Gramado já começa apontado ganhadores

O 28º. Festival de Gramado teve início na noite de ontem, e nas primeiras sessões já demonstrou ter gente muito bem indicada para receber os kikitos. Pela a abertura, a previsão fica para que Daisy Granados receba o prêmio de Melhor Atriz pela sua formidável atuação no longa cubano Las Profecias de Amanda, de Pastor Vega.O Palácio dos Festivais abriu suas portas - decoradas com uma enorme foto do homenageado Paulo José - pontualmente às 19h30 para receber os convidados e público da primeira noite. Ficou um pouco piegas a arquibancada que montaram na entrada do palácio para que fãs pudessem aplaudir seus ídolos na entrada do cinema (qualquer pessoa magra com mais de 1,80 de altura corria o risco de ser ovacionada por mais desconhecida que fosse), bem como a trilha sonora techno que reservaram para acompanhar o anúncio dos concorrentes na mostra, fator destoante que causava um leve mal estar. Fora isso, a casa esteve cheia, e com muitas presenças ilustres. Estavam lá Otávio Augusto (que atua no curta BMW Vermelho), Selton Melo, Otto Guerra (que dirige Cavaleiro Jorge), Roberto Bontempo (que atua no curta Disparo), Hugo Carvana, Betty Faria (que está no júri de longas, personalidade mais requisitada da noite), Victor Nieto (diretor do Festival de Cartagena), Mirta Ibarra e toda delegação cubana (encabeçada pelo diretor de Las Profecias de Amanda Pastor Vega), e o homenageado Paulo José.Curtas ? Com exceção de Conceição, curta de Heitor Dhalia e Renato Ciasca, os outros curtas brasileiros geraram uma certa repulsa na platéia da noite de abertura. Em BMW Vermelho a estranheza ficou pela sua inverosimilhança e mesmo pela atitude ? sempre pretensiosa ? de querer-se simular um ambiente de favela com atores ?globais?, o que sempre vira uma falácia. Por mais que o roteiro seja bastante peculiar, tratando da história de uma família que mora num barraco cujo integrante algum sabe dirigir e ganha uma BMW num concurso, os atores ficaram caricatos demais, além da trilha de Thelonious Monk ter muito pouco a ver com o aspecto suburbano do filme. E Almas em Chamas assustou um pouco a séria platéia, que é bem diferente do público alegre do Anima Mundi, onde esta animação de Arnaldo Galvão também concorreu. Como o desenho é um tanto pornográfico, não foi do agrado geral sua exibição. No entanto Conceição, que conta a história de duas prostitutas que pressionam seus amantes a roubarem vestidos de noiva para elas em Recife, saiu-se bem e deixou duas características muito fortes. Primeiro, a boa direção de Heitor Dhalia e Renato Ciasca, que conduzem muito bem o espector à atmosfera pernambucana que busca o curta-metragem, pipocada por figuras cativas do meio recifense como Genival Lacerda, Wilson Freire, Neguinho do Coco, a banda Devotos do Ódio e jogadores do time de futebol Ibis ? considerado o pior time do mundo. ?Muita gente divulgou que o filme é paulista por causa da equipe técnica, mas sempre lembro que não: quisermos fazer um filme essencialmente pernambucano?, explica. Depois, a belíssima fotografia de José Roberto Eliezer, conseguindo planos e takes fantásticos, desde inferninhos, passando pela paisagem urbana de Recife até mostrar o cotidiano de dentro de um táxi.Longas ? Na categoria longas-metragens os filmes Las Profecias de Amanda e El Pianista agitaram bastante a platéia do Palácio dos Festivais. Las Profecias de Amanda conta uma história baseada em fatos reais, sobre toda a vida de uma mística que pode ver passado e o futuro. A personagem principal, Amanda, vive perdida entre o seu dom de profetiza, sua ignorância acadêmica (pois foi tirada da escola pelos pais aos primeiros anos de vida), sua frustração por não ser artista, além de viver consternada pelos amores de sua vida - de seu filho até o marido ? pelos quais sofre constantemente por sempre saber como e quando morrem.O filme conta diversas passagens da história de Amanda, o que não torna necessariamente o roteiro essencialmente original. A inteligência da história está entre colocar de maneira explícita o conflito entre religiosidade e comunismo no qual as personagens constantemente se deslocam. Mas o que mais assusta no filme é a atuação da esposa do diretor Pastor Vega, Daisy Granados, que assume com muito sentimento o papel da fase madura da vidente Amanda. Por trabalhar entre a família (além do diretor ser seu marido seus dois filhos também atuam no filme), Daysi admitiu ter sido mais fácil carregar nesses sentimentos. ?Mas, independente disso, sempre procuro me aprofundar muito nas minhas personagens, com muita força, muita energia e emoção?, explica. Aplaudida inúmeras vezes mesmo durante a sessão, Daisy não escondeu a emoção: ?ainda mais com tantas personalidades da cultura e do cinema brasileiro e estrangeiro presentes, fiquei muito feliz de estar em Gramado e ser tão prestigiada?.Aliás, a atriz Laura Ramos, que interpreta Amanda quando jovem, foi uma das maiores sensações entre fotógrafos e cinegrafistas no lugar, tamanha sua beleza. No filme também é encantadora, e tem uma atuação muito marcante e incisiva, que talvez só apareça menos que Daisy por que seu tempo de participação é justamente menor. ?Fiz um mês de aula de flamenco para poder interpretar Amanda?, confessa, comentando o show de dublagem que a personagem representa de Pena, Penita, Pena, de Lola Flores. Muito desenvolta, Laura disse adorar estar no Brasil, local onde já esteve outras vezes por ter alguns familiares em Fortaleza.O longa El Pianista, de Mario Gras, cativa pela trilha sonora e pela interessantíssima construção narrativa que tece. A história conta os encontros e desencontros de dois pianistas, amigos de juventude, que escolhem caminhos diferentes ideologicamente e se perdem entre a Guerra Civil Espanhola e a 2ª Guerra Mundial. Recheada de obras de compositores excepcionais e raros como Satín e Balinski, a trilha exerce um papel peculiar, como se fosse uma terceira personagem, que se apresenta e se revela nos momentos mais íntimos dos dois amigos, transparecendo de um para o outro como a deixa final dessa amizade. Contada de trás para frente e com uma retomada da atualidade narrativa no final, a narração nos leva de 1986 à 1946, e depois à 36, dismistificando em cada uma dessas etapas o caráter de cada um de seus personagens e os tornando mais ou menos cúmplices de suas idéias e de suas culturas. Destaque também para a fotografia de Tomás Pladevall, que deu uma luminosidade especial e conseguiu captar particularidades de Barcelona que, além de terem se encaixado perfeitamente ao retrato de época que se buscou, deixaram uma belíssima poesia a ser meticulosamente observada.Mario Gras, que tem uma longa carreira como ator e apresenta para Gramado o seu primeiro longa, não esteve presente no festival. Quem representou o filme na noite de ontem foi sua produtora executiva, Isona Passola. ?Este filme, assim como o festival, é também uma sincera celebração à latinidade. Nele se falam três línguas essencialmente latinas e por isso compreensivas entre si: catalão, castelhano e francês. O cinema latino merece esta festa e estou muito contente por participar dela?, disse.

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