Greenaway pode acabar falando sozinho

Peter Greenaway vem repetindo em entrevistas que o cinema está morrendo. Deve ter razão, pelo menos em parte, pois se há um cinema que exibe sinais vitais cada vez mais fracos é o dele próprio. Oito Mulheres e Meia é a melhor prova disso. De A Última Tempestade para cá, o trabalho de Greenaway vem se tornando mais formalista e fraco de conteúdo. Previsível, para quem o conhece.Não quer dizer que não haja uma inteligência por trás de Oito Mulheres e Meia. Pelo contrário. Como os outros de Greenaway, este também é um filme cerebral - talvez até demais. Greenaway é um intelectual. Busca a abrangência da multimídia, com perdão da palavra. Suas referências culturais, em geral, são autores longínquos e consagrados - Shakespeare, Dante. O cânone, em suma.Desta vez, bebe em fontes mais contemporâneas. Fellini e Mondrian. São referências cruzadas e, até certo ponto, contraditórias. Fellini é o cineasta da profusão, do barroquismo meridional, do sentimento, do pathos. Mondrian é o mestre do desenho mínimo, da depuração extrema. Suas telas são épuras, esqueletos de obras. Fellini consegue estabelecer o diálogo entre o intelecto puro e a emoção. Por isso faz sucesso, atravessa gerações e entra na casa do pensador e na casa do homem simples. É universal, embora nunca tenha, no sentido metafórico, tirado o pé da sua Rimini natal.Mondrian é outro papo. Exige do espectador um desprendimento de si, uma corrosão do ego, um despojamento quase zen da personalidade. Um dos personagens de Cortázar, em O Jogo da Amarelinha, dizia que para apreciar a arte de Mondrian era preciso "mondrianizar-se". Vale pelo neologismo e também pela sacada. Para compreender Mondrian é preciso simplesmente se despir dos preconceitos estéticos e entrar na dele, o que é mais fácil de falar que de fazer.Bom, esse seria talvez o projeto do próprio Greenaway. Esqueça o cinema narrativo. Esqueça essa arte caduca do século 19. Arte sem futuro, como dizia Lumière, que a inventou. Mas, claro, toda arte incorpora sua tradição ao mesmo tempo em que a nega. Ao desconsiderar a inércia do passado, Greenaway pode estar querendo inventar a dialética de um termo só. Quer dizer, pode terminar falando sozinho, ao buscar a quadratura do círculo em que se transformou seu cinema.

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