Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Grandes nomes de Hollywood analisam o futuro dos filmes

Cineastas, produtores, roteiristas e atores discutem o momento atual e imaginam um cenário em que o streaming vence o cinema

Kyle Buchanan, The New York Times

24 de junho de 2019 | 03h00

Os grandes estúdios devoram uns aos outros enquanto os filmes menores enfrentam dificuldades e até mesmo os títulos das marcas de renome afundam nas bilheterias. A Netflix está revolucionando a forma como as pessoas assistem aos filmes, enquanto os novos serviços de streaming da Apple, Disney, Warner Bros. e outros estúdios de grande porte já estão chegando. E todos os aspectos da indústria cinematográfica estão sendo questionados.

“Esta é a maior mudança no setor de conteúdo na história de Hollywood”, disse recentemente o produtor Jason Blum. Mas como tudo vai ficar quando a poeira baixar? Para descobrir, convoquei um grupo virtual com pessoas importantes de Hollywood, e sua mensagem para a indústria do cinema foi clara: Adaptar-se ou morrer.

Existe um futuro nos cinemas para alguma coisa além dos blockbusters?

J.J. Abrams: Há muito tempo, as pessoas vêm dizendo que o negócio está mudando, mas isso é inquestionável agora. Está acontecendo.

Jason Blum: Eu nunca senti em Hollywood a energia nervosa que senti nos últimos 12 meses, e isso aumenta a cada dia.

Joe Russo: Você tem tantas opções para assistir ao conteúdo, que precisa haver um motivo para sair de casa. O que vai levar você a fazer isso?

Anthony Russo: Foram lançados 350 filmes a mais nos EUA no ano passado do que quando Avatar saiu em 2009. O mesmo acontece na televisão. Simplesmente havia menos de tudo, e menos estrelas de cinema também. E quando os números começam a subir tão alto você deixa de ver as árvores e só enxerga a floresta.

Abrams: Quando você tem um filme tão divertido, bem feito e bem recebido como Fora de Série, que não teve o resultado que deveria ter tido (a comédia adolescente teve mau desempenho nas bilheterias apesar do entusiasmo dos críticos), realmente percebe que a típica luta darwiniana pela sobrevivência está completamente desequilibrada agora.

Todos querem descobrir como proteger os filmes menores. Eles podem existir nos cinemas?

Kumail Nanjiani: Eu li em algum lugar que uma pessoa vai ao cinema cerca de quatro vezes por ano, e esses filmes enormes são lançados e acabam que sugando todo o ar. Especialmente no caso de comédias. Poucas delas foram parar entre os sucessos de bilheteria nos últimos dois anos. Acho que é porque existe a sensação de que apenas certos filmes são dignos de se assistir no cinema.

Jordan Horowitz: Eu não me sinto particularmente otimista sobre a experiência tradicional do cinema, especialmente para os filmes independentes.

Joe Russo: Quando se fala sobre fazer filmes de personagens como Cherry (depois de quatro sequências da Marvel, os Russos vão dirigir este drama de orçamento médio), até nós achamos que está ficando cada vez mais difícil – não com o passar dos anos, mas com o passar dos meses.

Abrams: Temos de encontrar meios de levar as pessoas aos cinemas para filmes que não sejam os eventos gigantescos. Não que esses sejam uma garantia, aliás!

Michael Barker: Eu não acho que exista uma sentença de morte, mas um sinal de alerta.

Tom Rothman: A palavra que usamos aqui é “teatralidade”. Que filme fará a pessoa ir ao cinema para vê-lo? É preciso haver algo que lhe dê essa urgência, e isso vale para um filme de terror de baixo orçamento, um blockbuster ou um drama original de médio orçamento.

Nancy Utley: Precisamos ser ainda mais seletivos porque se o público percebe que é algo parecido com o que viu em um serviço de streaming ou na TV a cabo, o filme pode não alcançar o nível de “teatralidade”.

Amy Pascal: Eu só não quero que nós imponhamos para nós mesmos regras onde dizemos: ‘Isso não pode ser exibido em uma sala de cinema porque ninguém irá vê-lo’. Se decidirmos isso, então vai acontecer, e isso será uma profecia autorrealizável.

Um lançamento em cinema ainda é importante?

Paul Feig: Vou ser honesto. Às vezes penso que deveríamos ter feito Um Pequeno Favor (aquele thriller de estúdio que arrecadou US$ 53 mi no mercado interno, quebrando a sequência de filmes de US$ 100 mi de Feig) para streaming porque esse é o tipo de filme que você quer assistir quando está pronto para se divertir, e não o tipo de filme que você corre para o cinema, estaciona seu carro e saca sua carteira só para vê-lo.

