Gramado ganha cara de Festival

Tomou jeito de festival. Uma homenagem emocionante e um filme capaz de prender a atenção da platéia esquentaram de vez o Palácio dos Festivais na segunda noite da mostra competitiva do Festival de Cinema de Gramado. O homenageado foi o ator Paulo José, que recebeu este ano o tradicional Troféu Oscarito, destinado a personalidades que contribuíram para a história do cinema nacional. O filme atende pelo nome de Pantaleão e as Visitadoras, engraçada e sensível adaptação do romance homônimo de MarioVargas Llosa, assinada por seu conterrâneo, o cineasta Francisco Lombardi.Ao receber o Troféu Oscarito, Paulo José justificou sua fama de ator avesso aos clichês. Claro, agradeceu ao festival pela lembrança, emocionou-se com a presença de amigos no palco, etc. Mas, na hora de falar para a platéia foi absolutamente singular. Disse que tivera um ano inteiro para preparar um discurso, mas que todos que ensaiara lhe pareceram falsos. Deixaria que a emoção falasse por si. Lembrou que o prêmio era extensivo a todos os que haviam trabalhado com ele, porque cinema é arte coletiva, embora nem sempre o ego dos protagonistas reconheça essa realidade. Falou do cinema nacional e disse que a sua grande força estava em sua originalidade. "Nós fazemos o melhor cinema brasileiro do mundo", disse. Ou seja, o que há de melhor no cinema feito no País é sua marca registrada, sua identidade, seu registro de origem. O ator trabalhou em filmes como O Padre e a Moça, Todas as Mulheres do Mundo, Edu Coração de Ouro, O Homem Nu, Macunaíma, Faca de Dois Gumes, Policarpo Quaresma, etc. Um total de 27 filmes, abrangendo várias etapas da produção nacional. Todos eles partindo de pressupostos honestos, sérios, embora possam ter chegado a resultados muito diferentes", diz. O que importa é que foram trabalhos que expressaram um determinado momento da cultura do País. "Se alguém quiser saber como foram os anos 60, basta assistir aos nossos filmes", diz. Para ele, o cinema tem essa dupla função: filmes são reflexo de um tempo e refletem sobre esse tempo. "Uma dupla reflexão", constata. Por isso, conforme andou dizendo em entrevistas concedidas o longo do dia em Gramado, a melhor virtude do cinema brasileiro é, simplesmente, ser brasileiro. Afirmação de uma identidade cultural, essa falsa tautologia aponta para uma crítica à internacionalização forçada de parte do cinema nacional. "Se passarmos a fazer filmes falados em inglês e destinados de antemão a uma platéia estrangeira, estaremos perdendo nossa melhor característica", diz. Paulo José dá um exemplo. O diretor Walter Salles começou a fazer cinema com A Grande Arte, filme voltado para o mercado externo e que não deu certo. Depois, reorientou o rumo de sua carreira e co-dirigiu (com Daniela Thomas) o excelente Terra Estrangeira. Até chegar a Central do Brasil, o maior sucesso internacional do cinema brasileiro em muitos anos e filme de temática 100 % nacional. "O Walter fez uma autocrítica na prática", diz Paulo José, brincando com a linguagem dos militantes políticos dos anos 60. Antimilitarismo - Pantaleão e as Visitadoras faz a síntese perfeita entre uma mensagem de fundo antimilitarista e a tradição picaresca herdada dos espanhóis. A história, inventada por Vargas Llosa, é a seguinte: um capitão de vida e carreira exemplares, Pantaleão Pantoja, é encarregado pelo exército de organizar um serviço de "visitadoras"-prostitutas que devem aplacar a fúria sexual de soldados que servem em postos avançados na fronteira amazônica e assim impedir que cometam violência contra as mulheres da região. O homem é um grande organizador e transforma o serviço de visitadoras no mais eficiente do exército. Tudo é matematicamente planejado e Pantaleão será vítima do seu próprio sucesso. A graça do filme está na exploração do paradoxo constante de uma rígida prática administrativa aplicada àquilo que em tese mais resiste à sistematização - a sexualidade humana. O auge da gozação acontece quando uma das visitadoras, morta em ação, é enterrada com honras militares, porque caída no cumprimento do dever. A crítica não poderia ser mais corrosiva, principalmente na época em que foi escrita por Llosa, no apogeu dos regimes militares latino-americanos. Esta é a segunda versão de Pantaleão e as Visitadoras para o cinema. A primeira foi feita nos anos 70, e pouco divulgada - por motivos óbvios e de força maior.

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