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Filme 'O Gorila' traz atuações impecáveis de Octávio Muller e Alessandra Negrini

Longa foi premiado no Festival do Rio de 2012

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 03h00

Octávio Muller e Alessandra Negrini foram melhores no Festival do Rio de 2012 por O Gorila. Ele venceu como melhor ator, ela foi melhor coadjuvante, ambos no filme que José Eduardo Belmonte adaptou da história de mesmo nome, no livro O Voo da Madrugada, de Sérgio Sant’Anna. Só para lembrar, o grande vencedor do Rio, naquele ano, foi O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Passados quase três anos, somente agora O Gorila está estreando nos cinemas. No intervalo, Belmonte fez (e estreou) Billi Pig, também com Octávio Muller em papel de destaque, e Alemão, policial com Cauã Reymond e grande elenco. E o diretor conclui um terceiro filme, Tudo Bem Quando Acaba Bem, road movie com Ingrid Guimarães e Alice Braga. Quem viu, e o filme ainda não está 100% finalizado, garante que é o melhor Belmonte.

O brasiliense Belmonte, na faixa dos 40 anos, é um dos diretores mais interessantes de sua geração. É autor de uma obra consolidada e que gosta de arriscar a cada trabalho. Belmonte reinventa gêneros e é atraído por personagens em busca de uma/ou em crise de identidade. O tema volta em O Gorila. Muller faz um ex-dublador, aposentado precocemente. E o que ele faz. Usando as diferentes modulações de sua voz, preenche o tempo aplicando trotes em mulheres. O golpe do sedutor acaba quando ele próprio começa a receber ligações misteriosas. O ‘gorila’, que é como se identifica, recorre a uma de suas ‘vítimas’, Alessandra, e faz uma descoberta inesperada, senão totalmente surpreendente.

A Concepção, Meu Mundo em Perigo, Se Nada Mais Der Certo e os citados Billi Pig e Alemão, mais O Gorila e Tudo Bem. Sete longas em dez anos dão a medida da produtividade de Belmonte. Drama, comédia, policial. Com o novo filme, ele assina um thriller consistente, tanto do ponto de vista psicológico - no desenho do personagem - quanto no formato ‘suspense’. É o primeiro suspense do diretor, e ele se sai bem. É um diretor/autor que gosta de estabelecer parcerias, melhor dizendo, cumplicidade com seus elencos. No Rio, na apresentação de O Gorila, Belmonte destacou a importância de ter Octávio Muller. “Acho que a voz do Octávio reflete o interno dele e está muito ligada à essência do personagem. Afrânio, o ‘gorila’, é homem de personalidade e carisma, mas também consegue acessar uma sensibilidade e eu diria até que uma melancolia.”

Embora Mariana Ximenes, bela e talentosa, seja a protagonista feminina, Alessandra rouba a cena, e tanto isso é verdade que foi premiada no Rio. Alessandra, que tem Nelson Rodrigues no currículo na TV (a minissérie Engraçadinha - Seus Amores e Seus Pecados) e já atuou em filmes de Julio Bressane (Cleópatra e A Erva do Rato) e Karin Aïnouz (O Abismo Prateado), carregou durante muito tempo os rótulos de ‘ninfeta’ e ‘mulher fatal’. Sem papas na língua, ela diz que “não tem saco” para esses rótulos e que eles são ‘invenções dos outros”. Belmonte só tem elogios para ela. “A Alessandra é uma atriz de rara inteligência e que chega rapidamente ao entendimento do texto. Sem desmerecer ninguém, ela está sempre uns cinco passos à frente.” No debate do filme, no Rio, o diretor explicou a origem ‘atípica’ do projeto.

“Mais de uma vez, bati na porta do produtor Rodrigo Teixeira com ideias de filmes que queria fazer. Rodrigo não topava, mas com O Gorila ocorreu o inverso. Ele propôs a adaptação do Sérgio (Sant’Anna). A encomenda terminou virando um filme pessoal porque o Afrânio, como outros personagens meus, é alguém que busca romper o isolamento em que vive.” O interessante é que, ao ler o texto de Sant’Anna - uma das 16 histórias que compõem O Voo da Madrugada, todas, como diz o site da editora (Companhia das Letras) ‘encobertas pelo manto da noite’ -, Belmonte visualizou um protagonista mais velho.

“Foi Rodrigo (o produtor) que insistiu no Octávio. Deu supercerto. É um ator excepcional e creio que lhe fazemos justiça, porque nunca tinha feito um protagonista.” O filme não faz justiça somente ao ator. Faz também ao autor do conto, captando o solitário desespero que estimula a fantasia erótica do gorila, que vive oferecendo ‘seu peito cabeludo’ às belas mulheres que integram a trama.

 

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