Horowitz: Estou lidando com isso agora com Fast Color (dirigido por Julia Hart, sua esposa), que teve muita dificuldade em ser distribuído, e será. Daqui a cinco anos, acho que será muito diferente. Esse filme seria feito por um desses streamers ou vendido para um deles.

Blum: Whiplash foi um desastre em cinemas! Eu queria que o filme fosse visto por estudantes e crianças, e eles acabaram vendo na TV. As pessoas que pagaram para ver Whiplash eram como eu: velhas demais (ele tem 50 anos).

Octavia Spencer: Vou ser bem sincera: eu não quero que as pessoas não exibam seus filmes em um cinema antes. Eu gosto da ideia de filmes sendo exibidos lá e depois indo para streaming e dispositivos.

Rothman: Em um mundo onde tudo está sob demanda, isso é o que torna os filmes especiais: porque é mais difícil, porque é uma opção de lazer mais significativa. Quer saber de uma coisa? Você não pode assistir (o próximo filme de Tarantino) Era Uma Vez em... Hollywood no seu telefone agora. Se você quiser ver Leo e Brad juntos na tela, a maior dupla de estrelas desde Butch e Sundance, você tem que ter uma babá.

Jon M. Chu: Se você tivesse me perguntado há dois anos onde a indústria cinematográfica estaria em 10 anos, eu poderia ter dado uma resposta diferente. Mas depois do que eu experimentei com Podres de Ricos, vendo o público comparecer, é, de certa forma, revigorante a ideia de ir ao cinema. Esse aspecto social de compartilhar um filme com amigos, estranhos e a família é uma parte muito forte da nossa tradição. Nosso sucesso não teria sido possível de outra maneira.

Lena Waithe: Há pessoas que não podem se dar ao luxo de ir ver os grandes filmes. Algumas pessoas moram em cidades pequenas onde o cinema não exibe Moonlight, por exemplo.

Barry Jenkins: Da mesma forma que a mídia social se aproxima da experiência de estar em uma comunidade, acho que a maneira como vemos essas coisas, seja em telas planas, laptops ou telefones, é também uma aproximação do que os fundamentos originais desse meio de comunicação sempre foram. É um meio termo. Cinco anos atrás, você não podia simplesmente pegar seu laptop e encontrar os filmes de Claire Denis. Agora você pode, o que é uma coisa realmente incrível e melhor para o mundo.

Feig: Em Lawrence da Arábia, uma das maiores tomadas de todos os tempos é quando ele vem pela vasta paisagem como um minúsculo pontinho sobre um camelo. Há momentos em que você quer fazer uma foto legal como essa, mas diz: ‘Quando as pessoas assistirem isso em seu telefone, não vão ver nada’. É uma maneira terrível de pensar, mas você precisa mantê-la em sua mente.

DuVernay: Existe um privilégio embutido (em um lançamento no cinema) porque eu o tive, eu vi e sei o que é: muito ego. O sistema me diz que isso é o que importa, mas as pessoas não veem seus filmes. Veja o número de pessoas que viram Selma, uma estreia de Natal com campanha do Oscar sobre Martin Luther King... Mais do que o quádruplo de pessoas viram A 13.ª Emenda (documentário da Netflix) sobre o complexo industrial prisional. Se estou contando histórias para alcançar um público de massa, nada mais importa.

Se os cinemas desaparecerem, como será a era do streaming?

Elizabeth Banks: Para uma pessoa como eu, que cresceu com comédias românticas, voltar a vê-las pelo streaming foi realmente gratificante. As pessoas gostam dessas coisas que os estúdios pararam de dar a elas, e os serviços de streaming aproveitaram a brecha.

Jessica Chastain: Eu já vi muitas mulheres cineastas terem oportunidades na Netflix e na Amazon que não conseguiram pelo sistema de estúdio. Então, estou muito, muito feliz com o novo rumo que nossa indústria está tomando.

Scott Stuber: Temos que reconhecer que há um público global gigante e que o gosto de todos em Los Angeles e NY não é necessariamente o gosto de todos na França ou África do Sul.

Rothman: Com os serviços de streaming, é a diferença entre uma estratégia para aniquilar e uma estratégia para curar. Na Sony, fazemos apenas 20 filmes por ano, e cada um deve ter impacto cultural. É muito difícil ter ao mesmo tempo um enorme volume e um impacto cultural significativo.

