Godard faz de seu novo filme um tributo ao amor

A certa altura, um dos personagensde Elogio ao Amor, que estréia amanhã, aponta nadireção de Auteil e diz a outro: "Naquele lugar, em 52 a.C.,César passou com suas legiões para invadir a Lutécia." Lutéciaera o embrião de Paris, onde hoje fica a Île de la Cité, com acatedral de Notre-Dame e outros edifícios históricos. Ao longodesse novo filme de Jean-Luc Godard, a câmera passa por outrosmarcos da cidade, em especial as placas que relembram os nomesdos mortos na Resistência à ocupação nazista. Tudo, nessasimagens e nos diálogos, se refere à densidade da históriafrancesa. Por isso não é gratuito quando um dos personagenscomenta que os norte-americanos não têm história própria e entãoprecisam comprar a história alheia.Esse "antiamericanismo" de Godard se refere a umenredo oculto do filme e que ficará evidente mais para o final.Trata-se de uma história passada na época da Resistência, cujosdireitos serão vendidos por um casal idoso ao estúdio deSpielberg. Uns precisam de dinheiro, outros precisam dehistórias e assim as coisas se fazem. Quem compra garante que oroteiro ficará a cargo de William Styron e a mulher seráinterpretada pela atriz Juliette Binoche, pois ela já ganhou umOscar, o que é importante quando se pensa na bilheteria, etc.A acidez dos diálogos é sintomática. Não há, no mundo,cinema mais anti-hollywoodiano que o de Godard. Não há nele umahistória que se conta do princípio ao fim, muito menos nessaordem. O sentido é construído aos poucos e só aparece, de fato,no final. Trata-se de uma operação mental, que lança luz aoconjunto do filme somente depois que tudo acabou.Por isso Godard não hesita em dizer que o sentido dofilme se faz quando ele está sendo montado e não durante afilmagem e menos ainda quando é pensado pelo diretor na formaescrita. Esse processo de criação, de certa forma, tem de serpartilhado pelo espectador. Há alguns truques também. A primeiraparte do filme é em preto-e-branco, a segunda em cores. Ementrevista, Godard disse que qualquer cineasta que fosse filmarem dois tempos distintos faria o passado em preto-e-branco e opresente em cores. Ele simplesmente inverte essa ordem e comisso desfaz um clichê cinematográfico.Nesse presente monocromático, Godard flagra a Pariscontemporânea. Nada há de nostálgico na maneira como ele a vê.Nem de romântico. Pelo contrário, o registro é objetivo, se otermo cabe. Nele aparecem os moradores de rua, filhos da novaeconomia, deitados nos bancos ao longo do Sena ou debaixo dealguma ponte. Não são mais os clochards, os antigos mendigosparisienses, famosos por seu orgulho e ares existencialistas.Agora são os desempregados mesmo, expulsos da economia formal esem a rede de proteção da seguridade social, que mesmo lá seafrouxou. Há outras imagens impressionantes, como a da fábricaRenault, de Billancourt, nos arredores de Paris. Edifíciosabandonados e que foram no passado símbolo da força da classetrabalhadora francesa. A imagem que se tem agora é de puradesolação, porque Godard vai manejando a câmera como se filmasseas ruínas de um mundo que já passou.Esse é o entorno do filme. No seu centro, um personagemneutro como deve ser um psicanalista, vivido por Bruno Putzulu.Ele lê um livro cujas páginas estão em branco. O espectador nãosabe se as palavras ainda não foram escritas ou se são tãoantigas que terminaram apagadas pelo tempo. Bruno tem umaambição: evocar os quatro momentos e as quatro idades do amor -o encontro, a paixão física, a separação, o reencontro. Enfim,estamos em Stendhal, com seu clássico De l´Amour, masenvolto em um percurso cultural delimitado por nomes como RobertBresson, Henri Langlois, Simone Weil, Hannah Arendt, Picasso,Georges Bataille, La Boétie, Chateaubriand. E mais Perceval eEglantine, Tristão e Isolda, os casais da tragédia, da mitologiae da ópera.Nenhum desses elementos, desses "personagens", entrapor acaso na composição da polifonia godardiana. Godard evocaLanglois porque ele foi o grão-senhor da Cinemateca Francesa eportanto depositário da memória fílmica do país. Simone Weil, afilósofa-operária, é recuperada num momento em que se fala dadestruição do proletariado. Bataille é o pensador do erotismo eda transgressão. La Boétie associa-se ao Discurso da ServidãoVoluntária, um comentário sempre atual sobre a submissão aodiscurso do ocupante. Este último termo vale para a aceitaçãopassiva do cinema de Hollywood. Vale também para a época daOcupação, quando muitos franceses colaboraram com os nazistas.Godard filma o Hotel Intercontinental e, desse nome, destaca apalavra Continental - nome da empresa, dirigida por alemães, queproduzia filmes em Paris durante a guerra, entre eles o famosoLe Corbeau, de Clouzot. Essa história antiga e dolorosa,aliás, é tema do mais recente filme de Bertrand Tavernier,Laisser-Passer.A referência a Bresson é tributo a um diretor tido comomestre. E isso porque buscou, em seu cinema, a depuração total.Bresson tentava retirar da obra todo tipo de penduricalhodesnecessário. O movimento só se justifica se a imobilidade nãobasta. A palavra só entra quando o silêncio não é suficiente. Amúsica deve pedir licença. Aliás, melhor não usar música. Eassim por diante. Bresson buscou na simplicidade a essência, e oconseguiu às vezes.Assim também é Elogio ao Amor. Godard é um veterano,um mestre. Sabe que já existem filmes demais no mundo. Livrosdemais, discos em excesso, informação de sobra. Muita agitação,pouco conhecimento, nenhuma ternura. Neste momento de sua vida,na lucidez dos seus 72 anos, Godard faz o filme essencial.Consciente de que há contas a acertar com a História, tomaposição diante do presente e contempla a eternidade do amor.Serenamente, propõe uma barreira contra a barbárie. Se é queisso ainda é possível.Elogio ao Amor (Eloge de l´Amour). Drama. Direção deJean-Luc Godard. Duração: 97 min. 16 anos.

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