles. Enfim, a filmagem também não ajuda tanto, e a presença da câmera talvez não tenha beneficiado pessoas acostumadas ao palco como habitat mais frequente.

Nesse sentido, o longa mostra bons momentos, mas algumas das histórias não se encaixam entre si. Em termos de invenção, umas são melhores do que outras, irregularida bastante comum em filmes corais. Outras linhas narrativas poderiam ter sido melhor desenvolvidas, caso o número de episódios cruzados fosse escolhido com mais senso de economia. Quando se coloca muita coisa, o risco da superficialidade passa a existir.

De qualquer forma, o sentimento de estarmos cada vez mais sozinhos, embora vivendo em meio a multidões, é algo que nem precisa ser demonstrado, tanto faz parte da experiência cotidiana de quem aqui vive. O problema é revirar esse clichê (verdadeiro) pelo avesso e descobrir o que mais se pode extrair dele.

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