Glenn Ford, um legado fulgurante

Nos anos 90, ele sofreu uma série de derrames que o deixaram à beira da morte. Mas Glenn Ford resistiu por mais uma década. Há anos, o ator de Gilda" e "Sementes da Violência" estava não apenas inativo, como vivia confinado. Em 1.º de maio, homenageado no Grauman?s Egyptian Theatre, de Hollywood, ele apareceu visivelmente abatido numa gravação em vídeo. Disse que estava fazendo o melhor que podia e acrescentou que gostaria de ainda andar por aí. ?Tenho muito a agradecer?, foram suas últimas palavras públicas. Na madrugada de ontem, paramédicos foram chamados para um atendimento de urgência na casa de Ford, em Beverly Hills. Quando chegaram, ele já havia morrido. Tinha 90 anos e uma filmografia fulgurante que atravessa décadas da história de Hollywood.Glenn Ford, que nasceu Gwilyn Ford em Quebec, no Canadá, em 1916, começou profissionalmente no teatro, em 1935. Seus êxitos na Broadway chamaram a atenção de Hollywood e ele foi contratado pela Fox. Fez seu primeiro filme em 1939 e até 91, quando interpretou o último, participou de 85 títulos. É o que garante sua biografia oficial. São filmes pertencentes a vários gêneros - westerns, comédias, dramas, policiais, muitos deles assinados por grandes diretores e que se tornaram marcos do cinema.Memorável cena de strip-tease de "Gilda" Em 1958, foi eleito o maior galã hollywoodiano, com atuações consagradas no teatro e na TV. O motivo foram suas atuações magistrais em clássicos como "Gilda", de 1946, "Os Amores de Carmem", de 48, "Sementes da Violência", de 55, ou alguns bons faroestes como "Cimarron" (1960), "O Pistoleiro do Rio Vermelho" (1967) e "A Pistola do Mal" (1968). A cena que o eternizou na memória dos fãs foi seu semblante de arrebatamento diante de Rita Hayworth, quando ela simula um strip-tease só tirando a luva, em "Gilda".Havia algo de especial na presença cênica de Glenn Ford. Talvez fosse o sorriso franco mas um pouco tímido, de menino, que o fragilizava. Construindo sua carreira no cinema de ação - e, eventualmente, no cinema dito psicológico -, ele não tinha a força da presença dos mocinhos lendários. Glenn Ford não era durão como John Wayne e Gary Cooper ao empunhar a pistola. Também não tinha as vacilações que tornam tão dúbios os heróis de James Stewart e Randolph Scott. Era menino, um menino crescido, adulto, mas, ainda assim, com algo de infantil. Não por acaso, seus personagens característicos são homens que lutam contra as próprias debilidades para recuperar a força que perderam (ou está ameaçada). A carreira sofreu um hiato durante a 2ª Guerra Mundial, quando Glenn Ford entrou para a Marinha. De volta a Hollywood, ele iniciou sua fase mais rica.Casou-se três vezes e teve um filhoCasou-se três vezes (com Eleanor Powell, Kathryn Hays e Cynthia Hayward). Com Eleanor teve seu único filho, Peter. E contracenou com grandes estrelas - entre elas Rita Hayworth. Entre os filmes que interpretou estão "Gilda", de Charles Vidor, de 1946, no auge do mito de Rita como mulher fatal; "Os Corruptos" e "Desejo Humano", de Fritz Lang, de 1953 e 54; "Sementes da Violência", de Richard Brooks, de 1955; "O Irresistível Forasteiro", de George Marshall, de 1958; "Cimarron", de Anthony Mann, de 1960; "Dama por Um Dia", de Frank Capra, de 1961; "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse" e "Papai Precisa Casar", de Vincente Minnelli, de 1961 e 63; "Escravas do Medo", de Blake Edwards, de 1962; e "Superman - O Filme", de Richard Donner, de 1978. Isso, claro, sem falar nos westerns que fez com Delmer Daves, o documentarista do Oeste: "Ao Despertar da Paixão", "Galante e Sanguinário" e "Como Nasce Um Bravo", entre 1956 e 58.Vários desses filmes fizeram história, mesmo que, em alguns deles, o momento que fica não seja necessariamente com Glenn Ford, como quando contracena com Rita Hayworth em "Gilda", ou quando Lee Marvin despeja o café fervendo na cara de Gloria Grahame em "Os Corruptos". Em outros é ele, sim, quem está no centro da cena - como o professor que enfrenta os alunos rebeldes de "Sementes da Violência"; como o pai viúvo que conversa com o filho (o futuro diretor Ron Howard) que quer arranjar uma noiva para ele em "Papai Precisa Casar". As escolhas erradas que fez nos anos 60, quando o cinema estava mudando, não comprometeram sua imagem. São quase sempre pessoas comuns, gente como a gente e que Ford matizava com sensibilidade, chegando a conferir-lhes uma certa poesia, uma certa tragicidade. Seu último grande papel foi em "Superman", como o granjeiro que recolhia o pequeno Kal-El, dava-lhe uma identidade (Clark Kent) e o criava naquela fazenda no interior dos EUA.

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