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‘Gloria’, belo filme de John Cassavetes, é relançado em DVD

Com sua mulher, Gena Rowlands, no papel principal, diretor põe na trama grande dose de adrenalina e humanidade

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2015 | 19h16

Gloria, vencedor do Festival de Veneza de 1980 (junto com Atlantic City, de Louis Malle), talvez seja o filme mais conhecido de John Cassavetes (1929-1989), o inovador diretor norte-americano. Bem, Cassavetes era mais ainda conhecido como ator, por exemplo como o marido da protagonista, Mia Farrow, em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. 

Acontece que Cassavetes, como ator, ganhava dinheiro para depois empregá-lo em filmes ousados e nada comerciais. No entanto, Gloria – lançado agora em DVD pela Versátil –, que tem como protagonista sua mulher, Gena Rowlands, é bastante acessível ao público, sem deixar de ser ousado e inusitado. Pelo papel, ela também foi indicada na categoria melhor atriz para o Oscar de 1981.

O filme começa com uma mulher muito assustada entrando num edifício decadente em Nova York. Há, evidentemente, um cerco ao prédio. Um contador da máfia, marido da mulher amedrontada, ao que parece deu nos dentes e denunciou seus chefes. Isso não se faz impunemente, e os criminosos cercam o apartamento para se vingar. Gloria é vizinha da família ameaçada. Pedem a ela que proteja um garotinho, que escapa à chacina levando consigo um livreto, com informações comprometedoras sobre os criminosos.

Acontece que Gloria fora amante do chefão mafioso. Agora protege um menino, perseguido por ser portador do tal livreto e também como suposto testemunho do assassinato dos seus pais. Sabe, portanto, perfeitamente com quem está lidando. O filme se transforma numa perseguição implacável pelas ruas de Nova York. E Gloria mostra que sabe se defender muito bem. E também ao menino.

O filme tem o estilo de Cassavetes na maneira fluida e ágil como maneja a câmera, na noção de ritmo e espaço. É um cineasta soberbo e, por isso, empresta à trama uma senhora dose de adrenalina. Há também o interesse humano da história, na maneira como Gloria, a princípio renitente e pouco simpática ao menino, passa a defendê-lo como leoa. É, como diz a ela um mafioso, a certa altura da história: “Toda mulher é mãe”. Uma conclusão, digamos, italiana, como a cosa nostra nova-iorquina, mas que cabe com perfeição à história e ao desenvolvimento psicológico da personagem principal.

Por outro lado, para apreciar o filme o espectador será obrigado a abrir mão da verossimilhança. Porque, se Gloria é espetacular e eficaz na ação, os mafiosos (profissionais, afinal de contas) revelam-se estranhamente ineptos. Desse modo, ela consegue escapar de cada situação para lá de inverossímil. Mas esta é apenas uma expectativa de quem trabalha na chave estrita do realismo.

E este não é dominante em Gloria. Nele, o mais importante, é a cadência psicológica da personagem nas nuances do seu relacionamento com o garoto. E, nesse particular, Gena Rowlands é particularmente feliz. Aos 50 anos, era ainda bela e atraente, mas com a beleza e o fascínio de uma mulher de meia-idade, vivida e com um passado atrás de si. Conservava, mais ainda, essa intensidade particular de grande atriz. Portanto, cada gesto e inflexão parecem ganhar todo sentido na tela. Ela é quem faz definitivamente grande este belo filme de John Cassavetes. 

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