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'Gritos e Sussurros' é a obra-prima do cinema de Ingmar Bergman

O mistério mais profundo da alma humana passa por este filme

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 05h00
Atualizado 11 Julho 2018 | 17h04

Cruel é escolher uma favorita entre as obras-primas de Bergman. Gritos e Sussurros, no entanto, parece a mais completa tradução de um percurso de imersão na alma humana levada a cabo pelo diretor. Não é que seja apenas um filme complexo. Mais do que isso, é obra de quem tateia algo que nem o autor compreende muito bem. Em poucas palavras - o mistério da vida e da morte. Pouco, não?

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Quem já leu a autobiografia do diretor - Lanterna Mágica - sabe que o tema da morte o obcecou ao longo da existência. Filho cético de pastor protestante, Bergman se interrogava de maneira contínua, e talvez neurótica, sobre o sentido do não ser da extinção da vida. A questão angustiante e filosófica lhe foi “respondida” por acaso e de maneira simples. Submeteu-se a uma cirurgia e lhe administraram, por engano, uma anestesia muito intensa. “Deixou de existir” durante um dia inteiro e a experiência foi como uma revelação. Era isso, esse vazio, a anulação do tempo, que significava morrer - só que para sempre.

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No filme, temos o processo da morte em ação. Em uma casa de campo, Agnes (Harriet Andersson), moribunda, é atendida por suas duas irmãs, Karin (Ingrid Thulin) e Maria (Liv Ullmann). Mas uma criada da casa, Anna (Kari Sylwan), é quem se ocupa mais da doente, inclusive do ponto de vista afetivo.

Gritos e Sussurros é um estudo em branco e vermelho magnificamente fotografado por Sven Nykvist. A câmara mortuária, em vermelho-sangue, remete ao útero que, pelo contrário, é o órgão onde a vida se fabrica. Há sempre essa ambivalência, inclusive quando a história flerta com o terror na indefinição sobre a morte (ou não) de Agnes.

Em meio à dor e ao desespero, e a mesquinharia de alguns personagens diante da solenidade do momento, surge um clarão de luz. A compaixão, representada pela magnífica Pietà em que Anna acolhe em seu seio a moribunda ou talvez já morta Agnes. Para além da vida e da morte, resta a piedade, já não sob a forma cristalizada da religião, mas em sua frágil condição humana. Esse grande filme nos projeta do abismo da nossa finitude a uma problemática e frágil redenção. 

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