Gramado reserva o melhor para o último dia

Não é raro acontecer em festivais: Gramado reservou alguns ótimos filmes, todos em condições de ganhar prêmios, para o último dia de competição. Depois de um regime cinematográfico muito apertado, o público foi brindado com o interessante documentário gaúcho O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach, e com dois belos longas de ficção, Whisky, dos uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, e o brasileiro Vida de Menina, de Helena Solberg. O Cárcere e a Rua segue a vida de três mulheres e suas experiências no regime carcerário. Cláudia deve deixar a prisão depois de 28 anos. Betânia vai para regime semi-aberto, Daniela acaba de chegar e aguarda julgamento. O filme é um olhar sensível, feminino, sobre a vida cotidiana de presidiários, que, no caso masculino, já havia sido abordado por um filme-marco, O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento. Este era uma descida ao inferno do Carandiru. Já O Cárcere e a Rua apresenta um olhar mais doce, mais emotivo, realçado pelo fato de a cineasta optar por filmar suas personagens em super close, a maior parte do tempo. Parece querer captar o que vai em suas almas, mas não chega lá, talvez exatamente porque se compadeça demais delas e esqueça de que as vezes só se acede a esse fiapo de real que o documentarista deve buscar com certa frieza cirúrgica e determinação. Whisky foi talvez a maior surpresa do festival. Costuma-se esperar pouco do cinema uruguaio, talvez pelo reduzido número de filmes que o país vizinho produz. Certo, já se conhecia 25 Watts, da mesma dupla realizadora, um filme de qualidade que andou por este mesmo Festival de Gramado anos atrás. Mas este é infinitamente superior. Sabe aquele filme pequeno, que começa parecendo que não vai a lugar nenhum e nem quer nada, e de repente começa a envolver toda a platéia? Pois é, Whisky é assim. Somos capturados pelas três pequenas vidas que se desenrolam diante dos nossos olhos e passamos a segui-las com o interesse que dedicaríamos a uma boa trama de suspense. E no entanto, em aparência, não se trata de grande coisa. Jacobo tem uma pequena fábrica de meias em Montevidéu e vai receber a visita do irmão, que mora no Brasil. Para fingir que sua vida deu certo, Jacobo, que é um solteirão desleixado, convida uma de suas funcionárias, Marta, para fingir que é sua esposa. O resto é o relacionamento dessa trinca, que passa alguns dias juntos, nessa farsa montada. A atenção aos detalhes, a simplicidade da técnica da filmagem, a sutileza, desvelam diante do espectador as personalidades envolvidas. É comovente, sem nunca, em momento algum, ser piegas. E respira um bom humor invejável. Também a simplicidade é a opção de Vida de Menina, baseado nas memórias da garota Helena Morley, que viveu em Diamantina no final do século 19. Helena se achava feia, desengonçada, vivia em uma família perturbada pela obsessão do pai em enriquecer e tinha uma avó maravilhosa. Anotava o seu cotidiano em um diário que manteve por vários anos. Depois, Helena saiu de Diamantina, foi com a família para o Rio e só publicou esse diário de menina quando tinha 62 anos. O livro transformou-se em imediato sucesso e Gilberto Freyre o tinha em alta conta. Dizia tratar-se de uma "história natural brasileira" daquele período. De fato, pela prosa da menina, passa, de maneira aparentemente inocente, toda uma história da mentalidade brasileira do período imediatamente pós-escravocrata. Ela era descendente de ingleses por parte de pai e convivia com a soberba com que se tratavam os negros recém-libertados, por exemplo. Vida de Menina, da mesma forma que o longa uruguaio, é um filme de detalhes, espécime que não costuma se ambientar bem no cinema brasileiro contemporâneo. Mas nesse caso tudo funciona. A reconstituição de época parece nunca menos do que excelente e a atriz principal, Ludmila Dayer, adapta-se muito bem ao papel. É brejeira, estouvada, sincera. Tem pensamento agudo e surpreende pelo senso de humor. Enfim, uma história emocionante, mas que não chantageia o espectador, forçando-o a chorar como querem fazer alguns filmes. A emoção, quando vem, é sincera. Vida de Menina deve ganhar vários prêmios e pode vencer o festival.

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