Godard chega em dose dupla no cinema

O grupo Estação, dono de respeitável acervo de filmes franceses, tem realizado uma ótima retrospectiva de Éric Rohmer em São Paulo. Agora, chega a vez de Jean-Luc Godard, o enfant terrible da nouvelle vague, o mais consistente e também o mais revolucionário daquele grupo de cineastas que renovou o cinema francês no final dos anos 50. São dois Godard de épocas distintas, separados por 25 anos. O Pequeno Soldado, de 1960, causou polêmica em sua época pelas referências a torturas que o Exército francês praticou durante a guerra na Argélia. Detetive apresenta uma temperatura bem mais amena, pelo menos do ponto de vista temático, já que se apresenta como uma espécie de neo-noir, lançado em 1985. São dois momentos estéticos diferentes, também. O Pequeno Soldado pertence à primeira fase do diretor, é contemporâneo daquela que é considerada a sua obra-prima, Acossado. Há, nesse momento, alguma coisa que poderíamos chamar de espontaneidade, não fosse o termo tão ambíguo. Mas é o Godard jovem, talentoso, febril, à procura de alguma coisa, de algum modo de expressão que ele não sabe exatamente qual seria, incorporando ao que faz tudo aquilo que formara antes como patrimônio cultural - a soma de filmes que vira, livros que lera, música que ouvira. No caso, uma falsa história de espionagem com o personagem de Michel Subor cometendo crimes e torturas para encobrir seu envolvimento político suspeito. Sua amante é vivida por Anna Karina, mulher de Godard na época. Detetive é considerado pela crítica mais conservadora com um Godard "palatável". Leia-se: compreensível. E de fato há qualquer coisa como um plot nesse novo diálogo de Godard com gêneros. Natalye Baya e seu marido, Charles Brasseur, tentam cobrar a dívida de um gângster de lutas de boxe interpretado pelo roqueiro francês Johnny Hallyday. O detetive em questão é vivido por Jean-Pierre Léaud, ator símbolo da nouvelle vague e que já desempenhara papel semelhante em Beijos Roubados, de François Truffaut.

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2004 | 14h39

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.