Glauber em filmes, livros, disco e CD-ROM

A memória de Glauber Rocha está mais viva do que nunca. Passados vinte anos de sua morte, o cineasta baiano é tema de três filmes, dois ensaios publicados em livro e um romance italiano. Se não bastasse, ele terá editados em CD-ROM os livros Revisión Critica del Cine Brasileño (a tradução cubana), que escreveu aos 23 anos, e o romance Riverão Sussuarana.Mês que vem, o Festival de Berlim apresentará o documentário A Rocha que Voa, de Erik Aruak, filho de Glauber com a colombiana Paula Gaitán. O filme, de longa-metragem, registra a produtiva e tumultuada passagem (1970/71) do cineasta por Cuba, país onde realizou, com Marcos Medeiros, o documentário História do Brasil.Neste exato momento, Sílvio Tendler finaliza Glauber Rocha, documentário de longa-metragem que se propõe a construir (a partir dos funerais do cineasta) sua mais completa (e politizada) cinebiografia. As imagens dos funerais de Glauber, captadas por Tendler e equipe, com produção da Embrafilme, ficaram guardadas durante vinte anos. A mãe do cineasta, Lúcia Rocha, não queria que as imagens do filho morto chegassem ao público. Mudou de idéia, depois de insistentes cobranças de "coerência" externadas por diversos amigos. Se Dona Lúcia interditava as imagens do filho, a herdeira de Emiliano Di Cavalcanti (Elizabeth) dispunha de igual justificativa para também interditar Di, o alucinado e poético documentário que Glauber realizou durante os funerais do pintor, premiado em Cannes/77. Dona Lúcia cedeu, mas Elizabeth Di Cavalcanti segue irredutível.Tendler já mostrou a primeira (e enxuta) versão do filme na TV Cultura. Este ano chegará aos cinemas a versão completa, ampliada para película 35 milímetros. Arnaldo Carrilho, presidente da Riofilme, não vê a hora de lançar o novo documentário.O terceiro filme sobre Glauber trará a assinatura de Neville D´Almeida. Trata-se de Meu Filho Glauber, documentário de 60 minutos, que terá Lúcia Rocha como fio condutor. "Sou amigo de Tia Lúcia há 30 anos", diz o sobrinho postiço. "Somos protestantes e freqüentamos a mesma igreja (Presbiteriana) no Rio, a do pastor Nemiass Marien".O sonho de Neville era filmar O Testamento da Rainha Louca, roteiro que recebeu de presente de Glauber. "Passei dez anos buscando financiamento" -- protesta, inconformado. "Mas esta turma do Cinema Novo, estas viúvas de Glauber, estes canalhas que dominam o cinema brasileiro, me boicotaram em todos os concursos de que participei". Mais calmo, Neville volta a falar sobre Meu Filho Glauber: "Como vou filmar em digital, o projeto custará menos de R$ 150 mil. Já encaminhei pedido de patrocínio à Faperj (Fundação de Apoio à Pesquisa do RJ), organismo que está ampliando seu alcance e, por isto, pretende ajudar projetos cinematográficos de reconhecido caráter cultural". "A originalidade de meu projeto" -- detalha -- "se deve ao registro do depoimento de Tia Lúcia sobre o filho. Vamos contar a história de Glauber, de seu nascimento em Vitória da Conquista, até sua morte no Rio, através da mulher que mais o conheceu, sua mãe". O diretor de Rio Babilônia garante que "Tia Lúcia é uma mãe especial". E justifica: "Glauber correu mundo, não parava em nenhum canto. Casou-se várias vezes, mas sempre enchia malas com desenhos, poemas, roteiros, fotos, cartazes, etc, para mandar para a mãe. Era nela que ele confiava. Por isto, esta mulher sabe tudo sobre o filho. Foi mãe, costureira, cozinheira, produtora, enfim, ajudou Glauber em tudo que pôde. Está com 83 anos, lúcida, lutando com todas as suas forças para manter o Tempo Glauber em funcionamento".Se a Faperj apoiar o projeto, Neville fará cópia em vídeo de Meu Filho Glauber, para