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'Grandes Olhos' é um caso torto de amor e submissão feminina

Tim Burton conta uma história simples, mas revela rincões ocultos de questões aparentemente encerradas; Amy Adams venceu um Globo de Ouro pelo filme

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2015 | 03h00

Grandes Olhos, de Tim Burton, é a história de uma farsa. E também de um caso torto de amor e submissão feminina.

O caso é o seguinte: em 1958, Margaret (Amy Adams) escapa de um casamento opressivo e se manda com a filha para San Francisco. Ela é uma espécie de pintora de domingo, dotada de obsessão monotemática – pinta crianças com olhos grandes e ar triste, em diversas situações.

Numa feirinha de artes, onde ganha a vida desenhando caricaturas de pessoas a um dólar por cabeça, conhece outro pintor, Walter Keane (Christoph Waltz, de Bastardos Inglórios). Este também expõe seu trabalho, paisagens de Paris, onde diz ter morado algum tempo no bairro boêmio de Montmartre.

Os dois se casam e, quando lhe vem a percepção do valor comercial do trabalho da esposa, Walter passa a assiná-lo, como se os quadros fossem seus. As pinturas são assinadas simplesmente como “Keane”, o sobrenome do homem, herdado pela mulher com o casamento. O engodo subsiste alguns anos, até que Margaret resolve abrir o jogo e o caso vai parar na Justiça.

Como acontece em muitos filmes de Burton, este também se assemelha a um conto de fadas com fundo moral. Com nuances. Na verdade, há um consórcio na fraude. Ela só pode ser praticada pelo homem porque tolerada pela mulher. Mas existem as circunstâncias – e estas dizem tudo. Margaret aceita a situação porque vive numa época em que a opressão sobre as mulheres é tida como “normal”. Por exemplo, antes de casar com Walter, ela se apresenta como divorciada para pedir emprego e nota a reação que isto causa no hipotético patrão. Ser mulher separada era um estigma social.

Walter é uma proteção. E será sentido como tal até mesmo quando passa a explorar o potencial monetário da obra da esposa. Assumir essa obra como sua parece apenas decorrência cultural. Se a esposa é “propriedade” do marido, por extensão o que produz também o é. Walter trabalha dentro desta lógica. Nem por isso é retratado de maneira neutra. Burton o vê como um charlatão alcoólatra, mulherengo e aproveitador. Há nuances, em especial o charme que consegue manter Margaret submissa ao marido durante um bom tempo.

Grandes Olhos produz toda uma consideração em torno do mercado da arte. As pinturas de crianças com olhos grandes são consideradas meio kitsch e desatualizadas pela crítica. (Por falar nisso, o mitológico Terence Stamp, de Teorema, de Pier Paolo Pasolini, está hilário no papel de crítico de arte). Walter não se dá por achado. Se intelectuais o desprezam, abrirá uma galeria própria para vender “seus” quadros. Em seguida, descobre que as cópias em série das obras originais, os pôsteres, podem representar filão até mais interessante.

Por alguns centavos, as pessoas podem pendurar na parede de suas casas um “autêntico” Keane. Isto é, uma cópia garantida pelo autor. O passo seguinte será a fabricação de uma série de gadgets com as figuras de olhos grandes. Esperto, Keane oferece pinturas a celebridades, pois sabe que, com isso, se colocará na mídia. Alia-se a um colunista social, que lhe dá respaldo.

Para resumir, Keane pode ser um picareta, mas detém as chaves para penetrar no mundo pop, da indústria cultural e da produção em massa.

Poderia ilustrar, pelo negativo, a tese de Walter Benjamin sobre a perda da “aura” da obra de arte na época da sua reprodutibilidade.

Como acontece muito com Tim Burton, seus filmes dizem mais do que aparentam. Grandes Olhos é uma história simples, baseada em fatos reais – nos créditos, Amy Adams aparece ao lado da verdadeira Margaret Keane. Mas desvenda rincões ocultos de questões aparentemente encerradas, como a opressão feminina, a cumplicidade silenciosa, a mercantilização da arte, etc. Basta saber ver. Com os olhos bem abertos.

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