"Glauces" revela dois talentos

Sul-mato-grossensse, como Glauce Rocha. Ela, de Campo Grande, ele, de Dourados. Isto ajuda a explicar o fascínio de Joel Pizzini pela grande atriz que morreu em outubro de 1971, há 30 anos. Ajuda, mas não decifra o enigma. Pois o interesse de Pizzini por Glauce vai além dessa proximidade, digamos, geográfica. O diretor reconhece em Glauce, que morreu aos 41 anos, um mito da arte da representação no País.Após o seu Retratos Brasileiros, para o Canal Brasil sobre Leonardo Villar e antes de outra encomenda do canal brasileiro da Net/Sky, sobre Paulo José, Pizzini fez Glauces. O filme, co-produzido por Ueze Zahran - produtor de Mato Grosso do Sul ligado a filmes da cineasta Ana Carolina - e beneficiado com recursos do Itaú, foi premiado no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, em abril. Uma visão da vida cigana nos Bálcãs. E um retrato, em 34 minutos, de uma mulher que era única e múltipla, daí o título, Glauces, no plural. Pense nas maiores personalidades femininas do teatro brasileiro, do cinema e da TV. Glauce morreu fazendo TV (durante as gravações da novela Hospital, na Tupi), mas não teve muito tempo de marcar sua presença no veículo. No cinema e no teatro foi gloriosa. Quem viu a sua Electra, a voz flagelada, o corpo magro esmagado na túnica preta tem a dimensão do que é a tragédia grega. Houve muitos, grandes papéis para Glauce no teatro. Electra talvez nem seja o melhor, mas era nos anos 60, em plena ditadura militar, e aquela mulher que vingava o pai, voltando-se, cheia de ira, contra a própria mãe (a pátria) que deitava na cama com o usurpador do trono (os ditadores de plantão), tinha um significado extraordinário que não escapou ao público nem às autoridades.No cinema também foram vários papéis. Fez até uma Norma Sueli, interpretando, como só ela sabia fazer, a adaptação que Braz Chediak fez da peça de Plínio Marcos, Navalha na Carne. O filme não valia grande coisa, mas Glauce... Foi melhor ainda como a revolucionária Sara de Terra em Transe, o marco do cinema delirante do visionário Glauber Rocha. Nada mais natural que as trajetórias de Glauce e Glauber se cruzassem. Ela foi um fenômeno artístico e político. Lutava por aquilo em que acreditava: a arte, a generosidade, a vida. Cacilda Becker, a número um, dizia que Glauce era sua sucessora.Numa entrevista que deu ainda na fase de realização de Glauces, Pizzini definiu o conceito do filme. Queria fazer o estudo de um rosto. E dizia: Não teria sentido fazer o retrato de um mito mais falado do que visto, senão deixando esse rosto enigmático ocupar a tela inteira. O resultado é marcante. Pizzini, que já dirigiu Caramujo-Flor e decifrou ,O Enigma de um Dia, sobre a obra de De Chirico, fez um filme para semiólogo nenhum botar defeito. Ele prescinde de datas, fatos. Decifra o mito de Glauce por meio do seu rosto, montando todas as cenas que conseguiu dela no palco, na tela. Por meio das personagens, biografa a atriz. E, por meio do seu filme biográfico (mas não muito), discute a linguagem. É um belo trabalho. Honra, em Glauce, a mulher e o mito, revelando uma por trás do outro (e vice-versa). Honra o próprio Pizzini, que é, realmente, um dos mais talentosos diretores de sua geração.Ele fez outra versão de Glauces, já exibida pelo Canal Brasil. Chama-se Estudo de um Corpo e, nela, o ator Sérgio Mamberti passa as notícias e informações biográficas que suprime para ser mais ousado no seu Estudo de um Rosto. O filme que passa nesta quarta-feira na mostra foi finalizado em vídeo e kinescopado. Foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Gramado, ainda este mês. E até o fim do ano integra a seleção de outro grande evento de cinema sobre arte (e artistas) na Espanha.Serviço - Glauces: Estudo de um Rosto. Direção de Joel Pizzini. Brasil. Duração: 34 minutos. Quarta-feira, às 17h10. Cineclube Directv. Rua Augusta, 2.530, tel. 3085-7684

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