"Glamour" mostra saga de família húngara

O diretor húngaro Frigyes Gödrös esteve esta semana no Brasil, para prestigiar a exibição de seu filme Glamour no V Festival do Cinema Judaico de São Paulo, que termina domingo na Hebraica Glamour terá nova sessão sábado, às 21 horas, no MIS. O filme, inspirado na família do diretor, mostra a saga de uma família judia na Hungria, ao longo de 50 anos de existência, com ênfase na intolerância racial. Enquanto a família vai lutando para manter uma pequena loja de móveis antigos, o filho cresce e se apaixona por uma alemã. As leis do 3.º Reich não permitiam o casamento de uma alemã com um judeu, mas um advogado descobre uma brecha legal: se ela for divorciada, o Reich não se opõe.Eles simulam então um casamento fictício, para que a moça se divorcie. A partir daí, eles passam a ter problemas com a família judia, que também repudia o casamento com uma alemã, especialmente quando o casal resolve batizar o filho. Como pano de fundo, a ascensão do nazismo e, com a derrota dos alemães, a chegada do comunismo. Nos dois sistemas, a loja e a família terão problemas.A aparente distância entre América Latina e Hungria é quebrada por pitadas de realismo fantástico que permeiam a narrativa. Uma camisa branca usada pelo protagonista faz com que ele nunca se canse durante os trabalhos forçados. A mesma camisa se enche de lama, ao ser usada por um alemão. Um cunhado nazista chega no momento mais difícil do domínio alemão e livra a família, para depois desaparecer, tão misteriosamente quanto chegou, em meio a um nevoeiro.O gosto pelo realismo fantástico, comum na literatura latino-americana, especialmente nos anos 60 e 70, se deve à presença na Hungria de cerca de 400 exilados chilenos, que fugiram da ditadura de Pinochet. "Entre eles havia alguns intelectuais, que traduziram várias obras de Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, García Marques e outros mestres latino-americanos", conta Gödrös, em entrevista exclusiva, depois de uma sessão na Hebraica. "Apaixonei-me pelo estilo dos escritores latinos e li alguns livros várias vezes", conta ele, que se prepara para adaptar, em breve, o livro O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez. A ditadura de Pinochet acabou, quem diria, tendo algum benefício para a cultura mundial.Essa adaptação terá uma participação brasileira. A atriz e cineasta Rose Lacreta deverá participar da produção e estuda trazer o filme de Gödrös para ser exibido regularmente no Brasil. "É um filme humano, apaixonante e deve fazer sucesso por aqui", explica Rose, que conheceu o diretor em um recente festival em Portugal.Gödrös conta que o cinema húngaro enfrenta os mesmos problemas do brasileiro. "Um filme húngaro é visto por no máximo 150 mil pessoas", diz. Na Hungria tem-se observado um aumento no número de salas, em função da um febre de shoppings. "Estão construindo muitos shoppings centers por lá", explica.Glamour custou US$ 650 mil e demorou quatro anos para ficar pronto. Quando soube que no Brasil um filme custa cerca de US$ 1 milhão, Gödrös animou-se. "Se me derem um orçamento de US$ 500 mil, eu venho correndo filmar aqui." Ele conta que a TV2, estatal húngara, participa na produção de vários filmes e espanta-se ao saber que a TV brasileira praticamente não investe em cinema. "A participação da TV é fundamental, pois ajuda na divulgação e, posteriormente, ao exibir o filme, populariza nosso cinema." Glamour integrou a seleção oficial do Festival de Berlim deste ano e foi premiado na Semana do Filme Húngaro.

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