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Glauber e Ruy

Imprevisível, mudava de opinião sobre filmes e pessoas com desconcertante rapidez

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 03h00

Só dias atrás fui me dar conta de que Ruy Guerra nasceu no mesmo dia (22 de agosto) em que Glauber Rocha morreu. Com meio século de diferença, claro. Se, além da mera coincidência, algum simbolismo houver, que outro o identifique e explore. 

Conheci ambos ainda cineastas em botão. Em seu ótimo documentário Cinema Novo, em cartaz na Netflix, Eryk Rocha alude mais de uma vez à fraternidade predominante entre os cinemanovistas. Confere. Mas, a exemplo dos Karamazov, aqueles irmãos volta e meia brigavam. 

Uma de minhas mais remotas lembranças de Glauber é uma carta, por ele enviada da Bahia, nos primeiros meses de 1961, para o crítico Ely Azeredo, que a leu para mim, na redação da Tribuna da Imprensa, onde eu acabara de me tornar, a seu convite, o segundo crítico de cinema do jornal.

Na tal carta, o baiano baixava o sarrafo no moçambicano, o acusava de haver plagiado no curta O Cavalo de Oxumaré uma cena de candomblé do ainda inédito Barravento, primeiro longa de Glauber. Todos os rituais de iniciação no candomblé, com galinhas degoladas a jorrar sangue sobre as cabeças raspadas das abiãs, se parecem, daí a inconsistência da acusação de Glauber. Ocorre que a abiã do filme de Ruy era uma morenaça argentina, de 26 anos, chamada Irma Alvarez, superexposta por revistas e jornais da época. 

A diatribe epistolar enviada ao Ely não consta da correspondência de Glauber, recolhida por Ivana Bentes em Glauber Rocha: Cartas ao Mundo (Companhia das Letras, 1997), mas a endereçada ao diretor da revista O Cruzeiro, José Amádio, lá está, com os mesmos impropérios. Não me recordo como aquela rinha chegou ao fim, mas o fato é que, apesar da presença de Irma e do badalo na imprensa, o bori de Barravento foi o que logrou chegar às telas.

No ano seguinte, sacramentada a paz entre os dois em algum reduto do Cinema Novo no Rio, Glauber admitiu, em carta a Paulo Emílio Salles Gomes, que Os Cafajestes era “o melhor filme já realizado em nossas terras”. Três anos mais tarde, trocando ideias com Jean-Claude Bernardet, cobriu o ex-desafeto de elogios (“muito talentoso”), com esta ressalva: “como todo português, tem um amor misturado de má vontade pelo Brasil – isto desde os tempos da invasão holandesa”. 

Ao mandachuva do Instituto de Cinema de Cuba, Alfredo Guevara, Glauber recomendou Ruy como “um elemento de primeira ordem”. E, que eu saiba, nunca mais se estranharam. 

Convivi muito mais com Glauber do que com Ruy, a quem devo um providencial jeans emprestado, no meio de uma festa ao lado de sua casa, na Barra da Tijuca, e diversas observações inteligentes sobre cinema e política, e também a bonomia – atributo não corriqueiro entre seus pares – com que recebeu minhas severas restrições à Ópera do Malandro, que comparei a um imaginário musical alemão, produzido pela UFA. 

Não perdia os artigos de Glauber no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil nem os que enviava da Bahia para O Metropolitano, semanário da União Metropolitana de Estudantes do Rio, em que David Neves e eu cuidávamos da página de cinema. Segundo o próprio Glauber, conhecemo-nos numa sessão da Cinemateca do MAM, no auditório da ABI, onde ele praticamente fez suas primeiras amizades cinematográficas quando trocou de vez Salvador pelo Rio. 

Nossa primeira foto (e a única que possuo) foi feita em Cataguases num festival em torno de Humberto Mauro, em 1961, na companhia de Walter Lima Jr., meu colega de jornal, dois anos depois assistente de Glauber em Deus e o Diabo na Terra do Sol, e finalmente seu cunhado. Acompanhei os nove meses de filmagem de Deus e o Diabo pelas cartas que Walter me enviava do sertão baiano. A convite de Glauber e Walter, varei uma noite assistindo à dublagem do filme, com Othon Bastos dublando a si próprio e o beato Sebastião, com Yoná Magalhães a dormitar numa poltrona a meu lado. Imagine o frisson. Eu era fissurado na Yoná desde os 10 anos de idade.

Não era fácil a convivência com Glauber. Imprevisível, mudava de opinião sobre filmes e pessoas com desconcertante rapidez. Embora admirasse muito Paulo Francis – mútua admiração, diga-se –, a mais de um amigo em comum o acusou de “espião da CIA”, estigma que a outros também assacou, em seus ocasionais desbundes paranoicos. Sobre mim, inventou que concordara com a proibição, pela Censura, de O Desafio, de Paulo César Saraceni, leviandade desmentida pelo próprio Saraceni e a leitura do jornal em que dizia ter lido a informação. 

Com o cunhado Walter Lima Junior, extrapolou: incriminando-o da trágica morte da atriz Anecy Rocha, irmã de Glauber. Ninguém, muito menos a polícia, acreditou na tese alucinada de que Walter teria empurrado Anecy no vão do elevador do prédio em que moravam.

Sempre muito intenso, frequentemente gentil e carinhoso, era um gênio cheio de planos mirabolantes, no mais das vezes movidos a ingenuidade e utopia. Só nas areias de Ipanema, me fez duas propostas teoricamente tentadoras: a produção de cinejornais “de esquerda” e o script de um épico sobre a Guerra Civil americana, contada do ponto de vista dos negros, que seria bancado por Francis Ford Coppola e Marlon Brando. 

Nenhum desses delírios emplacou. Mas um resíduo ficou: ainda em meados da década de 1970, com Glauber na Europa, um telefonema de Los Angeles, estimulado por ele, me pôs em contato com Coppola, que viria e veio ao Rio para curtir o carnaval. Conversamos horas sobre Glauber. Coppola se disse preocupado com o amigo. “Glauber me parece bastante perdido. Precisamos ajudá-lo.” 

Não tive coragem de perguntar ao poderoso cineasta por que o filme sobre a Guerra Civil não havia prosperado. Até porque Glauber podia ter apenas sonhado com o projeto. Como sonhou com adaptar Quarup e tantas outras quimeras. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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