Greves ameaçam Hollywood

Este é o assunto do momento em Hollywood. O dia em que a terra do cinema vai parar. São dois dias, na verdade: 2 de maio e 30 de junho, quando estão previstas para começar as greves de roteiristas e atores, respectivamente. O clima está péssimo na indústria do entretenimento e, ainda que haja oito meses pela frente, a paralisação é quase certa.Os efeitos das possíveis greves já podem ser sentidos desde já. Os estúdios trabalham em esquema de produção industrial. Em média, eles têm rodado em oito meses o mesmo que sua produção anual de fitas. As filmagens continuam a todo vapor até 1º de março, quando ninguém deve começar nenhum filme novo, com medo de que a paralisação (principalmente a do Sindicato dos Atores de Cinema e da Federação Americana de Artistas de Rádio e Televisão) interrompa os trabalhos no meio. Greve é coisa séria por lá e os sindicatos vão garantir que todo mundo pare. No caso do artistas, de Russell Crowe ao figurante que apareceu por 30 segundos em O Gladiador. A previsão é que a paralisação (a dos roteiristas também) dure entre 4 e 16 meses. A conseqüência da "estocagem" é que todos os astros e estrelas de Hollywood estão com a agenda cheia nos próximos meses e há uma certa falta de nomes conhecidos para projetos ainda em fase de escolha do elenco. Os estúdios têm adiado planos de blockbusters como Batman 5, X-Men 2 e Homens de Preto 2, e concentrado o esforço em produções rápidas e fáceis, como comédias, thrillers e filmes de terror, que não precisam de nomes muito conhecidos para fazer sucesso. Reprises, indies e estrangeiros - No caso do cinema, a falta de filmes para ocupar as salas dos cineplexes deve começar a ser sentida apenas no final de 2001 e início de 2002, caso as greves durem mesmo alguns meses. A previsão é de que as telas sejam invadidas por relançamentos, filmes independentes e estrangeiros. Na TV, a situação é bem mais dramática, porque não é nada fácil conseguir um "superávit" na produção. As emissoras devem conseguir produzir apenas alguns poucos episódios a mais de seus seriados (além de telefilmes), o suficiente para algumas semanas de greve. Depois, dá-lhe reprises, programas-verdade (à la Survivor) e especiais jornalísticos (como 48 Hours, 60 Minutes e 20/20). A TV depende muito mais dos escritores (Sindicato dos Roteiristas da América) do que o cinema e a greve deles está mais certa do que a dos atores. O sindicato já passou uma circular para seus afiliados em que diz a eles "que não é época de comprar a maior casa ou o melhor carro " Segundo o documento é preciso economizar cada centavo para os meses de dureza que vêm por aí, em que ninguém vai trabalhar. Quem vai se dar bem se as greves durarem muito são os mercados estrangeiros que já fornecem boa parte da produção de entretenimento americana, como o Canadá, a Austrália e a Grã-Bretanha. Roteiristas e atores deste países poder conseguir bastante trabalho, enquanto a economia de Los Angeles (e em menor escala de Nova York) deve sofrer com as paralisações. Participações nos lucros - E qual é o motivo das greves? Tanto roteiristas quanto atores querem royalties de negócios paralelos, como os direitos de vendas para a TV a cabo, o mercado estrangeiro, de vídeo e até a internet (em breve, vai ser possível baixar programas de TV direto da rede, por exemplo). Estúdios, emissoras de TV e a Associação de Produtores de TV e Cinema não querem diminuir suas fatias dos lucros.Vale a pena deixar claro que não é uma greve de milionários que querem aumentar ainda mais seus ganhos. Enquanto uns poucos artistas levam cachês de até US$ 20 milhões por filme, 80% deles não embolsa o suficiente para sequer ter direito ao plano de saúde e à pensão privada de seus sindicatos, por exemplo. Outra greve já causa alguns transtornos em Hollywood. Desde maio 135 mil atores pararam de trabalhar em comerciais. Os sindicatos dizem que o mercado publicitário é ganancioso e não repassa os lucros que têm com a veiculação de anúncios em mídias como a TV a cabo e o vídeo. A greve estava em clima de guerra absoluta, com muitos piquetes e poucas negociações. A situação mudou recentemente, no entanto. As partes estão em conversações há cinco dias no hotel Crowne Plaza, em Nova York, e um acordo deve sair logo. O medo é que o clima de "aniquilação mútua" seja o tom das greves do ano que vem.

Agencia Estado,

19 de setembro de 2000 | 18h21

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