que seja exibida em escolas e entidades culturais. "Assim, a trajetória de Glauber e sua contribuição ao cinema brasileiro será conhecida pelos jovens. Será conhecido, também, o Tempo Glauber, um memorial que preserva a rica documentação de seu legado cinematográfico, literário e epistolar".Livros - No campo da ficção, Glauber é matéria-prima do romance Mi Ricordi Glauber, do italiano Marco Ferrari (Editora Sellerio, 130 páginas), ainda sem tradução para o português. Já no campo ensaístico, a vasta produção sobre a obra do realizador baiano ganha mais dois importantes textos.A Editora Paz e Terra publica brilhante ensaio de Ismail Xavier (Glauber Rocha: O Desejo da História) no pocket book O Cinema Brasileiro Moderno (que custa apenas R$ 5,00). O pesquisador e professor da USP analisa os subtemas ?O Impulso de Totalização: as Metáforas da História?; ?As Dimensões do Barroco em Glauber? e ?A Religião do Oprimido?. Em apenas 27 páginas, Ismail faz jorrar luz sobre alguns dos mais importantes aspectos da obra glauberiana.A Editora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) acaba de lançar A Épica Eletrônica de Glauber, Um Estudo Sobre Cinema e TV, de Regina Motta. O livro, de 228 páginas, resulta de tese de doutorado defendida na PUC-SP, em abril de 1998. Na apresentação do livro, Regina revela que suas idéias "sobre cultura brasileira, sobre o nacional e o popular, sobre cinema e a função da arte têm suas raízes ancoradas em aspectos do pensamento e da obra de Glauber Rocha". Interessada em analisar a "relação entre cinema e televisão como processo gerador de linguagem", ela mergulhou no estudo do programa Abertura (TV Tupi), do qual Glauber participou, de fevereiro a outubro de 1979.O livro, além de avaliar a relação do cineasta com a TV, fornece aos interessados detalhado levantamento da produção cinematográfica, videográfica e editorial (livros, revistas e jornais) realizada sobre ele, mundo afora. De artigos na Cahiers du Cinéma a programas da TV francesa, de documentários do belga Patrick Bauchau ao lusitano Manuel Carvalheiro, de livros de Sylvie Pierre a Ivana Bentes, passando por Raquel Gerber, José Carlos Avellar e José Gatti.Aos que sonhavam ver, um dia, reunidas no Tempo Glauber, todas as polêmicas participações do cineasta no programa Abertura, Regina esclarece em nota publicada em seu livro (pág. 181): "não foi possível levantar a quantidade exata dos quadros produzidos por Glauber. Considerando que ele atuou no programa de fevereiro a outubro de 1979, com quatro inserções mensais, seriam 32 quadros. A produtora Teletape, responsável pela gravação do material à época, guardou algumas fitas, mas não foi possível ter acesso a elas. No Arquivo Tupi da Cinemateca Brasileira, não há referência alguma sobre o programa. Existem apenas duas fitas no acervo em SP e uma no acervo do CTAV-Funarte-RJ. O Tempo Glauber só tem material reciclado em programas realizados após a morte do cineasta".Mesmo assim, Regina transcreve - outro mérito do livro - a íntegra dos textos dos 16 programas que conseguiu acessar. Inclusive o último (21/10/79), quando Glauber se despede, anunciando: "Estou entrando de férias, porque estou terminando a montagem do meu filme A Idade da Terra - que filmei na Bahia, em Brasília e no Rio - e tem uns livros que estou terminando e depois vou para a Europa, já nos começos de janeiro. Tenho que cuidar da saúde, de formas que estou deixando o programa e entrando de férias (trechos de A Idade da Terra)".Vinte e dois meses depois, Glauber começaria a morrer em Portugal. Chegaria ao Brasil em coma e faleceria, no Rio, no dia 22 de agosto de 1981.

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