Nanjiani: Isso é muito cínico, mas acho que o padrão de qualidade para as pessoas que assistem a coisas em casa não é o mesmo. Se você for ver Os Vingadores no cinema, é melhor que seja ótimo, mas se você está apenas vendo coisas em casa, não importa muito. A Netflix faz coisas incríveis e está levando lançamentos para pessoas que, 10 anos atrás, não teriam acesso. Mas também acho que a Netflix prefere ter cinco coisas das quais as pessoas meio que gostam do que aquela uma que as pessoas realmente amam.

Steve Gillula: Não acho que filmes como Oitava Série, de Bo Burnham, O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson, ou Moonlight, de Barry Jenkins, teriam um público significativo se tivessem estreado em streaming – eles não tinham as estrelas nem os diretores estabelecidos que poderiam ter chamado a atenção. Ainda há um papel extremamente vital que os festivais e as salas de cinema desempenham para dar tempo a esses filmes serem descobertos.

Blum: Acho que o tipo de filme que consegue aquela janela (o período em que um filme permanece nos cinemas antes do lançamento em casa) vai se estreitar ainda mais. A maioria dos dramas não terá uma janela cinematográfica tradicional.

Horowitz: Filmes (independentes) serão distribuídos com exibição limitada em cinemas ou sem cinema algum. À medida que mais e mais serviços de streaming estão criando recursos, acho que começaremos a ver os festivais como a experiência cinematográfica de muitos desses filmes. O filme estreia em Sundance ou Toronto, e naquela semana ou na seguinte chega ao streaming.

A era do streaming nos obrigará a repensar o Oscar?

Jenkins: Precisamos proteger algumas tradições. A exibição em cinema sempre será uma qualificação para o Oscar. Mas talvez eu seja um dinossauro.

Franklin Leonard: Sou um membro associado da Academia, e acredito que o Oscar e a Academia deveriam celebrar filmes excepcionais onde quer que eles existam.

Os jovens ainda se importam com filmes?

Nanjiani: Eu estava em um bar com um amigo diretor. Na fila do banheiro, ele estava dizendo que os cinemas iriam acabar. Ele disse: ‘As crianças não assistem a filmes, assistem ao YouTube’. Achei que era uma loucura. Havia uma garota na fila e ele perguntou qual era o filme preferido dela. Ela respondeu: ‘Eu não vejo filmes’. Ela tinha 25, não era criança, e disse que seus amigos também não assistiam.

Blum: O impressionante é que eles estão assistindo a partes de algumas coisas enquanto fazem outras tarefas. Mas é melhor do que não assistir nada.

Joe Russo: Quando eles assistem a uma temporada de Stranger Things, isso os está treinando para esperar uma recompensa maior que poderiam obter de algo com duas horas. Não temos certeza de que o filme de duas horas, fechado, será a narrativa dominante para a próxima geração.

Jeffrey Katzenberg: O que Quibi (o próximo serviço de streaming para celular) está tentando fazer é chegar à próxima geração de narrativa cinematográfica contando histórias de duas horas em capítulos com sete a dez minutos de duração.

Existe uma maneira de fazer isso funcionar financeiramente?

Abrams: Por mais incerto que tudo seja, provavelmente nunca houve um momento melhor para ser uma pessoa criativa nesse negócio, exatamente por causa da demanda de curto prazo por programação. Isso vai exigir grandes histórias para que essas plataformas sobrevivam e chamem a atenção.

Banks: Há muito mais trabalho, mas está muito mais difícil ganhar dinheiro.

Mais oportunidade para mulheres e negros pode salvar uma indústria em crise?

Leonard: Se você não está fazendo filmes como Podres de Ricos, e Pantera Negra, e Capitã Marvel, e Mulher-Maravilha, e Se a Rua Beale Falasse, e Moonlight: Sob a Luz do Luar em 2019, boa sorte. Eu desafio qualquer um a construir uma empresa em torno de narrativas e histórias que são totalmente voltadas para as pessoas pelas quais historicamente são conduzidas, e esperam entregar o melhor para seus investidores do que uma empresa que tenha um retrato mais representativo do mundo no qual vivemos.

Waithe: Não, eu não estou tentando elogiar Jordan Peele mais do que ele precisa ser elogiado, mas Corra! mudou as coisas. Simplesmente o fez! Foi uma surpresa, um choque para o sistema. E a indústria não pôde ignorar os números para isso.

Nanjiani: Emily (V. Gordon, sua parceira de escrita e esposa) e eu escrevemos um filme, e um estúdio realmente enorme nos disse: 'Ei, uma mulher negra deve ser a protagonista deste filme'. E nós concordamos: ‘Ótimo!’ Não acredito que teríamos ouvido isso cinco anos atrás, de um grande estúdio.

