Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Gramado rende-se à poesia em sua 41.ª edição

O tradicional evento começa nesta sexta (9) com o filme 'Flores Raras’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2013 | 19h46

Gramado estende nesta sexta (9) o tapete vermelho e inicia a 41.ª edição do seu festival, que já foi somente do cinema brasileiro e depois virou latino e brasileiro, num momento em que os desmandos do ex-presidente Fernando Collor de Mello estancaram a produção e o evento ameaçou encerrar-se por falta de filmes. Desde então, e nos últimos (quase) 20 anos, Gramado viveu uma série de crises. Houve a do ‘tapete vermelho’, que, em si, não é um problema, mas Gramado colocava mais ênfase nos convidados globais, que atraíam público – e a cidade, afinal, é turística –, do que nos filmes concorrentes. Houve uma tentativa de privilegiar o cinema autoral, mas durou pouco. No ano passado, com a curadoria de Rubens Ewald Filho e Marcos Santuario, iniciou-se uma nova fase, em que se busca o equilíbrio – qualidade + glamour.

Luzes, câmera, ação e o Cine Embaixador, chamado de ‘palácio do festival’, acolhe hoje o diretor Bruno Barreto, que mostra fora de concurso Flores Raras, seu longa sobre a relação entre a poeta Elizabeth Bishop e a paisagista Lota de Macedo Soares. Bruno já mostrou vários de seus filmes na serra gaúcha (A Estrela Sobe, Dona Flor e Seus Dois Maridos etc.) e volta com uma produção cuidada, mas não empolgante, apesar do empenho das atrizes que fazem as protagonistas. A australiana Miranda Otto esteve esta semana em São Paulo e no Rio para promover o filme, mas sua agenda não lhe permitiu descer ao Rio Grande. Representam Flores Raras em Gramado e o diretor e Glória Pires, que faz Lota e recebe o Prêmio Oscarito por sua contribuição ao audiovisual no País.

Existem novidades dignas de nota em Gramado 2013. O festival convidou representantes da imprensa internacional – jornalistas de Portugal, da França, Itália e Inglaterra – para dar projeção global ao evento. E, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, Ewald Filho e Santuario vão fazer o que curador nenhum fez. Vão mostrar uma seleção dos filmes que deixaram fora da disputa gramadense, o que é sempre um risco. E se o público e a crítica acharem que havia coisas melhores entre os títulos que eles não julgaram dignos de concorrer aos Kikitos?

Ao anunciar a novidade para o repórter, Ewald Filho defendeu a iniciativa dizendo que é uma forma de dar visibilidade aos demais filmes e, sim, – também – de dizer que havia outros bons filmes, e que, como toda seleção, a dele e de Santuario é um recorte. Traduz um olhar. Outros seriam possíveis e, sobre esse olhar, os jurados também vão imprimir o deles. De cara, pode-se levantar uma questão – três dos oito concorrentes brasileiros já estiveram no Festival do Rio, em setembro do ano passado, há quase 12 meses. O regulamento exige ineditismo somente no Rio Grande do Sul e, portanto, os filmes estão perfeitamente habilitados, mas sempre fica um sabor de coisa requentada.

Os três filmes são – Éden, de Bruno Safadi; Primeiro dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira; e A Coleção Invisível, de Bernard Attal. A relação completa dos concorrentes encontra-se abaixo. Como o longa de Bruno Barreto, o de Hilton Lacerda – Tatuagem – trata de homossexualismo, no caso masculino (e tem cenas mais fortes). Betse de Paula, diretora de Vendo ou Alugo, que estreia hoje nos cinemas de todo o Brasil, assina o documentário que passa no encerramento (e Revelando Sebastião Salgado também vai inaugurar Brasília, atestando o bom momento da cineasta).

Ao repórter, Betse contou que teve R$ 300 mil da RioFilme, da Secretaria de Cultura do Estado do Rio e do Canal Brasil para fazer o filme, e o fez sem exceder um centavo. Não é um filme para cinemas – exceto festivais. A diretora, que não tem papas na língua, pode até se indispor com as empresas que puseram dinheiro em Vendo ou Alugo, mas admite que gostou de oferecer ao público um cartaz sem logo nenhum de patrocinador. Os seis longas que concorrem na mostra latina também estão listados abaixo. Em ambas as seleções, existem documentários e ficções. O festival vai até o sábado, 17. A edição deste ano presta várias homenagens – Othon Bastos vai receber o Kikito de Cristal, outorgado a uma grande personalidade do cinema latino; Wagner Moura e Lima Barreto receberão o Troféu Cidade de Gramado: e o tradicional Troféu Eduardo Abelin, com o nome do pioneiro gaúcho, irá para o Canal Brasil, guerreiro na defesa da produção audiovisual nacional. Os curtas concorrentes você encontra no site do festival, bem como as atividades paralelas – www.festivaldegramado.net.

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