Festival de Cannes
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Godard é retratado como cômico e patético em cinebiografia

Cineasta tem vida filmada por Michel Hazanavicius inspirado em livro de Anne Wiazemsky, que foi mulher de Godard

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 06h00

Convidado do Festival do Rio, o diretor Michel Hazanavicius veio apresentar seu longa sobre Jean Luc Godard, O Formidável. Hazanavicius sempre foi um diretor comercial. Criou o 007 francês. Com O Artista, estabeleceu-se em outro patamar – sucesso de crítica, prêmio em Cannes, Oscar de direção. Por que Godard? “Não foi nenhum acerto de contas. Li o livro de Anne Wiazemsky e achei que seria muito interessante contar aquela história.”

Anne, atriz de Robert Bresson – A Grande Testemunha, de 1966 –, foi mulher (e estrela) de Godard. Tornou-se escritora. Morreu no começo do mês, dia 5. Era godardiana de carteirinha, mas não o poupa em O Formidável. Em pleno Maio de 68, e após realizar A Chinesa, Jean-Luc tenta se integrar ao movimento dos estudantes que agita a França. Mas, nas assembleias da Sorbonne, Godard, o revolucionário do cinema, é chamado de ‘pequeno burguês’. Correndo da polícia, perde os óculos – uma metáfora nada sutil da sua falta de visão. Para completar, revela inesperado ciúme – está mais preocupado com a possibilidade de estar sendo traído pela mulher que com os confrontos na rua.

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Hazanavicius admite que ficou tocado com o ‘patetismo’ do personagem. Godard, para ele, é meio clown. “Anne (Wiazemsky) não queria vender os direitos, mas aceitou quando lhe disse que queria fazer uma comédia. E ela gostou.” Positif adorou, até Cahiers du Cinéma (a revista rival) fez uma crítica elogiosa. O público é que não quis saber. “Encontrei algumas pessoas que me disseram pensar que se tratava de um filme de Godard, não sobre ele.” Hazanavicius não foge aos problemas de sua fase pós-comercial. The Search foi um desastre de público. O Formidável não está sendo nenhuma maravilha – as receitas talvez melhorem no exterior.

“São coisas que não posso controlar. Conto histórias que me interessam. Com O Artista foi assim. O público é que criou o fenômeno.” E Louis Garrel? O mais nouvelle vague dos atores franceses entrou de corpo aberto no projeto? “Ele conhecia Godard por meio do pai, Philippe. Tinha dúvidas, temia virar uma caricatura, mas aceitou fazer a voz e usar a peruca.” A cena de nu frontal? “A frase que Louis diz é de Godard, não ia perder a piada.” E Godard? Viu o filme? “Não sei nem me interessa.”

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