Godard ganha perfil na "The New Yorker"

Excelente e divertido perfil de Jean-Luc Godard na nova New Yorker. O autor, Richard Brody, relembra o início da carreira do cineasta francês, com o imediato sucesso de Acossado. Godard, que tinha então 29 anos, disse que esperava uma reação mais negativa para seu filme seguinte, senão perderia o ânimo para fazer cinema. Trabalha melhor sob pressão e gosta de uma boa polêmica. Quanta diferença em relação a cineastas que não vivem sem um agradinho no ego. Enfim, como lembra Brody, Godard teve o que queria: polêmica, críticas ácidas, incompreensão, isolamento. Nem por isso deixou de tornar-se uma figura pop dos anos 60, incensado por gente como Susan Sontag que comparou-o a Picasso e Schoenberg. Nenhum exagero nisso. É um dos grandes artistas do século. Direito à preguiça - Mais uma dessas discussões intermináveis do mundo moderno: o tempo de trabalho. Rebobinando a fita: com o espetacular desenvolvimento dos meios de comunicação na última década (o principal deles, a popularização da Internet), pensou-se, mais uma vez, que o homem moderno poderia trabalhar menos e melhor, empregando o tempo livre no auto-desenvolvimento, lazer, prática artística, etc. Parece piada, não é? Bom, quando começou a mecanização industrial, no final do século 19, imaginou-se a mesma coisa. Em todo caso, os franceses adotaram recentemente a semana de 35 horas e estão se dando muito bem desse jeito. São a exceção que justifica a regra no mundo ocidental, porque todo o resto do planeta parece trabalhar mais e com estresse maior. Incluindo-se aí a matriz. Segundo a revista Le Nouvel Observateur, os norte-americanos permanecem no batente 47 horas por semana, em média. A novidade é que não parecem lá muito satisfeitos com isso. Na terra da ética protestante e do espírito do capitalismo já existe muita gente aspirando ao ócio com dignidade dos velhos romanos. Depois de oito anos seguidos de uma prosperidade que parece não ter fim, os americanos começam a se fazer aquela incômoda pergunta: "E daí?" O que adianta ter o carrão do ano, casa de praia e de campo, possibilidade de viajar, dinheiro no banco, se não há tempo para usufruir de tudo isso? Os números falam por si: entre 1977 e 1997, a semana média de trabalho de um americano passou de 43 a 47 horas. E metade dos executivos trabalha mais de 50 horas por semana. Segundo a revista, os próprios americanos diagnosticam que o excesso de trabalho se deve ao acirramento da competição entre as empresas e à aceleração do ritmo de vida ligado ao progresso tecnológico. O processo parece inevitável, mas as contradições começam a aparecer. Animados por taxas de desemprego quase nulas, os trabalhadores norte-americanos passaram a fazer exigências. Algumas greves já começaram a pipocar e na Califórnia surgiu uma regulamentação tornando as horas extras extremamente caras para as empresas. No Maine, violou-se um princípio sacrossanto dos Estados Unidos, e já é facultado aos empregados recusarem trabalho em período extra. Mesmo na esfera high tech do mundo trabalhista americano certos privilégios começam a se tornar praxe, como folgas nas tardes de sexta-feiras, direito à sesta, etc. Claro, ninguém fala em diminuição de horas de trabalho, porque isso é coisa de comunista. Mas já se criou o eufemismo "work redesign", indício certo de que alguma coisa está mudando.

Agencia Estado,

25 de novembro de 2000 | 18h06

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