"Gosford Park" dá vez a Altman na festa do Oscar

O começo de Assassinato emGosford Park é exemplar. Chove e a venerável Lady Trenthamobriga sua criada a uma série de ações gratuitas debaixo domaior aguaceiro. A pobre mulher está molhada até os ossos, alady não se preocupa, afinal, é uma criada. Mas quando a aiaabre a porta do carro para servi-la, Lady Trentham a acusa deestar querendo matá-la de frio, só porque lá dentro entrou umventinho. A lady é interpretada por Maggie Smith, uma verdadeiradama do cinema e do teatro ingleses. Essa é uma das váriasindicações que Gosford Park ganhou para o Oscar deste ano.Maggie Smith, que já ganhou o Oscar principal (por A Primaverade Uma Solteirona) e o de coadjuvante (por CalifórniaSuite), concorre de novo na segunda categoria. GosfordPark concorre a melhor filme e Robert Altman a melhordiretor.Há críticos apostando que a academia, finalmente, vaifazer justiça a Altman. Uma alternativa seria dar a MoulinRouge o Oscar de melhor filme e o de direção para Altman,aproveitando o fato de que Baz Luhrmann, que assina o primeiro,não concorre na categoria. Conjeturas à parte - e haverá muitotempo, até o dia 24, para formular teses -, seria um bom momentopara premiar um dos diretores reconhecidamente mais importantesdo cinema norte-americano, não necessariamente de Hollywood,porque Altman atua numa faixa mais independente, um pouco àmargem dos grandes estúdios. Só para citar honrarias recentes:em janeiro ele recebeu o Globo de Ouro de direção (por GosfordPark) e em fevereiro recebeu o Urso de Ouro de carreira noFestival de Berlim, onde o filme que agora estréia foi saudadocomo um regalo do diretor.É um filme muito bem escrito e interpretado, que destilauma ironia muito fina e sutil, mas não é o grande filme quecertos entusiasmos mais viscerais talvez autorizassem esperar.Na luta de classes de Gosford Park, Altman não toma partidoe distribui suas farpas para todos os lados. Os aristocratas sãotodos umas pestes - e boa parte deles está arruinada na época emque se passa a ação, o início dos anos 30. A criadagem pode serconstantemente humilhada, o que predisporia o espectador àsimpatia, mas não é muito melhor. E há até uma categoria queprovoca desprezo de ambas as partes - por ficar no meio, semdefinir-se por uma nem outra. É bom não esclarecer do que setrata para não tirar a graça da revelação.Só falta dizer que, se Altman invade com sua câmeraindiscreta o teatro em que se desenrola a (ultimamente emdescrédito) luta de classes, o cinema, inversamente, tambéminvade os domínios de Gosford Park. Há um grupo de atores eprodutores de Hollywood e o mais curioso é que o produtor vivependurado ao telefone, falando com a Califórnia sobre o roteirodo novo filme que pretende rodar - sobre um assassinato numacasa de campo inglesa, durante uma caçada. É tudo um jogo, desutilezas e aparências. Um Altman requintado e que fascina comseu elenco que reúne a nata da arte da representação naInglaterra. São grandes atores e atrizes. Representam noregistro da afetação. Maggie Smith é insuperável, mas HelenMirren, como a governanta, é igualmente impecável. Se o cineastadistribui pinceladas por todo elenco, Helen é a única que seaproxima de uma real densidade com sua personagem. O filme, porconta dessa diluição, não é o melhor Altman - Nashville, dosanos 70, continua sendo a obra-prima do autor -, mas possuiqualidades superiores à média, mesmo do diretor, com suasqualidades de humor e inteligência. Vai ser um pecado seGosford Park não ganhar nada no dia 24.Assassinato em Gosford Park (Gosford Park). Comédia desuspense. Direção de Robert Altman. Ing-EUA-Ale/2001. Duração:137 minutos. 14 anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.