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'Gritos e Sussurros' ganha versão restaurada nas telonas

Com cores mais belas que nunca, longa condensa Ingmar Bergman

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2016 | 18h46

Pode-se dizer sobre Ingmar Bergman o mesmo que Mãe Menininha de Gantois disse a Maria Bethânia, quando cantou para ela, em seu terreiro, Olhos nos Olhos. A famosa babalorixá ficou surpresa que um homem, Chico Buarque, tivesse conseguido penetrar tanto na alma (e no imaginário) das mulheres. Com Bergman foi a mesma coisa. Casou-se diversas vezes, teve relações intensas, tumultuadas. E, ao filmar as mulheres, foi fundo nas suas emoções. Basta lembrar No Limiar da Vida, O Silêncio, Quando Duas Mulheres Pecam/Persona. E, claro, Gritos e Sussurros.

Quatro mulheres de branco num quarto vermelho, como uma placenta. Bergman sempre disse que foi essa a primeira imagem que lhe veio. Três das mulheres são irmãs e a quarta é a doméstica dedicada. Uma das irmãs está morrendo, em meio a dor e sofrimento. A criada a assiste. Numa cena de rara intensidade, acolhe em seus braços a mulher que vai exalar seu último suspiro. A Pietà, segundo Bergman.

Completam-se, neste mês de maio, 44 anos que Bergman levou Gritos e Sussurros para o Festival de Cannes. Antes e depois, o grande diretor sueco já estivera na (e voltaria à) Croisette, mas nunca ganhou a Palma de Ouro. Em 1995, para comemorar o centenário do cinema, Cannes fez uma enquete com todos os vencedores da Palma. Pediu-lhes que outorgassem uma Palma honorário a um grande cineasta que nunca tivesse sido recompensado. Deu Bergman na cabeça. Liv Ullman, com quem ele foi casado e que permaneceu sempre com ele - como atriz, amiga e até diretora de roteiros que ele não quis ou não pôde filmar -, foi quem recebeu o prêmio. Bergman preferiu ficar na ilha de Farö, onde morreria, em 2007, faltando duas semanas para completar 90 anos.

Ele tinha 64 quando fez Gritos e Sussurros. Cercou-se de colaboradores queridos - as atrizes Liv Ullman, Ingrid Thulin e Harriet Andersson, o fotógrafo Sken Nykvist. A doméstica é Kari Sylwan, com quem fez mais teatro que cinema. Bergman escolheu-a, com certeza, pela figura barroca - pelo volume no qual se encaixa a frágil Harriet, como a moribunda. Nos anos 1950, Harriet Andersson foi a Brigitte Bardot sueca, um furacão de mulher que adquiriu a fama de devoradora de homens. Foi a estrela de Mônica e o Desejo, e quando o filme surgiu, em 1952, o diretor e a atriz viraram mitos instantâneos pela sinergia erótica. Na França, futuros autores como François Truffaut tiveram a revelação, com Mônica, do cinema que queriam fazer.

A mulher carnal, exuberante, vira um feixe de ossos. Urra de dor. E o filme usa o espaço, a casa, os conflitos, para retomar uma velha conversa de Bergman sobre seus temas favoritos. A proximidade da morte, a dificuldade de comunicação. O discurso do padre expressa o mal-estar que Bergman, filho de um pastor religioso, sempre experimentou. Nenhum tema mexia mais com ele do que o silêncio de Deus perante a miséria humana. As irmãs têm os próprios problemas e uma está tão mal no casamento que agride o marido (e a si mesma) cortando sua vagina com um caco de vidro. A cena, fortíssima, quase custou a interdição de Gritos e Sussurros pela censura do regime militar. Houve réplica e tréplica, na época. O filme, a arte, venceu.

Tudo isso ocorreu há mais de 40 anos e, agora, Gritos e Sussurros está de volta em versão restaurada, no Cinesesc. Suas cores nunca foram mais belas, mais intensas. E tudo converge para o desfecho, quando o filme sai do quarto vermelho e as quatro mulheres passeiam no jardim ensolarado. Por maiores que sejam a dor e o sofrimento, a vida merece ser vivida, nem que seja por esse (breve) momento. O tempo passa e a idade cai bem em Gritos e Sussurros. O filme não envelhece. Bergman morreu há oito anos e seu olhar sobre as mulheres (e os homens) permanece vivo, e compassivo.

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