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Grupo Los Hermanos é retratado em documentário

A diretora Maria Ribeiro exibe hoje o filme dentro do Festival É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h09

Apesar de jovem, a atriz e diretora Maria Ribeiro já possui um tema, ou temas. Talvez seja exagerado dizer que é obcecada pelo tempo, mas ele é o personagem dominante de seus filmes, até agora. Um documentário sobre Domingos de Oliveira, outro sobre seu pai - que pretende encarar no ano que vem - e esse que estreia hoje no Rio e passa sexta em São Paulo, integrando a programação do É Tudo Verdade. Maria já filmou seu mentor, o pai artístico, vai revelar o biológico. "Meu pai foi uma figura extraordinária", conta. "Morreu no ano passado, me proibindo de verter uma lágrima por ele. Dizia que viveu a vida que queria e, ao morrer, iria feliz. Meu pai foi um homem riquíssimo e perdeu tudo, menos o entusiasmo." Uma trajetória de altos e baixos como a de Eike Batista? "Ah, não. Meu pai nunca torrou dinheiro do governo. O que ganhou e perdeu era dele."

Maria agora revela os irmãos - ou quase. Ela conheceu os integrantes da banda Los Hermanos quando estudou com eles. Quer dizer - nunca estiveram na mesma classe, mas ela os ouviu tocar na faculdade e nunca deixou de segui-los. Conheceu os garotos socialmente, e disse que gostaria de fazer um documentário sobre eles. É notório que Los Hermanos nunca foram receptivos a entrevistas, mas ela nunca desistiu. A banda separou-se, voltou a se unir para uma turnê nacional, e ela insistindo. "Venci no cansaço", conta. Eles a autorizaram a segui-los, munida de câmera e gravador, por seis cidades. Ela negociou - Recife, Olinda, Salvador, Brasília, Rio, São Paulo.

O resultado está nesse documentário que Maria fez com recursos próprios e de um amigo. Cada um colocou R$ 100 mil do próprio bolso. Equipe reduzidíssima, mas ela pôde seguir os Hermanos em quartos de hotéis, aviões e nos ônibus da turnê. Fez o documentário que queria. Agora, avaliando o material que colheu e editou, ela sabe que Los Hermanos - Esse É Só o Começo do Fim de Nossas Vidas tem mais potencial de público que o documentário sobre Domingos. Quer parceria para um lançamento melhor, mas, por enquanto, tem dito não. "Os garotos não dão entrevista, as TVs estão todas alvoroçadas, mas de cara dá para sentir que querem reeditar o material do jeito delas. Eu quero manter o filme do meu jeito."

E que jeito é esse? "Vai parecer que eu estou me achando, mas meu ideal de documentário é o do (D.A.) Pennebaker sobre Bob Dylan (Don't Look Now). O que me interessa são os momentos em que não ocorre nada. São os mais reveladores. O Dylan num canto, compondo. Los Hermanos abrindo a guarda em conversas que nem dizem muita coisa, mas os revelam." Eles cantam (muito), mas não espere pelo standard Anna Julia. Seria óbvio demais. Los Hermanos - Os Irmãos. Com o tempo, tornaram-se como irmãos para Maria. Como os demais fãs de carteirinha da banda, ela os colocou no seu panteão particular seduzida pela riqueza e consistência das letras. Decidiu - o documentário seria sobre os Hermanos, não sobre seus fãs. "É importante mostrar a devoção que provocam, e eu fiz questão de apresentar o público que fica na primeira fila, e chora, e canta junto." Mostra o fã que acompanhou Los Hermanos durante toda a turnê, em todas as cidades, mas não exagera.

"Já existe um documentário só sobre os fãs. Não queria ser redundante." De que maneira o tempo, que tanto lhe interessa, se aplica aos Hermanos? "Falar deles é falar da coerência que resiste ao tempo. Você pode se profissionalizar sem perder o sonho. E é a história de um casamento, e uma separação." Existem fãs que comparam Los Hermanos aos Beatles. A banda teria terminado pela rivalidade entre Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, que seriam como John Lennon e Paul McCartney. Mas não existe aqui aquela coisa do choque de egos. "É um casamento que termina porque as partes esgotam um ciclo, querem ser livres para voar (e criar). Isso ocorre na vida de muitos casais e, enquanto para uns é um alívio, para outros é um processo que tem muita dor."

Los Hermanos reuniram-se para a turnê, mas no final o letreiro informa que se separaram de novo. Cada um seguiu seu caminho. E, afinal, não é Camelo nem Amarante quem fornece a explicação. É o Barba. Diz que, para os integrantes dos Hermanos, o importante sempre foi a diversão. Nada de imposição nem sofrimento. Estar juntos tinha de ser um prazer. Uma descoberta. O amor na fórmula de Vinicius de Moraes - eterno enquanto durar. Na vida, você sabe, Maria é casada com Caio Blat. Ela é a cineasta, mas ele tem planos de dirigir. "O Caio sabe mais de cinema que eu. É capaz de dissertar sobre o plano, a lente, o foco. Eu faço. Ele teve uma paciência infinita. Viu o filme umas 80 vezes. Deu conselhos preciosos." Empenhada na realização, ela não se divertiu tanto quanto gostaria, mas quando Barba fala na união pelo divertimento, Maria inseriu um plano em que aparece dançando. Tem tudo a ver.

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