Grandes intérpretes em mostra na Cinemateca

Grandes Interpretações é a retrospectiva que a Cinemateca Brasileira oferece de hoje a 6 de junho. São 13 títulos, produzidos entre 1960 e 1999, por 12 países diferentes. Maior diversidade, difícil. O que une os filmes, segundo informa a curadoria, é o fato de serem caracterizados por atuações marcantes de seus protagonistas. O pretexto é tão bom quanto qualquer outro. E se justifica na medida em que traz de volta à cena títulos tão interessantes quanto O Belo Antonio, de Mauro Bolognini, e Ironweed, de Hector Babenco. Tão intensos quanto Ondas do Destino, de Lars von Trier, e O Silêncio, de Ingmar Bergman. Ou tão raros quanto Rebelião, de Masaki Kobayashi, e O Assassino, de Romuald Karmakar. Ou seja, partindo de um eixo comum, a mostra chega a um resultado incomum. O que vale mesmo para o cinéfilo é a oportunidade de ver, ou rever ? e na tela grande, ou seja, como se deve ? uma série de filmes de qualidade, alguns excepcionais. É o caso, por exemplo, de Ondas do Destino, um Von Trier pré-Dogma, dependente das atuações marcantes de Emily Watson e Stellan Skarsgard. Eles formam um casal, que deve se separar, pois o homem vai trabalhar longe, numa plataforma de extração de petróleo em alto-mar. Ele se fere, fica tetraplégico. E o relacionamento adquire uma feição tanto humana quanto perversa, pois ele exige que a esposa se relacione com outros homens e depois relate para ele as experiências. Para que ele as viva por procuração. Lars von Trier é dinamarquês e faz par com outro nórdico famoso, este o mestre entre todos, Ingmar Bergman, representado na mostra por O Silêncio, história de duas irmãs que voltam à Suécia e são obrigadas a parar num hotel onde se fala uma língua desconhecida. Uma delas é alcoólatra e, para fugir dela, a outra perambula pelas ruas e se entrega a uma vida sexual dissoluta. Todo o dilaceramento existencial que nos acostumamos a associar aos dramas de Bergman passam pelas figuras interpretadas por Ingrid Thulin e Gunnell Lindblom. Do italiano Mauro Bolognini vêm o raramente reprisado Metello e talvez seu título mais conhecido, O Belo Antonio, no qual Marcello Mastroianni vive um papel dificilmente associável à sua fama de conquistador, o de marido impotente. Mastroianni contracena com a bela Claudia Cardinale, o que torna o seu drama ainda mais pungente aos olhos masculinos. Outro casal que ocupa com grande propriedade a tela é Jack Nicholson e Meryl Streep, os dois sem-teto de Ironweed, delicado filme que Hector Babenco rodou nos Estados Unidos. Os dois fazem um casal decadente, na Albany de 1938, ele um alcoólatra com trauma no passado, ela uma ex-cantora que já conheceu dias melhores. Vereda da Salvação, a única produção brasileira da mostra, é a adaptação de Anselmo Duarte para a peça de Jorge Andrade. Uma comunidade rural que sobrevive precariamente entrega-se ao misticismo cada vez mais fanático. Destaque para as atuações de Raul Cortez e de Lélia Abramo, morta há pouco. Antes de Vereda, Anselmo Duarte já havia adaptado outro texto teatral, O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, e com ele havia conquistado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Com Vereda da Salvação não atinge o mesmo bom resultado cinematográfico, mas vale ver. Outro destaque da retrospectiva é Z, de Costa-Gavras, considerado um clássico do cinema político, com Jean-Louis Trintignant, Yves Montand e Irene Papas brilhando nessa história de um político de esquerda (Montand), assassinado num comício pacifista contra a instalação de bases nucleares. Foi um tipo de cinema de grande repercussão nos anos 60, no qual Costa-Gavras, grego radicado na França, era mestre. Depois esse gênero caiu em desuso, como a própria política.

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