Gramado inicia hoje a festa dos 30 anos

Luz, câmera... parabéns. O Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, que começa hoje, comemora sua edição de número 30. Tudo começou em 1973, quando o festival era só brasileiro e terminou com a consagração de Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, que ganhou os Kikitos de melhor filme, direção e atriz (o furacão Darlene Glória, arrasadora como Geni).Gramado permaneceu um festival do cinema brasileiro por 20 anos, mas jogou a toalha quando o Governo Collor, com sua política de terra arrasada para a cultura, praticamente reduziu a zero a produção, no começo dos anos 1990.Para sobreviver, Gramado virou um festival latino e agora tentar conciliar as duas vertentes. É um festival de cinema brasileiro e latino.Muitas festas e homenagens estão sendo preparadas para comemorar estes 30 anos. Na verdade, elas já fazem parte do festival, que cultiva sua tradição de mundanidade até porque Gramado é, essencialmente, uma cidade turística.Com uma rede hoteleira impecável, restaurantes que servem bons vinhos e excelentes fondues, a capital das hortênsias do Rio Grande do Sul oferece todo tipo de produtos para compras, de chocolates a artigos de couro e lã. É difícil ir a Gramado a voltar de mãos vazias. Alguns voltam com Kikitos. O prêmio é um dos mais importantes do País.A crítica, e ela é procedente, é que Gramado pode ser um festival de cinema, mas funciona muito mais como vitrine para o exibicionismo de globais. O mais obscuro galã de Malhação é recebido com pompas de astro em Gramado. É um festival de cinema ou de TV? As duas coisas às vezes se misturam, porque o cinema brasileiro "industrializado", esse que é feito de olho no mercado e no público, em geral depende da popularidade de atores e atrizes de televisão. O elenco de A Paixão de Jacobina, o filme que Fábio Barreto adaptou do romance de Luiz Antônio Assis Brasil, é quase todo formado por globais. Letícia Spiller e Thiago Lacerda, com certeza, darão as cartas em Gramado, onde o filme terá sua estréia nacional, passando fora de concurso.A estréia de A Paixão de Jacobina não é só uma jogada de marketing para lançar holofotes sobre o festival. Assis Brasil é um grande escritor gaúcho e o próprio episódio focalizado no filme, a Guerra dos Muckers, é chamado de "Canudos do Sul". Tem tudo a ver, portanto. A novidade de Gramado-2002 é que, para assinalar seu 30.º aniversário, o festival vai promover uma competição tripla de longas. Ou seja, serão três competições, cada uma com seu júri: longas brasileiros de ficção, longas brasileiros documentários e longas latinos. A essas diferentes competições somam-se outras: curtas em 35 mm, curtas em 16 mm e médias em 16 mm. Esta última, a rigor, não é uma competição, porque há um só filme selecionado (Confira os filmes selecionados).São cinco ficções nacionais, cinco documentários e quatro ficções latinas. As ficções, brasileiras e ibero-americanas, são todas inéditas. Não representa pouco: os festivais brasileiros estão ficando cada vez mais repetitivos. Gramado evita isso apresentando uma seleção de inéditos. Sem favoritismos prévios, cabe destacar que os concorrentes nacionais de ficção são todos atraentes: Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, expõe na tela a chaga social brasileira. É um filme sobre a favela e as formas de organização que nela existem. Separações leva de volta a Gramado o diretor de um filme já premiado com o Kikito: Domingos de Oliveira, de Amores. E existem os outros concorrentes: Durval Discos, de Anna Muylaert; Querido Estranho, de Ricardo Pinto e Silva; e Dois Perdidos numa Noite Suja, que José Joffily adaptou da peça de Plínio Marcos, transformando a dupla de protagonistas em brasileiros que vivem como sem-teto em Nova York.Dos cinco documentários - e é importante destacar que existe uma competição especial para eles, reconhecendo a dimensão alcançada pelo gênero -, só um é completamente inédito: Edifício Master, de Eduardo Coutinho. Os demais já foram exibidos (e até premiados) em diferentes festivais, alguns até já estrearam nos cinemas: Nem Gravata nem Honra, de Marcelo Masagão, A Cobra Fumou, de Vinicius Reis, Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, sobre o criador de Limite, Mário Peixoto, e Poeta de Sete Faces, de Paulo Thiago, sobre Carlos Drummond de Andrade.Há duas grandes atrações na competição latina: El Hijo de la Novia, do argentino Juan Campanella, que foi indicado para o Oscar, e La Perdición de los Hombres, a nova experiência em digital do mexicano Arturo Ripstein. No capítulo homenagens, Gramado 2002 premia Roberto Farias com o troféu Eduardo Abelim e Marieta Severo com o Oscarito. E o festival ainda festeja seus 30 anos lançando um livro comemorativo, organizado por David Quintans. O festival termina no sábado, dia 17.

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