Governo vai garantir filmes brasileiros nas salas e na TV, diz Gil

?Canta! Canta!?, pedia o público, em coro, ao ministro Gilberto Gil, da Cultura. Foi no encerramento do 31.º Festival de Gramado ? Cinema Brasileiro e Latino, ontem à noite. O ministro participou da cerimônia de entrega dos prêmios. Fez um importante discurso que durou meia-hora, no qual definiu as prioridades do governo Luiz Inácio Lula da Silva para o audiovisual. A festa de premiação foi marcada por muitas surpresas. O júri gramadense acertou no conceito geral e errou feio em várias categorias. Gramado, em 2003, deixou de ser um Festival do Cinema Brasileiro e virou um festival de filmes afro-brasileiros. Filmes como o longa "De Passagem", de Ricardo Elias, e o curta Carolina, de Jeferson De, discutem a cultura da periferia e a situação do afro-descendente na sociedade brasileira. Essa tendência do festival reforçada com o troféu Oscarito para o ator Milton Gonçalves e o o troféu Eduardo Abelim para o diretor Carlos Diegues. Gonçalves não é só um ator extraordinário. Também, é um guerreiro ? ele próprio se definiu assim ? na defesa da sua gente. Mas ele não denuncia a exclusão social só a partir do negro marginalizado. Acha que o pardo e o branco pobre compartilham a mesma penúria na sociedade de desigualdades instalada no País. Cacá Diegues tem feito filmes que discutem a presença do negro na arte e na história brasileiras. O mais destacado deles é Xica da Silva, com Zezé Motta no papel da escrava alforriada que reinou no Tijuco, em pleno ciclo do ouro. Zezé, a Xica de Cacá, é justamente a atriz que faz Carolina de Jesus, a favelada que virou escritora nos anos 1950, no curta de Jeferson De. No Brasil quer se acostimou, no cinema e na TV, a ver o negro de arma na mão, Carolina traz uma novidade. A arma da protagonista é um lápis e o que o curta de Jéferson De propõe é a necessidade de educação para todos, como porta para a democratização plena da sociedade brasileira. A deslumbrante Maria Fernanda Cândido deixou de ser uma estrela de TV e virou uma estrela de cinema em "Dom". O filme de Moacyr Góes, livremente adaptado de Dom Casmurro, de Machado de Assis, deu à bela Fernanda o Kikito de melhor atriz. Mais discutível, o Kikito de melhor ator foi para Marcelo Serrado, por "Noite de São João", de Sérgio Silva. O júri talvez tenha acertado ao evitar a concentração de prêmios no filme do estreante Ricardo Elias, pois De Passagem, embora importante, está mesmo longe de ser perfeito. Mas errou no critério distributivista, ao dar ao filme gaúcho quatro prêmios que ele, a rigor, não merecia. Não houve surpresa na vitória de 2.ª Feira ao Sol como melhor longa latino. A produção espanhola ganhou também o prêmio da crítica e os Kikitos de melhor diretor (Fernando Leon Aranoa) e ator (Javier Bardem). A melhor atriz foi Mercedes Sampietro, do filme argentino (maravilhoso) "Lugares Comunes", de Adolfo Aristarain. O melhor longa latino para o público foi o uruguaio "Corazón de Fuego", de Diego Arsuega, simpático, mas um tanto apelatiovo na sua misturas hollywoodiana de humor e drama parfa combater justamente a hegemonia de Hollywood (e dos EUA). Todos esses filmes têm distribuição garantida no Brasil. A Pandorfa promete para setembro "2.ª Feira ao Sol", a Europa vai lançar "Lugares Comunes" e a "Buena Vista", "Corazón de Fuego". O melhor filme brasileiro para o público foi "Apolônio Brasil ? Campeão da Alegria", de Hugo Carvana. De volta à fala do ministro Gil, ele fez uma radiografia dos problemas do audiovisual num mercado formatado para o cinema americano. Não entrou em detalhes, mas anunciou duas grandes linhas que vão determinar a atuação do governo Lula no setor: a TV tem de participar da produção e o Estado dispõe-se até a intervir no mercado, se necessário, para garantir a presença da produção brasileira nas salas e televisões do País. Gil não anunciou como isto será feito, mas sua fala repercutiu e agora a classe quer saber como o governo pretende passar do discurso à prática.

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