Acervo Tempo Glauber
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Glauber Rocha, como Orson Welles, era um e era múltiplos

Baiano de Vitória da Conquista, cineasta de 'Terra em Transe' completaria 80 anos nesta quinta-feira, 14 de março de 2019

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2019 | 15h01

Baiano de Vitória da Conquista, de temperamento indômito, Glauber Rocha admirava Castro Alves. Como o poeta de Espumas Flutuantes, acreditava que morreria jovem. Ultrapassou, e bastante, os 24 anos de Castro Alves. Morreu aos 42, em 22 de agosto de 1981. Se vivo fosse, estaria completando 80 anos nesta quinta, 14 de março. Nasceu em 1939. Seria uma idade perfeitamente razoável. Nelson Pereira dos Santos morreu no ano passado com 89 anos. Ruy Guerra está com 87, Cacá Diegues com 78.

Glauber pode ter vivido pouco, mas viveu intensamente. Produziu muito. Fez filmes que definiram a identidade do homem brasileiro e provocaram revoluções estéticas que reverberaram no mundo todo. Como homem político, peitou a ditadura militar e proclamou o general Golbery do Couto e Silva gênio da raça, bancando que ele seria o avalista da abertura no País. Na TV, fez história com o programa Abertura. De Glauber se poderia dizer, como de Orson Welles, que era um e era múltiplos. Como você quer lembrá-lo, no octogenário aniversário de seu nascimento?

Te entrega, Corisco/Eu não entrego não. A trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, ecoa no imaginário do cinéfilo. Corisco/Othon Bastos e Antônio das Mortes/Mauricio do Valle defrontam-se naquele duelo de sabre e, no limite, superadas as experiências alienantes do misticismo e do cangaço, Manuel e Rosa, Geraldo Del Rey e Yoná Magalhães, correm para o mar. Ela tropeça e cai, ele segue. Na trilha, de novo, Sérgio Ricardo — “O sertão vai virar mar/o mar virar sertão.”

Terra em Transe, de 1967. No mundo fictício de Eldorado, o poeta Paulo Martins/Jardel Filho, vive entre dois pólos — o populista Vieira/José Lewgoy e o autocrático, ditatorial Diaz/Paulo Autran. Sara/Glauce Rocha tenta trazê-lo para o lado da luta revolucionária. Num momento chave, o poeta cala a boca do povo. E tudo ocorre com pompa e circunstância em montagens operísticas e carnavalescas, no cenário majestoso do Parque Lage ou frente ao mar.

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1969. Volta Antônio das Mortes/Mauricio do Vale, agora em Jardim das Piranhas. No western ideológico de Glauber, o matador de cangaceiros enfrenta Coirana, protegido de Santa Bárbara. Na cena culminante, o cego Antão, vestido de Oxóssi, crava a lança da justiça no peito do coronel, repetindo a iconografia de São Jorge, o Santo Guerreiro, e o Dragão da Maldade. O filme, obra-prima de sincretismo religioso, transforma a estética da fome de Deus e o Diabo numa explosão de cor. Venceu o prêmio de mise-en-scène em Cannes.

E tem o curta Di, que venceu o prêmio especial do júri em Cannes, em 1977. O cineasta transformou o funeral do pintor Di Cavalcanti num verdadeiro happening. A família, escandalizada, conseguiu que a obra fosse proibida. Qualquer um desses filmes garante a imortalidade artística de Glauber Rocha. O restante de sua obra é mais polêmico – o barroco invade e contamina cada vez mais as imagens. O profeta Glauber passa a ser contestado por sua posição, considerada favorável à ditadura. Ele brada – “Estão confundindo minha loucura com minha lucidez.” Vêm a solidão, o exílio, a morte prematura. E o culto ao mito em que se converteu. Glauber foi casado com a atriz e autora Helena Ignez, mas a maior influência sobre ela foi a de Rogério Sganzerla. Sua última mulher, Paula Gaetrán, também virou cineasta. Autora e independente. Os filhos Eryk, Ava e Paloma prosseguiram com seu legado artístico.

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