Gramado discute as identidades do cinema latino

? O que o senhor mais espera do Festival? ? pergunto ao diretor Pastor Vega, do longa Las Profecias de Amanda, longa que abre o 28º. Festival de Gramado, hoje às 19h30. "A Glória!", brinca ele, dando a resposta que menos se espera ouvir. Logo concerta: "Quero conhecer o público brasileiro, saber o que pensa, já que tem tanto em comum com o cubano", explica. Para Vega, o melhor aspecto do festival será discutir o impacto esotérico de seu filme sobre os brasileiros. "Cubanos e brasileiros são bastante religiosos e todos sabem disso, está na umbanda, no catolicismo, no candomblé. Mas pouco se sabe sobre o esoterismo desse povo que é também muito forte. O filme quer transmitir isso não por uma análise, mas pelo jeito que sentimos isto"."Acho que é importante por que o filme coloca em discussão a fixação das pessoas por uma religiosidade em tempos de crise política, fator comum a toda a América Latina", diz o filho de Vega, Hiram Vega Granados, no filme, o jornalista que conhece a personagem principal, Amanda, e quer fazer uma reportagem sobre ela, que tem o poder de enxergar o passado e futuro. "Só que ele esbarra no preconceito e na censura na hora de contar sua história", adianta Hiram.Apesar da obra de Vega não ser uma referência primordial para o cinema latino, Las Profecias de Amanda pode surpreender. O filme, de 90 minutos, foi rodado em 1999 e conta uma história mágica e surreal. Os ingredientes esotéricos, como Vega afirmou, encontram ainda um grande respaldo na experiência do diretor, que fez de As Profecias? seu 10º longa-metragem. Conhecedor da cultura brasileira, Vega afirma que os acontecimentos culturais aqui são uma influência para a América Latina inteira. Sem economizar citações: "no que diz respeito à cinema, o Cinema Novo brasileiro, com Nelson Pereira, Glauber Rocha, irmãos Barretos, Paulo Scaraceni e muitos outros, foi fundamental para estabelecer uma nova linguagem, que tratasse a alegria latina sem caracterizá-la como superficial". E vai além: "o mesmo com a música, com Chico Buarque e Caetano Veloso, com a literatura de Jorge Amado e Guimarães Rosa, e até mesmo com o futebol de Garrincha e Pelé". Depois ele exagera, querendo citar Bebeto e Romario, enfim? Vega diz que, assim como o cinema brasileiro fez nos últimos anos, o cinema cubano está novamente se erguendo, depois de anos de dificuldades econômicas. "Os diretores do país também se dizem cansados e velhos, mas isso não é desculpa para não fazer bom filmes", diz. Sobre a última maior referência cubana em cartaz, o filme Buena Vista Social Club, documentário de Win Wenders, Vega discorda que seja uma influência para esse ressurgimento. "É um filme de um alemão, tem as características de lá, não as cubanas. Ao contrário, acho que nosso país que influenciou muito bem o filme de Wenders para que desse certo".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.