Feig: Isso é ótimo porque, pelo menos, abre as portas, mas realmente cabe a nós, como cineastas, mudar a configuração padrão de quem poderíamos convocar para tais papéis. Antes de irmos para as pessoas comuns, para as quais sempre vamos, por que não poderia ser uma mulher? Por que não poderia ser uma pessoa de outra origem?

Spencer: O fato de as pessoas estarem me chamando, uma mulher de certa idade e background, para se sentar em filmes de estúdio - que não têm sido meu ganha pão - definitivamente há uma mudança de paradigma.

Waithe: Acho que os negros nesta indústria estão fazendo arte que é tão específica, única e boa que os chefes dos estúdios estão dizendo: 'Como podemos apoiar você e ficar ao seu lado?'. A parte difícil é que eles também querem ganhar dinheiro.

Leonard: O que acontece quando você tem uma geração com o tipo de educação como a nossa, que endeusamos por muito tempo pessoas como Quentin Tarantino por terem trabalhado em uma locadora, ou morado perto de um cinema onde filmes indie estavam sendo exibidos? Durante muito tempo, Hollywood funcionou como um ponto de estrangulamento. Agora que as pessoas têm acesso a essa educação, juntamente com as mudanças na indústria que estão abrindo mais oportunidades, acho que estamos à beira de um período notável no cinema e na televisão que será diferente de tudo que já vimos antes.

Chastain: Vai trazer para o topo algum talento criativo muito interessante que não teria tido a oportunidade de trabalhar no sistema antigo. Veja-se para Boneca Russa. As pessoas adoram essa série, e Leslye (Headland, que ajudou a criá-la) está sendo reconhecido. No passado, no sistema de estúdio, eles diziam: 'Ah, a única mulher cineasta que conhecemos é Kathryn Bigelow'.

Banks: A boa notícia é que há mais do que apenas Kathryn Bigelow, embora sempre tenha havido mais do que Kathryn Bigelow. Eu encorajo mulheres cineastas a almejar filmes maiores. Trabalhamos em uma indústria em que somos cidadãos de segunda classe em vários níveis, e é preciso muita coragem e confiança para dizer: 'Dê isso para mim'. Mas encontro essas mulheres o tempo todo. Elas só precisam da oportunidade.

Feig: Alguém Especial (a comédia de Gina Rodriguez na Netflix que ela produziu) é o tipo de filme que nós sabíamos que um estúdio provavelmente não faria, e a Netflix era um lugar que eu sabia que poderia conseguir (Jennifer Kaytin) Robinson por trás a câmera como uma diretora de longa metragem pela primeira vez. Eu sou um cara de estúdio e adoro filmes de estúdio, mas está cada vez mais difícil conseguir um estúdio para investir em novas vozes porque as apostas são maiores. É por isso que eles geralmente agem de maneira segura e dizem: 'Bem, pelo menos esse diretor tem um histórico'. As empresas de streaming só precisam de conteúdo que seja bom, não necessariamente de conteúdo tão inegável que conquistem as pessoas a noite inteira. Eu acho que eles são mais capazes de dizer: 'Vamos arriscar'.

Spencer: Há muito poucas pessoas que ainda atraem grandes sucessos de bilheteria, então os estúdios vão ter que jogar por fora e olhar para os dados demográficos que são mal servidos, depois trazer as histórias que eles querem ver para os cinemas.

Chu: Com In the Heights, eu sabia que queríamos ir para as salas de cinema porque é um musical e queríamos que as pessoas o testassem no escuro, com foco na tela. E, da mesma forma que Podres de Ricos, este é um momento de se fazer uma declaração sobre o que o público está disposto a ir ver. Ver rostos latinos (Latinx) no museu do cinema é importante agora.

Jenkins: Você vai amar isso. Tivemos uma exibição de Se a Rua Beale Falasse em Washington, D.C., no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, e houve um incêndio. Então, ironia das ironias, tivemos que atravessar a rua para o Air and Space Museum, onde há um teatro Imax. Para ver Regina King como uma mãe negra tentando salvar sua família na tela extraordinariamente grande, no Air and Space Museum - onde, quando você sai, tudo que você vê são imagens de homens brancos indo para o espaço. Eu pensei 'Ok, foi assim que as pessoas sentaram em uma cadeira de cinema e pensaram que um trem vinha na direção delas.' Não consigo sentir isso na minha tela plana em casa, então temos que criar algo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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