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Gregg Araki mantém-se fiel a si mesmo em seu novo longa, ‘Pássaro Branco na Nevasca'

Filme traz no elenco Shailene Woodley, da série 'Divergente' e do mega sucesso 'A Culpa É das Estrelas'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2015 | 20h03


Filha de Marlène Jobert, a Mélancolie de Passageiro da Chuva, thriller de René Clement com Charles Bronson, Eva Green rapidamente projetou-se como mito sexual. Basta lembrar de suas cenas em 300 – A Ascensão do Império, e antes disso do triângulo que ela formava com os garotos de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Não é o menor dos prazeres de Pássaro Branco na Nevasca subverter a expectativa do público mostrando uma Eva Green tão reprimida em seu papel de dona de casa insatisfeita que a personagem, literalmente, some.

Ocorre de cara. Shailene Woodley, estrela da série Divergente e do mega sucesso A Culpa É das Estrelas, chega em casa e o pai informa que a mãe sumiu. Só bem mais tarde, quando o tempo passou e a juvenil Shailene volta mais madura para casa, após a formatura, o sumiço se esclarece. Tem a ver com desejos sexuais e insatisfações familiares. E, por falar em desejo, completa o gosto do diretor Gregg Araki por sacudir/surpreender seus espectadores o fato de Shailene parecer uma gata no cio, só pensando em fazer aquilo com o namorado. Pensando, é bom ressaltar, porque a vidinha dos dois é bem morna. A ironia é tanto maior porque Shailene era tratada como gata pela mãe. Não por acaso, chama-se Kat.

Gregg Araki é um cineasta norte-americano de ascendência oriental que nasceu em Los Angeles, em 1959. Quase trintão, ele iniciou em 1987 a carreira de diretor e roteirista. Contemporâneo de Gus Van Sant, tornou-se um dos luminares da produção independente da época. E foi um passo à frente de Gus, até por se assumir como gay muito cedo, criando um culto em torno de si, em filmes como Geração Maldita, Mistérios da Carne e Kaboom. Mesmo quando a história trata de relações heterossexuais – um casal cai na estrada com um fugitivo da polícia em Geração Maldita –, os olhares oblíquos que os rapazes trocam entre si não deixam margem a dúvida de que a garota vai terminar sobrando.

Há um quê de surrealismo nas histórias que Araki gosta de contar. Elas incluem personagens bizarros, até alienígenas. Misturam gêneros – Pássaro Branco é, ao mesmo tempo, filme teen, terror e comédia. A chave é a relação de Kat com a mãe, o que leva a garota a frequentar uma terapeuta para tentar descobrir a origem, ou a extensão, do problema entre as duas. Nessa de investigar, Kat termina se envolvendo com um detetive quarentão. E o curioso – mais uma das soluções na contramão de Araki – é que a mãe parecia, ou era, mais concretamente, atraída pelo namorado da filha.

Mais até que as sexualidades exasperadas e/ou alternativas, o olhar de Araki sobre seus personagens elaborou uma estética tão artificial quanto interessante. À falta de uma definição melhor, os críticos se referiam ao visual de seus filmes como ‘lisérgico’. Pássaro Branco – qual é a chance de uma ave dessas ser vista numa nevasca? – situa-se na passagem dos anos 1980 para os 90, com uma trilha bem representativa da época. Araki já estava então nos seus 20 anos. Pode-se dizer que as fantasias teen de Kat/Shailene são projeções das dele. Em outros filmes, a nostalgia é do que ele nem conheceu. A estrada de Geração Maldita é emprestada aos easy riders que irromperam no cinema norte-americano (e mudaram a face de Hollywood).

Estrela em ascensão, Shailene declarou em Sundance, no começo do ano, que trabalhar com Gregg Araki era um sonho antigo – desde que viu Mistérios da Carne há 11 anos (o filme é de 2004). Foi, inclusive, o desejo de conhecer autores como ele que a trouxeram para o cinema. “Com Gregg, não existem meias medidas. Ninguém faz filmes como ele, e por isso o mundo divide-se entre os que o amam e os que o odeiam.” Shailene vai ao cerne da questão. Araki não faz filmes palatáveis, para o senso comum. Não é para todos os gostos. O repórter, como Shailene, gosta. Nós gostamos. Esperamos que você também.

 

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